4 em cada 10 usuários de crack nunca foram avaliados por um médico

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A pesquisa mostra que mais da metade (dos usuários), 56%, está disposta a largar o crack. É um índice alto, que me surpreendeu

Um censo inédito da população da Cracolândia feito pelo programa estadual de combate ao crack, o Recomeço, e obtido pelo jornal O Estado de S. Paulo revela que quase 40% dos usuários nunca passaram por uma avaliação de saúde. Isso apesar de um terço frequentar a região há mais de cinco anos e de Estado e Prefeitura terem ações voltadas ao tratamento dessa população há pelo menos dez anos. O número de dependentes sem acompanhamento médico pode chegar a 283, tendo em vista a média das contagens de pessoas no fluxo obtida pelo estudo: 709.

"Estou no fluxo há 29 anos", conta Adailton Ferreira de Souza, de 45 anos, possivelmente um dos frequentadores mais antigos da Cracolândia da Luz. Ele passa o dia sobre um cobertor na Alameda Cleveland, ao lado da mulher, Otaviana Moreira Campos, de 46, grávida de 5 meses. "Nunca fui ao hospital, nunca fiz exame, nada. O pessoal até chama, mas eu não sinto dor no corpo, dor de cabeça, nunca desmaiei, nunca tive tontura. Não preciso, estou bem de saúde", diz ele. A mulher afirma só entrar nos postos de atendimento da região para "pegar água". "Nunca fui para o médico nem precisei fazer pré-natal. E olhe que eu tenho dez filhos", afirma Otaviana.

Coordenado pelo psiquiatra Marcelo Ribeiro e pela psicóloga Clarice Madruga, ambos do Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod), da Secretaria de Estado da Saúde, o censo ouviu 107 pessoas entre e maio e junho do ano passado. O resultado mostra também que 68% dos dependentes vivem nas ruas, 54% têm filhos menores de idade, 69% estão à procura de ajuda e 31% já sofreram ao menos uma overdose na vida.

"É a primeira vez que se faz um levantamento sociodemográfico da Cracolândia. Saber o perfil das pessoas que frequentam a área é essencial para operacionalizar melhor nossas ações", diz Ribeiro que é diretor do Cratod. 

"A pesquisa mostra que mais da metade (dos usuários), 56%, está disposta a largar o crack. É um índice alto, que me surpreendeu. Temos de dar respostas a essas pessoas", diz Clarice. Para Ribeiro, a responsabilidade do poder público aumenta. "Com o censo, passamos a saber de fato o que sempre imaginamos de forma empírica. O crack não mata sozinho."

Perfil. No universo dos dependentes que formam a Cracolândia, 79 4% são homens, 16,8%, mulheres, e 3,7% se declaram transexuais. A maioria não trabalha, passou a morar nas ruas em função do vício, não terminou o ensino fundamental e tem origem no Estado – 42% são da capital.

Para o secretário estadual de Desenvolvimento Social, Floriano Pesaro, os dados levantados pela pesquisa indicam que as políticas públicas falharam, apesar dos recursos estaduais e municipais empregados nos últimos anos. E a pesquisa só reafirma a necessidade de se aprimorar as abordagens de agentes sociais. "O novo programa que estamos desenhando em parceria com a Prefeitura (Redenção) vai focar neste aspecto. Vamos criar um padrão de abordagens. A meta será atingir 100% da população, não apenas 60%, como é hoje. Os agentes terão de ser persistentes. Os usuários precisam chegar aos serviços de saúde, que existem e funcionam." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.


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Sífilis é uma das principais preocupações em relação a usuários de crack

O censo ainda confirma alerta dado por muitos especialistas em saúde pública: a dependência química não é a única doença enfrentada pelos usuários. Segundo a pesquisa, uma a cada cinco pessoas da Cracolândia já contraiu sífilis. Tuberculose, hepatite e aids são outras doenças associadas a muitos. Outro dado aponta que 60,6% dos dependentes já trocaram dinheiro por sexo – e, segundo especialistas, a relação sexual é uma das principais maneiras de transmitir as doenças registradas entre os moradores e frequentadores da área. Outros 31% já tentaram se matar. 

"Até hoje a gente trata o crack como se ele fosse um problema de polícia. Não, é problema de saúde pública. A sífilis é mais grave que o vírus zika", afirma o professor da Faculdade de Saúde Pública da USP Gonzalo Vecina. "A mulher que a contrai terá filhos com sífilis congênita, doença que compromete todo o desenvolvimento do bebê. É muito grave isso, pois estamos falando de uma doença que tem diagnóstico e tratamento baratos."

Para Vecina, os dados revelados não surpreendem. "Os drogaditos, geralmente, têm baixa imunidade e vivem em condições adversas de vida, o que pode levar, sim, a quadros de tuberculose, por exemplo", diz, referindo-se à taxa de 12,4% levantada pelo censo. De acordo com o professor, a pesquisa é importante porque mostra claramente os outros riscos a que são submetidos os dependentes, e sem que o Estado atente para isso.

Redenção. O secretário municipal da Saúde, Wilson Pollara, afirma que o futuro programa municipal de combate ao crack vai dividir os dependentes da Cracolândia de acordo com suas características físicas e mentais, a fim de personalizar o atendimento médico dedicado a eles. "Vamos ter classificação específica, que vai nos ajudar na condução das políticas. Cada um precisa ser avaliado individualmente." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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