Para base, pacote do governo é ‘um começo’, oposição diz que é ‘marquetagem’

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As medidas anunciadas pela presidente Dilma divide opiniões. Líderes governistas sinalizam que é o “começo da retomada do crescimento. Já a oposição afirma tratar-se de "marquetagem" por fazer um "bolsa banqueiro"

Líderes governistas avaliaram o pacote de medidas anunciado ontem, 28, pela presidente Dilma Rousseff um começo que sinaliza positivamente para investidores e para o Congresso. Já a oposição avaliou a liberação de R$ 83 bilhões de crédito como "marquetagem" por fazer um "bolsa banqueiro" parecer facilitação de acesso a recursos.

O líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), considerou as medidas anunciadas na reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), o "Conselhão", como "o começo da retomada". "As medidas sinalizam o esforço do governo para a retomada do crescimento. Essa sinalização dos anúncios são medidas iniciais, mas de forte impacto. Melhoram o ambiente de negócios e dão mais segurança jurídica aos investidores e não temos risco de hiperinflação. Também é uma grande sinalização ao Congresso", afirmou Guimarães.

O ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, defendeu a expansão do crédito adotando sete medidas. Pelos seus cálculos, elas têm potencial de elevar a oferta de crédito em R$ 83 bilhões. Entre as medidas, o ministro anunciou a autorização da utilização do R$ 17 bilhões do FGTS como garantia para o crédito consignado, lembrando que a medida precisa de aprovação do Congresso Nacional.

Barbosa apresentou a retomada da linha de pré-custeio do Banco do Brasil, na modalidade crédito rural, no valor de R$ 10 bilhões. O ministro também sugeriu a aplicação de recursos do FGTS em CRI (Certificado de Recebíveis Imobiliários), liberando a capacidade de financiamento para novas operações, com objetivo de aumentar o crédito habitacional também no valor de R$ 10 bilhões.

As medidas serão apresentadas a líderes da base governista na manhã de terça-feira, 2, e integrarão a mensagem da presidente Dilma Rousseff que será lida à tarde pelo ministro Jaques Wagner (Casa Civil), na retomada dos trabalhos do Congresso.

"É um bom começo, mas medidas estruturantes precisam ser rapidamente implementadas para não ficarmos apenas no remédio. Precisamos atacar as causas dos problemas para, finalmente, o País ser uma plataforma exportadora e competitiva", afirmou o líder do PSD, Rogério Rosso (DF).


Oposição
Já a oposição criticou o pacote anunciado nesta tarde. Para o líder do DEM, Mendonça Filho (PE), o anúncio foi "pura marquetagem". "O governo está usando o recurso do Fundo de Garantia do trabalhador para salvar banco em dificuldade. Isso não é proposta para o trabalhador, é uma bolsa banqueiro travestida de crédito, facilitação. É o famoso engana besta. O governo está dando uma corda para o trabalhador se enforcar", afirmou o parlamentar.

Mendonça disse que não é a primeira vez que o governo tenta reverter a crise com base na liberação de crédito. "A gente já viveu uma orgia de crédito e deu no que deu. É de volta ao passado em grande estilo. A gente não vê nenhuma reforma estrutural", afirmou.


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Aécio diz que reunião do Conselhão é 'midiática' e cobra reformas estruturais

Em nota divulgada na noite de ontem, 28, o presidente nacional do PSDB e principal líder da oposição, senador Aécio Neves (MG), cobrou do governo Dilma Rousseff a apresentação de reformas estruturais ao Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES). Para o tucano, o governo não tem noção da gravidade da crise econômica, age de maneira midiática ao reunir o "Conselhão" e já perdeu as condições para tirar o País do "atoleiro".

"É inútil reunir 92 pessoas quando todos nós sabemos que hoje o maior empecilho para se estabelecer o consenso mínimo para reformas estruturais é a posição do Partido dos Trabalhadores que tem se mostrado contrário ao ajuste fiscal e demanda a volta da desastrosa política econômica denominada 'Nova Matriz Econômica'", ataca Aécio.

O tucano cobrou do governo petista propostas de reforma tributária e previdenciária, além de iniciativas para retomada dos investimentos no setor do petróleo. "Infelizmente, ao invés de mostrar concretamente suas propostas de reformas, o governo federal mais uma vez faz uso de manobras midiáticas para tentar artificialmente criar uma agenda positiva. No final, essas medidas de marketing apenas agravarão a crise de credibilidade deste governo e dificultarão ainda mais o ajuste macroeconômico a ser feito", comenta o líder oposicionista.

Na avaliação de Aécio, o governo tenta apresentar uma "suposta pauta positiva", mas acaba levantando dúvidas sobre o real compromisso com o encaminhamento de propostas de superação da crise. "Mais uma vez, o governo sinaliza com o aumento de crédito subsidiado em mais de R$ 80 bilhões; a mesma política que foi adotada desde 2009 e que não levou ao aumento do investimento. A presidente parece esquecer que, sem confiança e credibilidade, mesmo que haja queda dos juros, os empresários não irão investir sem que o governo aprove medidas estruturais de controle do gasto", afirma. "Além disso, com o nível de endividamento das famílias hoje em 46% da renda e com o risco de perder emprego, os consumidores não entrarão em uma aventura de aumentar a sua dívida", completou.

Em um longo comentário sobre a reunião do Conselhão, o senador, que disputou com Dilma a presidência da República, se diz surpreso com o fato de o Executivo insistir em banda fiscal, apesar do elevado desequilíbrio nas contas. "O que é preciso é o compromisso claro do governo Dilma com alguma meta de primário, qualquer que seja essa meta, e o encaminhamento ao Congresso Nacional de um conjunto de reformas estruturais que sinalizem para o menor crescimento do gasto público", destacou.

Segundo Aécio, o governo "parece ainda não ter a exata dimensão da gravidade da situação econômica do Brasil". Em sua opinião, a melhor forma de combater a crise econômica e de credibilidade é "reconhecendo os erros" e sendo mais transparente, encaminhando as reformas estruturais ao Congresso Nacional. "Medidas pontuais de expansão do crédito de bancos públicos aumentam o custo financeiro da dívida, o subsídio, e dificultam o ajuste fiscal", afirmou.

No final da nota, Aécio conclui que o governo "está perdido em meio a crises de naturezas diversas". Ele afirma que faltou "a coragem necessária" para fazer o que era preciso. "A verdade é que sem o resgate da confiança, com a apresentação de uma agenda clara de reformas, não haverá o retorno dos investimentos e, sem eles, não superaremos nossas enormes dificuldades. E esse governo, ao que parece, infelizmente, já não tem mais condições de nós tirar do atoleiro em que ele próprio nos jogou", finaliza.

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