‘Fui vítima de bandidos que saquearam o País’, diz Temer

José Cruz/Agência Brasil

"Querem me tirar para continuar com as mesmas reformas que eu propus, com o meu programa. A quem interessa desestabilizar o governo?", questiona o presidente

Vera Magalhães

Minutos depois do pronunciamento que fez sobre a crise que atinge seu governo, Michel Temer reafirmou ontem ao Estado sua recusa em renunciar à Presidência, se disse vítima de "armação", negou que tenha participado de um plano para comprar o silêncio do deputado cassado Eduardo Cunha e disse estranhar que a delação da JBS, que o atingiu, tenha sido selada "no momento em que a economia começa a se recuperar".

"Fui vítima de bandidos que saquearam o País nos governos passados e não obtiveram acesso ao nosso. E negociaram um acordo pelo qual querem sair impunes!", afirmou o presidente na entrevista, por telefone.

O presidente disse estar convencido da capacidade de rearticulação política do governo e deu sua versão para o encontro que teve com Joesley Batista, da JBS, em março – que foi gravado e entregue ao Ministério Público Federal, o que desencadeou a delação do grupo. "Esse sujeito me ligou seguidamente, ao longo de vários dias, me pedindo para ser recebido", afirmou o presidente. 

Segundo ele, a segurança da Presidência vive repreendendo-o por "atender o celular". "Eu tenho o hábito, que a segurança do Planalto vive reclamando, de atender o celular, responder mensagem. É um mau hábito pela liturgia do cargo, mas que eu adquiri da experiência parlamentar", disse.

Segundo ele, depois de muita insistência por parte de Joesley, ele concordou em recebê-lo no Palácio do Jaburu. Questionado sobre o horário tardio da conversa, Temer disse que a razão foi o fato de que, anteriormente, ele compareceu à festa de aniversário da carreira do jornalista Ricardo Noblat. "Disse a ele: estou na festa do Noblat. Se quiser, passa mais tarde no Jaburu. E ele concordou."

Temer afirmou que já conhecia Joesley, e que tem o costume de receber empresários para conversas. "Já recebi dezenas de empresários. Em São Paulo, no Jaburu, no Planalto. Muitas dessas reuniões acontecem fora da agenda", disse o peemedebista.

Questionado sobre os assuntos tratados na reunião, dentre eles a confissão de crimes como o suborno a um procurador e supostamente a dois juízes, Temer disse ter atribuído o teor da conversa ao fato de Joesley ser alguém acuado por investigações e contrariado por não obter acesso que tinha antes a altas autoridades do governo. "Logo de cara, vi que ele era um falastrão", afirmou.

Ele afirmou ter achado "estranho" o teor da conversa, mas que não levou a sério as afirmações. "Mas você veja que comecei a ser cada vez mais monossilábico, quando a conversa dele começou a enveredar para o pedido de que precisaria ter acesso a esse ou aquele setor do governo."

Temer afirmou que a divulgação do áudio da conversa demonstra que ele não deu aval à compra do silêncio de Cunha, conforme se divulgou inicialmente. "Veja que ele diz que está mantendo uma boa relação com ele (Cunha), e incentivo que deveria manter, apenas isso."

Sobre o eventual interesse em evitar uma delação de Cunha, Temer evoca o fato de o ex-aliado tê-lo arrolado como testemunha: "Que silêncio do Cunha eu poderia comprar? Se ele me mandou 21 perguntas num processo e 17 em outro, todas claramente tentativas de me incriminar, e o próprio juiz Sérgio Moro tratou de indeferir?".

Rocha Loures
A respeito da sugestão para que Joesley procurasse o ex-assessor especial da Presidência e deputado afastado Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR), Temer disse que apenas confirmou uma sugestão do empresário. "Falei que poderia falar com o Rodrigo sobre assuntos do grupo, como poderia falar o Moreira (Franco, ministro da Secretaria-Geral da Presidência), ou o (Eliseu) Padilha (chefe da Casa Civil)", justificou.

Temer disse acreditar que Rocha Loures "deve ter sido seduzido" pela promessa de receber R$ 500 mil ao longo de 20 anos. Questionado se tomou conhecimento, em algum momento, da negociação de recursos por Rocha Loures, ou se autorizou a transação, o presidente negou.

Afirmou que o suborno ao deputado foi negociado pela obtenção de um acordo no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) que foi negado. "O Cade resolveu? Não resolveu! Ele estava desesperado porque a Maria Silvia (presidente do BNDES) saneou o BNDES, ele teve de mudar a operação da empresa para outro país porque fechamos a torneira do BNDES", afirmou.

"Querem me tirar para continuar com as mesmas reformas que eu propus, com o meu programa. A quem interessa desestabilizar o governo?"

"Logo de cara, vi que ele (Joesley) era um falastrão".

"Veja que ele diz que está mantendo uma boa relação com ele (Eduardo Cunha), e incentivo que deveria manter, apenas isso".

"Querem me tirar para continuar com as mesmas reformas que eu propus, com o meu programa. A quem interessa desestabilizar o governo?"

