Uma em cada três pastas está com ministro ‘tampão’

FOTO: VALTER CAMPANATO/AGÊNCIA BRASIL

Até agora, Dilma conseguiu manter cinco dos sete titulares do PMDB. Mesmo assim, passada a derrota na Câmara, o governo tem um terço dos 30 ministérios chefiado por "tampões"

A autorização para abertura do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff já começa a provocar uma debandada no primeiro escalão, mas o Palácio do Planalto ampliou a ofensiva para segurar ministros. Até agora, Dilma conseguiu manter cinco dos sete titulares do PMDB. Mesmo assim, passada a derrota na Câmara, o governo tem um terço dos 30 ministérios chefiado por "tampões".

Os ministros da Saúde, Marcelo Castro, e da Ciência e Tecnologia Celso Pansera, mantiveram-se fiéis a Dilma e foram reconduzidos aos cargos. Eles haviam deixado os postos e reassumido suas cadeiras na Câmara apenas para votar contra o impeachment. 

Na noite de segunda-feira, o titular dos Portos, Helder Barbalho (PMDB), estava disposto a entregar o cargo a Dilma, mas ela pediu sua ajuda e o convenceu a ficar, ao menos por enquanto. Helder é filho do senador Jader Barbalho (PMDB-PA).

O ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga (PMDB), que era líder do governo no Senado, permanecerá na equipe. "Não podemos tomar nenhuma medida de forma precipitada e não farei isso", disse Braga. O governo não teria mais um voto com o retorno de Braga ao Senado porque a mulher dele, Sandra, também filiada ao PMDB, é sua suplente. A ministra da Agricultura, Kátia Abreu (PMDB), fica por enquanto à frente da pasta, mas, se for necessário, pode reassumir sua cadeira no Senado para votar contra o impeachment.

Dilma demitiu Mauro Lopes, que era do PMDB e comandava a Aviação Civil. No plenário da Câmara, ele votou pela deposição da presidente. "Portanto, não é mais ministro do meu governo", afirmou ela. Lopes ocupava o cargo que já foi de Eliseu Padilha, braço direito do vice-presidente Michel Temer. A nomeação dele agravou ainda mais a relação entre a presidente e o vice.

A posse de Lopes foi no mesmo dia que a do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como chefe da Casa Civil. Desde que o Supremo Tribunal Federal suspendeu a nomeação de Lula, Eva Chiavon é quem tem assinado as decisões da Casa Civil no lugar de Jaques Wagner, transferido para o Gabinete Pessoal da Presidência. Nesta segunda, 18, Dilma disse esperar que o Supremo autorize Lula a assumir a pasta nesta semana.

Traição
Uma das traições que mais irritaram a presidente foi a de Gilberto Kassab (PSD), que deixou o Ministério das Cidades na sexta e teve a exoneração confirmada na segunda. Na carta de demissão, Kassab disse concordar com Dilma na necessidade de um pacto. "Defendemos com vigor a convivência e harmonia entre as diferentes posições como garantia de governabilidade", escreveu Kassab, que negocia com Temer. 

Com a deserção do PP, Gilberto Occhi deixou o cargo e Josélio de Andrade Mouro é quem assumiu interinamente o Ministério da Integração. Mouro entrou na sexta-feira, depois do cancelamento da nomeação de José Rodrigues Pinheiro Dória para exercer, também interinamente, a função. Apesar de integrar o PP, Dória ficaria no posto na cota da ala governista da legenda. No mesmo dia em que foi nomeado, porém, Dória resolveu renunciar ao cargo de ministro porque o PP optou não só por abandonar a base do governo, mas também por fechar questão a favor do impeachment, punindo os dissidentes.

O Turismo foi outro que ficou sem titular depois que Henrique Alves (PMDB) saiu. No seu lugar entrou o secretário executivo, Alberto Alves.

Às vésperas da Olimpíada, o Esporte está sendo chefiado por Ricardo Leyser Gonçalves, na vaga de George Hilton, que havia se desfiliado do PRB para continuar na pasta depois que a sigla decidiu romper com o governo. Leyser é do PC do B e era o responsável no governo por cuidar dos temas relativos aos Jogos Olímpicos. Nas fileiras do PT, Dilma reconduziu, na segunda, o ministro do Desenvolvimento Agrário, Patrus Ananias, outro que havia retornado à Câmara apenas para votar contra o impeachment.


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Senadores petistas já veem altas chances de Dilma ser afastada

Dois dia após a Câmara ter decidido aprovar a abertura de processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff, senadores do PT e de outros partidos da base aliada admitiram que a chance de afastamento da petista é de 90%.

Em encontro a portas fechadas promovido na liderança do governo no Senado nesta segunda-feira, 18, os participantes reconheceram que a situação da presidente é, nas palavras de um deles, "muito difícil", mas não "irreversível".

Durante a reunião, a avaliação geral foi de que, apesar do momento adverso, o governo tem chances de impedir o afastamento de Dilma no Senado. A estratégia dos senadores é impedir que se aprove a instauração do processo por maioria simples do plenário da Casa, o que levaria à automática assunção do vice-presidente Michel Temer (PMDB-SP) ao comando do Palácio do Planalto.

Reservadamente, os petistas e aliados consideram que, se Dilma for afastada, não terá condições políticas de voltar futuramente. O consenso dos presentes ao encontro foi de que a presidente não escaparia da condenação no processo pelo plenário a ser aprovada por dois terços dos senadores, o que representa 54 dos 81 parlamentares.

Os senadores governistas devem investir em várias frentes para tentar reverter o quadro adverso: a atuação do presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL), adversário histórico de Temer no PMDB; o trabalho de convencimento dos indecisos e de reversão de votos de ex-aliados e o uso de ações judiciais para barrar eventuais situações adversas, como prazos regimentais encurtados e escolha de integrantes da Comissão Especial para funções-chave como presidência e relatoria.

O PSB é um dos alvos: na Câmara, o partido fechou questão a favor do impeachment e, dos 32 deputados, 29 se manifestaram contrários a Dilma. O partido, com sete senadores, divulgou nota contra a punição da presidente.

Os petistas vão rejeitar qualquer indicação para a relatoria da comissão de um senador filiado a partido interessado no impeachment de Dilma, como é o caso da senadora Ana Amélia (PP-RS), partido que fechou questão a favor do afastamento da presidente. "Podemos até não fazer a indicação do PT, mas temos que participar disso", disse o líder do governo no Senado, Humberto Costa (PE).

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