Tamanho dos atos surpreende governo

Foto: Agência Brasil

O Planalto avaliava que o dia de protestos poderia ser maior do que os últimos três, mas nunca na dimensão registrada no domingo

O governo se surpreendeu com a multidão que ocupou as ruas em todo o País. O protesto deste domingo, 13, bateu recorde de público na comparação com os demais realizados no segundo mandato da presidente Dilma Rousseff. 

A presidente, que passou o domingo no Palácio da Alvorada acompanhando as mobilizações, reuniu um grupo de ministros ao longo da tarde e início da noite para definir a estratégia a ser adotada pelo governo como reação às manifestações.

O Planalto avaliava que o dia de protestos poderia ser maior do que os últimos três, mas nunca na dimensão registrada no domingo. Por volta das 20h, a Presidência divulgou uma nota sucinta, de quatro linhas, na qual destacou o "caráter pacífico das manifestações", que demonstra a "maturidade de um País que sabe conviver com opiniões divergentes e garantir respeito às leis e às instituições". 

"A liberdade de manifestação é própria das democracias e por todos deve ser respeitada", diz o texto divulgado.

O governo federal teme que os atos fortaleçam o processo de impeachment da presidente, que deve ser retomado pelo Congresso Nacional ainda nesta semana.

O presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), já avisou a parlamentares que a Casa pretende retomar o processo de impedimento da presidente assim que o Supremo Tribunal Federal (STF) concluir o julgamento sobre o rito do impeachment, o que está previsto para acontecer na próxima quarta-feira.

Os ministros Jaques Wagner (Casa Civil), Edinho Silva (Comunicação Social), Ricardo Berzoini (Secretaria de Governo) e José Eduardo Cardozo (Advocacia-Geral da União) fizeram ontem o balanço do dia e discutiram com Dilma os próximos passos do governo. 

Até o final da última semana, o governo avaliava que os atos de domingo seriam maiores que os três últimos, no rastro da delação premiada do ex-líder do governo no Senado Delcídio Amaral (PT-MS) e da condução coercitiva do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no depoimento à Polícia Federal. O monitoramento feito pelo Palácio do Planalto não indicava, porém, que as adesões poderiam superar as dos protestos de março de 2015.

Dilma se preocupa com o esfacelamento da base aliada, depois do aviso prévio dado pelo PMDB ao governo. Na convenção nacional de sábado, 12, o partido definiu prazo de 30 dias para discutir o desembarque oficial da gestão petista e a entrega de cargos atualmente ocupados. Até lá, peemedebistas ficaram impedidos de assumir novos postos no governo federal. Muitos no Planalto falam na necessidade de uma "concertação", sem indicativos concretos de como a ideia pode sair do papel.

Pacto
Em conversas reservadas, interlocutores da presidente Dilma dizem que é preciso viabilizar um pacto nacional para o País sair da crise, mas ainda não conseguem definir os próximos passos a serem dados nesse sentido. 

"A situação é muito difícil", disse um ministro ao jornal O Estado de S. Paulo. "Os problemas não são poucos e matamos muitos leões por dia. Mas achamos que nem todos os caminhos estão interrompidos", analisou.


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Paródias ironizam Dilma e Lula na manifestação em frente ao Congresso

Ao lado de um boneco gigante do Pixuleco, inflado diante do Congresso Nacional, um trio elétrico com a faixa "Impeachment já" executa músicas que ridicularizam a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A frase da "saudação à mandioca", feita por Dilma na abertura dos jogos indígenas no ano passado, é entoada, em ritmo de funk, repetidamente. Também o funk "Baile de favela" é executado com o refrão "O Lula é baile de propina". Há também uma paródia do "Funk do Muriçoca" com a frase "Quem pica é a mosquita", em referência a uma declaração da presidente Dilma em "aula" para crianças sobre a transmissão do vírus da zika. 

O movimento na Esplanada dos Ministérios aumenta a cada instante. O empresário Guilherme Desordi, de 27 anos, compareceu fantasiado de super-herói. "Hoje eu sou super Sérgio Moro. Ele é o maior herói do País atualmente", disse o jovem, falando sobre o juiz federal que conduz o processo da Operação Lava Jato. Com uma capa e carregando um boneco inflável, ele levou para a manifestação o sobrinho, de apenas um ano, que brincava também com um mini Pixuleco.

