Lula diz que é ‘cidadão indignado com as coisas que estão acontecendo neste País’

FOTO: ROVENA ROSA/AGÊNCIA BRASIL

Lula: "Neste País penso que não há alguém com a vida pública mais fiscalizada do que a minha, desde os tempos em que era membro do sindicato”

O ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva disse, em pronunciamento nesta quinta-feira, 15, sobre as denúncias apresentadas contra ele pelo Ministério Público na Lava Jato, que estava fazendo uma declaração como "um cidadão indignado com as coisas que aconteceram e estão acontecendo neste País". 

Antes de começar sua defesa, o Lula fez uma ironia, dizendo que não faria um show de pirotecnia como a força-tarefa da Lava Jato na quarta-feira, 14. "Não quero me comportar como um ex-presidente da República, como um cara perseguido, como se estivesse reivindicando algum favor." 

Ele agradeceu os advogados pela defesa "competente e espetacular" que estão fazendo e disse que não tinha levado sua esposa, Marisa Letícia, também denunciada pela Lava Jato, porque ela tinha ficado em casa "almoçando com os filhos". "Neste País penso que não há alguém com a vida pública mais fiscalizada do que a minha, desde os tempos em que era membro do sindicato, nas assembleias, nas greves, quando Murillo Macedo (ex-ministro do Trabalho) resolveu investigar as greves do nosso sindicato." 

O ex-presidente da República falou ainda sobre o passado na vida sindical e alegou de que era um espaço muito limitado para a sua atuação, pois queria olhar mais para a cidade, para o País, por isso decidiu criar um partido político. "Tenho orgulho de ter criado o mais importante partido de esquerda da América Latina." No pronunciamento, o petista disse que renovação e alternância de poder faz muito bem à democracia. 

Dilma
Lula disse que tinha como "quase profissão de fé não errar" quando assumiu a Presidência da República em 2003 e que foi vítima da mesma tentativa que tirou sua sucessora, Dilma Rousseff, do poder.

Fazendo um relato histórico sobre o período que tentou, como metalúrgico, chegar à Presidência, ele falou que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e a oposição sempre acreditavam no fracasso do PT no governo. "Eu digo que o FHC naquela ocasião (nas eleições de 2002), preferia mais que eu ganhasse do que o Serra (José Serra, então candidato pelo PSDB). A tese dele era que o operário vai ganhar, vai ser um fracasso absoluto vai gritar: 'volta, volta'", afirmou Lula.

O ex-presidente da República também falou que tentaram fazer com ele, em 2005, o que fizeram com Dilma Rousseff em 2016, ao tirá-la do comando do País. "Quando começamos a dar certo na Presidência tentaram fazer o que fizeram em 2005 com a Dilma agora, com o tratamento de uma parcela da mídia brasileira e uma parcela no judiciário", falou.

Ele também disse que sofreu muito preconceito com a ideia de se criar o PT. "Os trabalhadores até tinham medo da gente, porque os que nos atacam hoje falavam que eu era comunista."


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Querem extirpar o PT da história da política brasileira, diz Lula

Em coletiva de imprensa nesta quinta-feira, 15, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que seus opositores querem "extirpar" o PT da história da política brasileira. "Nunca imaginei passar pelo que estou passando agora", declarou Lula.

Ele afirmou que defende um Ministério Público e uma Polícia Federal fortes, mas que esses órgão sejam cada vez mais responsáveis. Ele declarou que o governo do PT foi o que mais fortaleceu as instituições no País. "Eu duvido que nesse País alguém ou algum partido representado pelo governo Dilma e pelo meu fizeram mais para fortalecer as instituição que defendem o Estado nesse País", disse. Lula afirmou que seu governo "tirou o tapete que escondia a corrupção neste País" ao criar por exemplo o Portal da Transparência e efetivar a Lei de Acesso à Informação.

O fortalecimento da Polícia Federal e aceitar indicação do Ministério Público para o cargo de procurador-geral da República também foram atitudes destacas pelo petista. "Antes havia um 'engavetador geral da república'", repetiu Lula, em referência ao procurador Geraldo Brindeiro, que ocupou o cargo de 1995 a 2003. Para o ex-presidente, o Brasil vive hoje um momento que a lógica não é mais os autos do processo, mas a manchete.

Lula voltou a se declarar como honesto e inocente. "Só tem um jeito de a pessoa não ser perseguida pela política desse Pais, é ser honesta e cumprir com suas obrigação", disse o ex-presidente reforçando que ninguém está acima da lei. "Nem procurador, nem delegado e nem ninguém da Suprema Corte", falou.
 


Lula: PT tem de ter orgulho, demos exemplo de boa governança

Depois que terminou o pronunciamento de cerca de uma hora, em que comentou as acusações da força-tarefa da Operação Lava Jato, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) exibiu a camisa que vestia, vermelha de seu partido, o PT. Depois de beijar o símbolo da sigla, igual um jogador de futebol que beija a camisa de seu time, Lula pediu que todos os correligionários começassem a andar com a camisa vermelha do partido. "Quero dizer a quem odeia, a quem não gosta do PT… Que cada petista tem que começar a andar de camisa vermelha, quem não gostar, mude de cor mas este partido tem que ter orgulho porque ninguém nunca fez mais do que nós fizemos neste País."

Em 1992, quando ainda presidente da República, Fernando Collor de Mello, então alvo de uma CPI no Congresso Nacional, usou uma solenidade no Palácio do Planalto para convocar a população brasileira a sair às ruas, no domingo seguinte a este pronunciamento, trajando verde e amarelo, as cores da bandeira brasileira, a fim de tentar mostrar que os defensores de seu impeachment eram minoria. O que se viu foi o oposto, a população em massa saindo às ruas vestida de preto, o que impulsionou o movimento pelo seu impeachment.

Após convocar a militância do seu partido para trajar vermelho, Lula voltou a criticar a força-tarefa da Lava Jato, dizendo que lhe dedicaram um apartamento, uma chácara que disse não ter e de ser o comandante maior da corrupção na Petrobras. "Não tenho provas, mas tenho a convicção", disse, arrancando risos dos correligionários, emendando ter a convicção de que os que mentiram estão "numa grande enrascada".

"Continuem me atacando, continuarei aqui, sem raiva, porque raiva dá azia e não vou perder o sono. Continuem falando e escrevendo porque a história mal começou e eu vou viver muito, estou com 70 e com vontade de viver mais 20 anos, estou me preparando fisicamente para isso." E disse que nem que tivesse apenas mais um minuto de vida, gostaria de dedicá-lo para que cada brasileiro sinta que pode fazer deste lugar um País melhor. "Eu nunca senti tanto orgulho de ser brasileiro". E disse esperar fazer muito mais do que já fez pelo Brasil.

Antes de encerrar seu pronunciamento, Lula disse que esperava ter o mesmo destaque na imprensa que seus acusadores tiveram ontem. "E digo que se vocês quiserem resolver os problemas deste País, incluam os pobres no orçamento. Não pensem que estou desanimado, sofrido, estou orgulhoso de saber que a perseguição a mim é pelas coisas boas que fizemos por este País."

Getúlio
Em um trecho do discurso de mais de uma hora, Lula disse que não tinha a vocação de Getúlio Vargas de se dar um tiro ou de Jango, de sair do Brasil. "Portanto, se eles (Lava Jato) quiserem me tirar, vão ter que disputar comigo nas urnas. Eles achavam que eu estava vencido."

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