Jucá diz que não se referia à Lava Jato em conversa vazada

FOTO: WILSON DIAS/AGÊNCIA BRASIL

O ministro defende o trabalho do juiz Sérgio Moro, responsável pelas investigações da operação em primeira instância, em Curitiba, mas disse que o magistrado tem atitudes "duras"

O ministro do Planejamento, Romero Jucá, negou que tentou interferir para deter as investigações da Operação Lava Jato junto ao ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado. Nesta segunda-feira, 23, o jornal Folha de S. Paulo divulgou uma conversa em que Jucá sugere a existência de um pacto para obstruir a operação, dizendo que é preciso "estancar sangria". "Não me referia à Lava Jato. Falava sobre a economia do país e entendia que o governo Dilma tinha se exaurido. Entendia que o governo Temer teria condição de construir outro eixo na política econômica e social para o país mudar de pauta", disse Jucá em entrevista à rádio CBN, na manhã desta segunda-feira.

O peemedebista confirmou que esteve com Machado, pessoalmente em sua casa e no seu gabinete, e classificou os trechos da conversa divulgada como "frases pinçadas". "Eu defendo e o Michel (Temer) também que haja aceleração da investigação para delimitar quem é culpado e quem não é culpado, quais são os crimes, quais políticos envolvidos ou não, porque hoje, ao ser mencionado alguém, parece que todo mundo tem o mesmo tipo de envolvimento, mas não é verdade. O Ministério Público, quando diz que é citado coloca uma nuvem negra", falou Jucá.

O ministro também disse defender o trabalho do juiz Sérgio Moro, responsável pelas investigações da operação em primeira instância, em Curitiba, mas disse que o magistrado tem atitudes "duras". Na conversa com Machado, Jucá classifica Moro como "Torre de Londres", local na Inglaterra onde ocorriam execuções e torturas. "Acho que em alguns momentos ele age com dureza, que tem criado esse tipo de pressão e às vezes envolvem pessoas que têm nada a ver e são mencionadas", falou se referindo às delações premiadas. 

Na conversa divulgada pelo jornal, Machado pede apoio para que as ações que tramitam contra ele no STF, em Brasília, não fossem enviadas para a vara do juiz Sérgio Moro, em Curitiba. "Eu acho que a gente precisa articular uma ação política", disse Jucá em um dos trechos.

Segundo o ministro, que é alvo de inquérito no Supremo Tribunal Federal, ele tem todo o interesse que o Ministério Público faça as investigações de forma mais rápida possível. "Quero investigação, tenho cobrado rapidez. Não me sinto confortável em ser citado como investigado. Perpetua essa nuvem sombria sobre a classe política".

STF
Jucá também negou ter falado com ministros do STF. "Tenho conversado sobre realidade econômica do País, construir saídas para o Pais crescer. Supremo tem papel importante para julgar rapidamente as investigações"

Esquema Aécio
Na conversa, Machado fala sobre o "esquema do Aécio" citado. Jucá afirmou que o ex-dirigente da Transpetro citava a articulação que ajudou eleger o senador do PSDB como presidente da Câmara.

Defesa
De acordo com o advogado de Jucá, Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, a conversa entre Jucá e Machado foi "totalmente republicana". Ele alega que o peemedebista jamais teve a intenção de interferir nas investigações sobre o esquema de corrupção em contratos da Petrobras. Segundo Kakay, "juridicamente" não há "nenhuma gravidade. Em 1h15 de conversa, aquilo é o que virou notícia? Isso não nos preocupa em nada", disse. (Colaborou Isadora Perón)


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Líder do DEM defende que Jucá seja afastado do governo Temer

Agora na base do governo do presidente em exercício, Michel Temer, o líder do Democratas no Senado, Ronaldo Caiado (GO), defende que o ministro do Planejamento, Romero Jucá, seja afastado do cargo. "Qualquer denunciado tem o direito e obrigação de se defender das acusações, mas esses atos individuais devem ser tratados longe da administração pública para que a reestruturação e a credibilidade do governo não sejam comprometidas", afirmou Caiado.

De acordo com o líder do DEM, a sociedade brasileira saiu às ruas para conter um processo de corrupção e apoiar a Operação Lava Jato. Em reportagem desta segunda-feira, 23, o jornal Folha de S. Paulo revelou que, em uma conversa com o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, Jucá sugere a existência de um pacto para obstruir a operação Lava Jato e diz que é preciso "estancar a sangria". 

Na mesma conversa, Jucá sugere que uma solução para travar a operação da Polícia Federal seria por meio do impeachment da presidente Dilma Rousseff e a consequente ascensão do vice Michel Temer. Mesmo antes do início do governo provisório de Temer, Jucá já se destacava como um dos principais aliados do presidente em exercício.


Petista diz que Janot pode ter prevaricado ao não divulgar áudio de Jucá

O deputado Paulo Pimenta (PT-RS) sugeriu nesta segunda-feira, 23 que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pode ser acusado de ter cometido crime de prevaricação. Pimenta acredita que, se Janot teve acesso às gravações do ministro do Planejamento, Romero Jucá, em março deste ano, deveria ter compartilhado as informações com o restante da sociedade, em especial com os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Para o deputado, a conversa entre Jucá e ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado poderia ter mudado o resultado do processo de impeachment de Dilma Rousseff, afastada pelo Senado no último mês.

"Pode ter havido prevaricação por parte do procurador-geral da República. Se a sociedade soubesse que estava em curso um processo de chantagem isso poderia ter tido outro desdobramento. Isso deveria ter sido levado pelo menos aos ministros do STF, que votaram sem saber", comentou. Pimenta acredita que há um arquivo maior de gravações envolvendo outros políticos do PMDB e do PSDB. De acordo com o petista, o partido ainda está estudando quais medidas jurídicas tomar sobre o caso, mas uma das primeiras deverá ser um pedido judicial para a legenda ter acesso ao "material completo". 

Pimenta fez uma comparação com o caso do ex-senador Delcídio Amaral, que foi preso acusado de obstruir as investigações da Operação Lava Jato – na época, também foi divulgada uma gravação feita às escondidas em que o então parlamentar oferecia uma mesada ao ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró para que ele não fechasse acordo de delação. "As gravações revelam algo ainda maior. O processo de impeachment foi usado como moeda de troca para oferecer proteção na Operação Lava Jato. Jucá deixou claro que a mudança de governo poderia proporcionar um acordo para acabar com o combate à corrupção. A gravação, portanto, traz fatos muito mais graves do que a do senador Delcídio Amaral", declarou Pimenta. 

"Em nenhum momento na gravação Jucá fala sobre a importância do impeachment para melhorar o País, e sim para barrar as investigações e criar um fato político, que sensibilizasse vários ministros, com os quais, segundo Jucá, ele já estava conversando", disse Pimenta. O parlamentar afirmou que "se o STF tiver o mínimo de coerência com o caso Delcídio, convocará uma sessão extraordinária e tomará alguma medida hoje mesmo". 

Ele acusou também o presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), de chefiar uma "organização criminosa" na Câmara, que teria conduzido o processo de impeachment para tentar evitar a sua cassação, também com a participação de senadores. O petista insinua que houve chantagem, troca de favores e compra de votos durante o impedimento de Dilma no Congresso, o que teria ficado claro com a gravação de Jucá e poderia anular todo o processo.

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