Um caminhão de som do movimento "Limpa Brasil" fez uma parada em frente à Catedral Metropolitana de Brasília e iniciou uma oração para agradecer ao fato de não ter chovido no dia marcado para a manifestação. "Estamos aqui reunidos em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo", bradou um dos líderes do movimento, seguido pela multidão em volta do trio elétrico. 

Também presente na manifestação, líderes do Movimento Vem Pra Rua gritam palavras de ordem. "A rua é muito maior do que as urnas" e "impeachment nos olhos dos outros é golpe" são algumas das frases entoadas.


Em cidade vizinha à de Lula, moradores pedem desculpa por 'filho corrupto'

Em Pernambuco, além do Recife, outras duas cidades registraram manifestações contra o governo da presidente Dilma Rousseff: Garanhuns e Petrolina. As ações, segundo os organizadores, não têm vinculação com os movimentos Vem Pra Rua e Estado de Direito que comandaram os atos na capital.

Em Garanhuns, cidade localizada no Agreste pernambucano, cerca de 250 pessoas, segundo cálculos do Batalhão de Polícia Militar na região, participaram de uma caminhada, no fim da manhã, pelas principais ruas da área central do município. Garanhuns fica a 27 quilômetros de Caetés, terra natal do ex-presidente Lula. 

Durante a manifestação, em alguns dos discursos os protagonistas pediram "desculpas ao Brasil, pelo filho corrupto que havia saído daquela região". Os participantes carregavam faixas e cartazes em apoio a Operação Lava Jato e em defesa do impeachment da presidente Dilma Rousseff e pedindo a prisão de Lula.

"Ninguém aguenta mais essa situação em que o Brasil está. O Lula saiu daqui e sabe o que é pobreza. Nunca imaginamos que ele se venderia por dinheiro. Ele traiu a todos nós. E a Dilma foi pelo mesmo caminho. Queremos o impeachment já", afirmou o comerciante Divaldo Fraga, 43. 

Em Petrolina, no Sertão, pouco mais de 30 pessoas, segundo a PM local, fez uma rápida caminhada pela orla da cidade, carregando faixas e cartazes contra a presidente Dilma, Lula e o PT. Um homem fantasiado do juiz Sérgio Moro circulou, de moto, buzinando pelas ruas centrais da cidade, chamando a atenção da população. Não houve registro de confronto em nenhuma das duas cidades.


Imprensa internacional repercute manifestações no Brasil

As manifestações contra o governo da presidente Dilma Rousseff no Brasil foram noticiadas com destaque pela imprensa internacional no domingo. Os sites de notícias salientaram as dimensões dos protestos e a fragilidade em que se encontra o governo brasileiro diante dos casos de corrupção investigados na Operação Lava Jato.

De acordo com o site do jornal britânico The Guardian, os atos aumentam as dúvidas sobre a capacidade da petista completar os quatro anos de mandato, em reflexo à "frustração" manifestada nas ruas e em um momento econômico que o jornal classifica como "a pior recessão do século". 

Nos Estados Unidos, o Washington Post destacou que o número de manifestantes deste domingo superou o das Diretas Já, afirmando que os atos aumentam a pressão sobre "o combalido governo Dilma, enquanto ela sofre para se manter no poder menos de 18 meses após sua reeleição". O jornal também aborda o fato de a condução coercitiva do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter inflamado os movimentos e disse que ele foi "formidavelmente popular" durante seus mandatos. 

O francês Le Monde destacou a fala da presidente Dilma, que disse na sexta-feira que não há motivos para renúncia e que ficaria orgulhosa de ter Lula como um de seus ministros. O jornal também abordou a condução coercitiva do ex-presidente, classificando-a como "humilhante". 

O jornal argentino Clarín observou que estas foram "as primeiras manifestações apoiadas por partidos da oposição de forma explícita", enquanto o espanhol El País ressaltou as demandas dos manifestantes pela prisão de Lula e pelo fim da corrupção, dizendo que os movimentos foram as manifestações mais "massivas" da democracia brasileira. 

O El país também comparou as manifestações deste domingo com os atos contra o aumento da tarifa de transporte em 2013, notando que, à época, os manifestantes exigiam melhorias na qualidade da educação e do transporte público, enquanto os últimos movimentos têm como foco a saída do PT do poder. 

Já o portal da rede de TV árabe Al Jazira abordou o caráter pacífico dos atos deste domingo, além das tímidas manifestações em defesa do governo petista observadas nas regiões periféricas de São Paulo.

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