Pressionado, Temer repensa ideia de desmembrar Ministério do Desenvolvimento

FOTO: AGÊNCIA BRASIL

O problema do projeto de um Itamaraty com forte viés comercial é que sua formação dependeria do desmonte do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), onde hoje está a estrutura do governo voltada ao comércio exterior

A ideia de criar um Ministério das Relações Exteriores "turbinado" com a área de comércio exterior corre sério risco de não sair do papel. Ontem, 3, ela voltou a ser atacada pelo presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, que se reuniu com o vice-presidente Michel Temer. Nos bastidores, há quem dê como certo que a ideia será engavetada. Porém, o vice ainda não bateu o martelo. A informação é que ele está "conversando" a respeito.

O problema do projeto de um Itamaraty com forte viés comercial é que sua formação dependeria do desmonte do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), onde hoje está a estrutura do governo voltada ao comércio exterior. O restante da pasta, incluindo aí o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), migraria para o Ministério do Planejamento.

Isso provocou a reação das entidades representativas da indústria. "A proposta que deixei ao presidente é o fortalecimento do ministério da produção e não o desmonte", ressaltou Skaf na saída do encontro. "O problema do Brasil é recuperar a produção brasileira, recuperar emprego, fortalecer e buscar a retomada do crescimento através da produção, do emprego do trabalho. A última coisa que se possa pensar é enfraquecimento e muito menos a eliminação do ministério que representa a produção", acrescentou o dirigente. Ele afirmou que não foi convidado nem é candidato a tornar-se ministro.

Na semana passada, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) também havia se posicionado contra a ideia. As entidades empresariais atuaram fortemente pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff. Elas publicaram anúncios nos jornais tomando posição pelo afastamento. Também deram suporte às manifestações pró-impeachment.

Toda essa incerteza deixou em suspenso o destino do principal cotado para assumir o Itamaraty fortalecido: o senador José Serra (PSDB-SP). Na segunda, ele reuniu-se com Temer, mas saiu sem dar declarações. A pasta havia sido desenhada sob medida para dar a ele um papel de destaque no governo. Sua missão seria fortalecer as exportações por meio de novos acordos comerciais, potencializando uma área da economia que já dá tênues sinais de recuperação.

Na hipótese de o MDIC continuar como está, não é certo que Serra iria chefiá-lo. Primeiro, porque Temer o convidou para o Ministério das Relações Exteriores. Segundo, porque o Desenvolvimento é visto, na lógica do poder da Esplanada, como menos prestigioso do que as que Serra já ocupou, como Planejamento e Saúde, que são pastas tradicionais. O mesmo vale para o Itamaraty.


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Skaf critica possibilidade de desmonte do Ministério do Desenvolvimento

Em reunião realizada na terça-feira, 3, com o vice-presidente Michel Temer, o presidente Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Paulo Skaf, criticou a possibilidade de o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio ser desmembrado em eventual governo Temer.

Nas conversas realizadas nos últimos dias entre Temer e aliados, um dos desenhos traçados para acomodar o senador José Serra (PSDB-SP) é o de o tucano assumir a pasta de Relações Exteriores. Serra ficaria também com as atribuições de comércio exterior, atualmente concentradas no Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio.

"A proposta que deixei ao presidente é o fortalecimento do ministério da produção e não o desmonte", ressaltou Skaf na saída do encontro. "O problema do Brasil é recuperar a produção brasileira, recuperar emprego, fortalecer e buscar a retomada do crescimento através da produção, do emprego, do trabalho. A última coisa que se possa pensar é enfraquecimento e muito menos a eliminação do ministério que representa a produção", acrescentou o dirigente.

Skaf negou que possa integrar o novo governo Temer, previsto para ser iniciado após possível aprovação do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, na comissão especial do Senado.

O dirigente também voltou a se posicionar contra qualquer possibilidade de se aumentar a arrecadação com a criação de novos impostos. Uma das alternativas apontadas por ele como forma de se ter novas receitas é a aprovação do projeto no Congresso que trata de repatriamento de recursos no exterior. "Fizemos um estudo que é possível sim se ajustar o orçamento no sentido de reduzir gastos, não trabalhar com aumento de impostos e a diferença que possa faltar pode ser suprida pelo repatriamento de recursos", defendeu.

Questionado sobre a posição de Temer em não propor novos impostos, Skaf respondeu: "Ele reconhece que da forma que está a economia, da forma que estão as empresas, da forma que o cenário real se apresenta, não é momento de se pensar em aumento de impostos e por outro lado há necessidade de um ajuste".


Temer espera nome do PP ou 'notável' apadrinhado para Ministério da Agricultura

O vice-presidente da República, Michel Temer (PMDB), aguarda a indicação de um nome do PP para o Ministério da Agricultura. O nome pode ser tanto de um parlamentar, ou de um "notável" do agronegócio, de preferência apadrinhado pelo partido. "Ele (Temer) vai aguardar o PP", resumiu ao Broadcast, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado, um dos interlocutores de Temer, que deve assumir a Presidência da República já na próxima semana, com o provável afastamento de Dilma Rousseff (PT) pelo Senado durante o processo de investigação para o impeachment da petista. 

Com a indicação para a Agricultura, o PP teria dois ministérios, já que o cirurgião paulista Raul Cutait caminha para ser o ministro da Saúde. Cutait é indicação do presidente nacional do PP, o senador e ex-ministro Ciro Nogueira (PI), e causou desconforto na bancada do partido na Câmara. "O PP está dividido de Minas Gerais para cima e para baixo. A Saúde é a indicação da parte de cima", disse uma fonte. Entre os políticos de Estados "abaixo de Minas Gerais" do PP, surgem três nomes para suceder à ministra Kátia Abreu, todos do Rio Grande do Sul: a senadora Ana Amélia, o deputado federal Luiz Carlos Heinze e o ex-ministro da Agricultura Francisco Turra, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).

"Os nomes estão sendo discutidos na bancada e ainda não há nada fechado, já que a prioridade era a escolha para o Ministério da Saúde", admitiu Heinze. A senadora Ana Amélia chegou a ser consultada por representantes do partido e do setor, mas se mostrou desconfortável com a indicação, disse que respeita a ministra Kátia Abreu e que se incomodaria em ser sua sucessora.

Um dos líderes da bancada ruralista e ainda um nome com bom trânsito para pacificar os deputados do PP descontentes com a indicação de Cutait, Heinze teria como ponto desfavorável o fato de ser investigado na Operação Lava Jato. Já Turra seria uma opção tanto política quanto do setor, já que é, há algum tempo, executivo de entidades do agronegócio. O PP pode, no entanto, apadrinhar outro "notável" do agronegócio, sem filiação política.

Outro ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues trabalha nos bastidores, junto às entidades e empresários do setor, para ver seu nome como o indicado de consenso dos ruralistas. O nome de Rodrigues ganhou força como o provável apadrinhado pelo PRB, partido que optou pelo Ministério da Ciência e Tecnologia e que deve indicar o presidente nacional, Marcos Pereira ao cargo.

Representantes de outras entidades ruralistas tentam ainda emplacar o nome do empresário rural João Sampaio, ex-secretário da Agricultura do Estado de São Paulo. Apesar de ter ocupado o posto nos governos tucanos de José Serra e Geraldo Alckmin, Sampaio não é filiado ao PSDB, o que facilitaria o acordo. Mas, para Sampaio aceitar o cargo, o convite para o ministério teria de partir do próprio Temer, o que daria ao ex-secretário paulista poder para escolher sua equipe sem interferência partidária.

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