Temer diz que não renuncia e que não comprou silêncio de ninguém

Valter Campanato/Agência Brasil

Temer disse que não precisa de foro especial e que não tem nada a esconder. "Sempre honrei meu nome"

Carla Araujo, Tania Monteiro e Idiana Tomazelli

Visivelmente irritado e com a voz firme, gritando até em alguns momentos, o presidente Michel Temer fez na tarde desta quinta-feira, 18, um pronunciamento e afirmou que não vai renunciar ao cargo. "Não renunciarei. Repito: não renunciarei", disse.

Temer afirmou ainda que não precisa de foro especial e que não tem nada a esconder. "Sempre honrei meu nome." O presidente negou ainda que tenha autorizado que o empresário da JBS, Joesley Batista, a comprar o silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha. "Nunca autorizei que utilizassem meu nome indevidamente. Quero registrar enfaticamente que a investigação pedida pelo STF será peremptória onde surgirão todas explicações. Mostrarei que não tenho nenhum envolvimento com estes fatos", completou.

O presidente justificou a demora em se pronunciar. Disse que estava esperando os áudios do empresário que "até o momento não conseguiu". "Ressalto que só falo agora dos fatos de ontem porque tentei conhecer primeiramente o conteúdo de gravações que me citam. Solicitei oficialmente ao Supremo Tribunal Federal acesso a estes documentos. Até o presente momento, não consegui", disse.

Temer não citou o nome de Joesley nem de Cunha e justificou que ouviu de "um empresário" um relato de auxílio à família do parlamentar. "Não solicitei que isso acontecesse e somente tive conhecimento deste fato nesta conversa pedida pelo empresário", afirmou. "Em nenhum momento, autorizei que pagasse a quem quer que seja para ficar calado. Não comprei o silêncio de ninguém. Por uma razão singelíssima, exata e precisamente por que não temo nenhuma delação", afirmou.

O presidente disse ainda que exige investigação "plena e muito rápida para esclarecimentos ao povo brasileiro". "Não podem tardar as investigações". "Esta situação não pode persistir por muito tempo. Não podem tardar as investigações. Tanto esforço e dificuldades superadas. Meu único compromisso é com o Brasil. Só este compromisso que me guiará", finalizou.

Pelo Brasil
No discurso, Temer lamentou o fato das denúncias envolvendo seu nome surgirem em um momento em que o País começa a se recuperar economicamente. "Quero deixar muito claro, dizer que meu governo viveu nesta semana seu melhor e pior momento. Os indicadores de queda da inflação, os números de retorno do crescimento da economia e dados de geração de emprego criaram esperança de dias melhores. O otimismo retornava e as reformas avançavam no Congresso", disse. "Ontem, contudo, a revelação de conversas gravadas clandestinamente trouxe fantasmas de crise política de proporção ainda não dimensionada", completou.

Temer disse ainda que os esforços que o seu governo fez não podem se tornar inúteis. "Não podemos jogar no lixo a história de tanto trabalho", disse.
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Fachin autoriza abertura de inquérito contra presidente do Senado

Breno Pires e Rafael Moraes Moura

Além do presidente Michel Temer (PMDB), o ministro Edson Fachin autorizou a abertura de um novo inquérito contra o presidente do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE), no âmbito da Lava Jato. 

O ministro Fachin também autorizou o fim do sigilo deste que é o segundo procedimento investigatório aberto contra o chefe do Congresso, mas os detalhes ainda não estão disponíveis no sistema do Supremo Tribunal Federal. Ainda não se sabe se há alguma relação com as informações trazidas pela JBS, que foram homologadas pelo ministro Fachin.

O processo deu entrada no STF em outubro de 2016 como uma petição e estava tramitando de forma sigilosa até esta quarta-feira. 

"A manifestação do órgão acusador revela que não mais subsistem, sob a ótica do sucesso da investigação, razões que determinem a manutenção do regime restritivo da publicidade, também não se constatando qualquer razão que assim determine em favor do requerido", disse Fachin, na decisão.

No despacho de Fachin que retira o sigilo do inquérito, o ministro também determinou a remessa à Polícia Federal para atender a diligências pedidas pela Procuradoria-Geral da República e abriu um prazo de 60 dias para o cumprimento.

Odebrecht
Em 11 de abril, Fachin já havia aberto um inquérito contra Eunício Oliveira, com base nas delações da Odebrecht, sob a suspeita de que recebeu R$ 2 milhões em troca de atuação no Congresso Nacional para converter medidas provisórias em lei em benefício do grupo baiano.

Eunício, neste inquérito, é investigado em conjunto com os também senadores Romero Jucá (PMDB-RR) e Renan Calheiros (PMDB-AL) e para os deputados Rodrigo Maia (DEM) e Lúcio Vieira (PMDB-BA). O grupo teria recebido um montante total de R$ 7 milhões em vantagens indevidas.

A reportagem procurou a assessoria de imprensa, o advogado e o próprio senador, mas não teve as chamadas telefônicas atendidas.

Julgamento da chapa Dilma-Temer está mantido para o dia 6 de junho

Rafael Moraes Moura e Breno Pires

Em meio ao aprofundamento da crise política, o vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Luiz Fux, disse nesta quinta-feira, 18, que está mantida a data de 6 de junho para a retomada do julgamento da ação que apura se a chapa de Dilma Rousseff (PT) e Michel Temer (PMDB) cometeu abuso de poder político e econômico para se reeleger em 2014.

Indagado pela reportagem se a data prevista para o julgamento está mantida, Fux limitou-se a dizer: "Está".

O presidente do TSE, ministro Gilmar Mendes, deve retornar a Brasília na noite desta quinta-feira, depois de cumprir viagem oficial na Rússia, onde participou de conferência sobre eleições.

As novas revelações trazidas pela delação da JBS aprofundaram a crise política em Brasília e podem complicar a situação de Temer no TSE, avaliam interlocutores dos integrantes da Corte Eleitoral ouvidos pela reportagem.

A delação premiada de Joesley Batista e de seu irmão Wesley não faz parte do processo que apura se a chapa de Dilma e Temer cometeu abuso de poder político e econômico para se reeleger em 2014. Mesmo assim, fontes que acompanham de perto o processo no TSE ressaltam que pode haver uma contaminação política no resultado do julgamento, que será retomado no dia 6 de junho.

"As revelações podem impressionar e impactar a cabeça de cada ministro. Mas faltam 20 dias (para o julgamento), as coisas podem mudar até lá", disse um ex-integrante da Corte Eleitoral que pediu para não ser identificado.

Segundo fontes ouvidas pela reportagem, o conteúdo explosivo da JBS pode esvaziar a alegação da defesa de Temer de que a manutenção do presidente no cargo preservaria a estabilidade política do País.

"Deve ter-se especialmente em conta (…) a atual situação do País, que em nada recomenda medida dessa extensão, em virtude das consequências imediatas que seriam por ela acarretadas, tanto na estabilidade política como no imprevisível comportamento da economia", dizem os advogados de Temer em suas alegações finais, ao alertarem para as consequências da cassação do presidente.

No entanto, o aprofundamento da crise política, a não aprovação de reformas consideradas essenciais pelo Planalto para colocar a economia nos eixos e os baixíssimos índices de aprovação do governo podem criar uma "tempestade perfeita" e lançar mais incertezas sobre a situação de Temer no TSE, pondera um ministro do STF ouvido reservadamente pelo jornal O Estado de S. Paulo.

 


 

 

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