Michel Temer
PRESIDENTE DA REPÚBLICA
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Cunha diz que delação de Joesley é mentirosa

Personagem da conversa entre o presidente Michel Temer e o empresário Joesley Batista, dono da JBS, o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) negou ter seu silêncio comprado. "Estou exercendo o meu direito de defesa e não estou em silêncio e tampouco ficarei", escreveu o deputado cassado, em carta divulgada por seu advogado.

Na conversa com Temer, Joesley afirma ter "zerado" suas pendências com o deputado cassado e que "estava de bem" com Cunha. Em resposta, Temer responde: "Tem que manter isso, viu?"

Segundo disse em delação, na conversa, Joesley fazia menção à compra do silêncio do peemedebista, que está preso em Curitiba. Temer, no entanto, negou ter dado aval a uma possível compra de silêncio do deputado e disse que se referia a uma ajuda à família do ex-aliado.

No áudio da conversa com Joesley, Temer ainda reclama que tem sido "fustigado" pelo ex-parlamentar, que enviou perguntas ao presidente, sua testemunha de defesa em um dos processos, com menções a reuniões no escritório político de Temer em São Paulo.

"Repudio com veemência as informações divulgadas de que estaria recebendo qualquer benefício para me manter em silêncio", afirma o peemedebista na carta, que tem 18 linhas, redigidas em folha de papel almaço. "São falsas as informações divulgadas atribuídas a Joesley Batista de que estaria comprando o meu silêncio."

Na carta, ele diz ainda que nunca pediu qualquer coisa a Temer. "Jamais pedi qualquer coisa ao presidente Michel Temer e também jamais recebi dele qualquer pedido para me manter em silêncio", afirmou. "Recentemente, após entrevista dele, o desmenti com contundência, mostrando que não estou alinhado em nenhuma versão de fatos que não sejam os verdadeiros", conclui.

Cunha foi condenado em março pelo juiz Sérgio Moro a 15 anos e 4 meses. O deputado cassado responde a outras duas ações penais, uma em trâmite na 10.ª Vara Criminal Federal de Brasília, relativa à Operação Sépsis, e outra encaminhada a Moro pelo Supremo Tribunal Federal, que investiga se ele recebeu propina de US$ 5 milhões em contratos de construção de navios-sonda da Petrobras.

Fachin decide mandar áudio de Joesley para perícia

Beatriz Bulla, Alexia Salomão

O Supremo Tribunal Federal (STF) vai analisar em plenário, na quarta-feira, o pedido da defesa do presidente Michel Temer para suspender o inquérito contra o peemedebista. Com isso, os 11 ministros da Corte irão decidir sobre a continuidade ou paralisação do inquérito.

O ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato na Corte, também encaminhou para a Polícia Federal os autos do inquérito para perícia no áudio gravado pelo delator Joesley Batista em conversa com Temer. Ontem, em pronunciamento no Palácio do Planalto, Temer alegou que a gravação foi "manipulada e adulterada".

Em nota, a J&F, holding que controla a JBS, reafirmou ontem que Joesley entregou à Procuradoria-Geral da República a gravação da conversa com o presidente sem cortes. O texto diz que os delatores têm como sustentar a idoneidade do material. "Não há chance alguma de ter havido qualquer edição do material original, porque ele jamais foi exposto a qualquer tipo de intervenção", diz a nota.

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pediu a Fachin a continuidade do inquérito contra Temer, mas não se opôs à realização de perícia no áudio. Janot aponta que a gravação é "harmônica e consentânea" com o relato dos delatores do grupo J&F.

"Não obstante, embora certo de que o áudio não contém qualquer mácula que comprometa a essência do diálogo, o procurador-geral da República não se opõe à perícia no áudio que contém conversa entre Michel Temer e Joesley Batista no dia 7 de março de 2017, no Palácio do Jaburu", escreveu Janot. Ele destaca na manifestação ao STF que a perícia deve ser realizada sem suspensão do inquérito, que serve, segundo Janot, "justamente para a apuração dos fatos e para a produção de evidências, dentre elas perícias técnicas".

Procuradores que negociaram as delação premiada informaram ontem que não fizeram perícia no material. Peritos consultados pelo Estado não foram conclusivos. Foram encontradas no áudio 14 "fragmentações" – pequenos cortes de edição, segundo o perito extrajudicial e judicial Marcelo Carneiro de Souza. Para ele, porém, um laudo mais conclusivo só seria possível após avaliar o gravador e fazer um confronto entre as vozes de Temer e Joesley

Conversa
A conversa entre Joesley e Temer ocorreu no início de março, no Palácio do Jaburu. No encontro, o empresário narra ao presidente da República medidas que têm adotado para contornar as investigações que recaem sobre ele e a JBS, entre elas o pagamento de uma mesada a um procurador da República para obter informações privilegiadas.

Joesley também pergunta ao presidente quem é o interlocutor do peemedebista e recebe de Temer a indicação do nome do deputado Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR), que também teve conversa gravada em que negocia propina.

O presidente também ouve de Joesley sobre Eduardo Cunha. Após falar de acertos com o peemedebista, o empresário diz que está em bom relacionamento com Cunha. O presidente responde: "Tem que manter isso, viu?"

 

 

 

 

 

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