Sistema político brasileiro está em colapso, diz Ciro Gomes

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Ciro: "Nosso déficit na balança comercial de manufaturados já está em US$ 110 bilhões. A gente foi adiando o confronto desse problema, atenuando a percepção da catástrofe, em função de um ciclo positivo de preços de commodities"

O ex-ministro da Fazenda e ex-governador do Ceará, Ciro Gomes, disse na sexta-feira, 22, no evento Brazil Conference, promovido pela Universidade Harvard e o Massachusetts Institute of Technology (MIT), que o sistema político brasileiro está em colapso. Segundo ele, o êxito civilizatório de uma nação depende da obra política, que coordena o desenvolvimento, mas no Brasil hoje existe um vácuo de poder.

"Esse vácuo é substituído por interesses pessoais, um movimento de ascensão pentecostal e ladroeira. Eduardo Cunha não virou presidente da Câmara – sendo o bandido que é – por acaso. Ele comprou 250 deputados", comentou Ciro. Ele também criticou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que em 1998 abandonou uma agenda de reformas estruturantes em troca da mudança na Constituição para autorizar sua reeleição.

Segundo Ciro, por detrás do êxito civilizatório de uma nação existem três elementos: alto nível de formação bruta de capital, "que é consequência de arranjos institucionais que a política faz"; coordenação estratégica entre governos empoderados, empreendedores em consenso com essa visão e universidades comprometidas a construir respostas; e investimento em formação de pessoal.

O ex-governador comentou que a recente melhora na balança comercial do Brasil ocorre apenas em função da recessão, mas o problema nas contas externas é estrutural. "Nosso déficit na balança comercial de manufaturados já está em US$ 110 bilhões. A gente foi adiando o confronto desse problema, atenuando a percepção da catástrofe, em função de um ciclo positivo de preços de commodities", explicou.

Segundo ele, hoje esse superciclo das commodities acabou e isso afeta a economia brasileira, independentemente de quem seja o presidente. "Hoje, a produção do pré-sal custa US$ 41 o barril e nós estamos vendendo a US$ 30. Isso é real, não adianta dizer que é culpa de Dilma, de Lula", comentou.


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O ex-ministro da Fazenda e ex-governador do Ceará, Ciro Gomes, fez um alerta neste sábado, 23, para a proporção da dívida pública em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e destacou o risco de o atual cenário político-econômico resultar em uma crise bancária no Brasil. "Hoje, é preciso colocar muita clareza no manejo da dívida pública no País. É necessário compreender o galope da dívida como proporção do PIB, do contrário a iminência da crise será uma crise bancária no País", afirmou no Brazil Conference, evento realizado em Boston, nos Estados Unidos, pela Universidade Harvard e o Massachusetts Institute of Technology (MIT). Ciro Gomes se referia à importância de o Brasil fazer reformas tributária e fiscal.

Segundo ele, o Estado é ineficiente e gasta mais onde não devia. O político diz que em setores necessários como educação e saúde, o desembolso público per capita está abaixo do ideal, enquanto os maiores gastos são com previdência e juros da dívida pública. "Temos um estrangulamento de financiamento crônico no Brasil e a taxa de juros mais cara do planeta", destacou Gomes, reforçando a necessidade de um debate em torno do tema.

Embora não concorde com o governo atual, o ex-ministro da Fazenda avaliou que o Brasil está perdendo sua condição democrática à medida que ocorre o que chamou de golpe no País, em referência ao processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. "O Brasil está perdendo a condição democrática, a prevalência da soberania popular." Ressalvando ser um crítico do governo – "ele é mau e falha em todas as questões" – Ciro Gomes disse que o ex-presidente Michel Temer está "golpeando o País". 

O ex-governador comparou ainda a situação brasileira à enfrentada pelo Paraguai, com a destituição do presidente Fernando Lugo, e também à da Venezuela. "Estão se utilizando de protocolos no País e da propaganda para implementar um golpe." Ele voltou a atacar o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. "É um gângster mesmo e está pilotando um golpe de Estado. É réu do Supremo Tribunal Federal (STF) por desvios, lavagem de dinheiro, contas ilícitas no exterior. A Justiça só achou a ponta de iceberg", declarou.

Para Ciro Gomes, a realização de dois processos de impeachment no Brasil em 24 anos "não é pouca coisa", disse, lembrando o impedimento de Fernando Collor de Mello, em 1992. Ele apontou ainda a tentativa de, no passado, o PT tentar destituir Fernando Henrique Cardoso do comando do País.

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