Em pronunciamento, Dilma diz que se sente ‘injustiçada’

FOTO: VALTER CAMPANATO/AGÊNCIA BRASIL

Dilma: "Os atos pelos quais eles me acusam foram praticados por outros presidentes antes de mim e não se caracterizaram como ilegais ou criminosos"

A presidente Dilma Rousseff afirmou na tarde desta segunda-feira 18, que se sente "injustiçada" e "indignada" com a decisão da Câmara dos Deputados de aprovar a admissibilidade do processo de impeachment de seu mandato. "Considero que esse processo não tem base de sustentação", afirmou durante o seu primeiro pronunciamento à imprensa após a derrota da votação ontem na Câmara.

Dilma disse achar importante "insistir numa tecla só", ao defender a legalidade da edição de decretos de suplementação orçamentária. "Os atos pelos quais eles me acusam foram praticados por outros presidentes antes de mim e não se caracterizaram como ilegais ou criminosos", disse, ressaltando que as decisões foram tomadas com base em relatórios técnicos. "A mim se reserva um tratamento que não se reservou a ninguém".

A presidente voltou a dizer que a Constituição estipula que é necessário haver crime de responsabilidade para que um presidente seja afastado. Ela frisou que os atos assinados por ela não foram praticados para enriquecimento próprio. "Saio com a consciência tranquila de que os atos que pratiquei, não fiz baseado na ilegalidade", reforçou.


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A presidente Dilma Rousseff (PT), afirmou nesta segunda, 18, sentir-se injustiçada com a admissibilidade do processo de impeachment porque aqueles que presidiram a sessão da Câmara praticaram ilegalidades, no caso o deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ). "Não há contra mim acusação de desvio, de enriquecimento ilícito, não tenho conta no exterior. Os que praticaram atos ilícitos e têm conta no exterior, presidem a sessão e tratam de uma questão tão grande como o afastamento da presidente."

Dilma afirmou que também se sentia injustiçada porque fizeram com que os últimos 15 meses de governo tenham governado em clima de instabilidade política. "Praticaram sistematicamente a estratégia do quanto pior melhor. Pior para o governo, melhor para a oposição", afirmou ela, lembrando das pautas-bomba que tramitaram no Congresso, inclusive a que mudou dívidas dos Estados, com um prejuízo estimado de R$ 300 bilhões. "Sabemos de todas as circunstâncias, que projetos importantes necessários para a retomada do crescimento ou eram postergados ou não eram votados", afirmou.

Dilma disse que a situação só pode provocar imensa sensação de injustiça e de que há uma "violência no Brasil contra a verdade, contra a democracia e contra o estado democrático de direito". Para ela, o processo é ruim porque: "o mundo vê que a nossa jovem democracia enfrenta um processo de baixa qualidade".

Ela condenou o fato de uma presidente ser condenada sem culpabilidade. "O que é possível fazer com o cidadão brasileiro e brasileira que são os personagens e protagonistas da história da democracia? Indagou. "Abertura do processo é uma espécie de vingança por não termos aceitado negociar os votos dentro da comissão de ética. Não apresentaram nada além das notícias de jornal."

Dilma disse que, antes da tramitação do pedido de impeachment no Senado, "sai com uma sensação de indignação pelo fato de que a imagem transmitida ao mundo é o rosto do desvio do abuso do poder, com descompromisso com a ética e moral", completou.


Dilma: é estarrecedor que um vice-presidente conspire contra o presidente

A presidente Dilma Rousseff reafirmou nesta segunda, 18, que é "estarrecedor" um vice-presidente conspirar contra sua parceira de chapa. "Em nenhuma democracia do mundo, uma pessoa que fizesse isso seria respeitada. A sociedade humana não gosta de traidor", afirmou. "Nenhum governo será legítimo – que o povo pode reconhecer como produto da sua democracia – sem ser pelo voto secreto, direto numa eleição previamente convocada."

A presidente afirmou que vai continuar lutando pela democracia. "Na minha juventude, enfrentei a ditadura por convicção e agora eu também enfrento com convicção um golpe de Estado", disse. Ela ressaltou que agora, na maturidade, enfrenta outro golpe. "De certa forma, estou tendo meus sonhos torturados. Agora, não vão matar a minha esperança", disse.

Dilma frisou que o País vive tempos muito difíceis, mas históricos. "O mundo e a história nos observam. Eu tenho ânimo, força e coragem suficiente para enfrentar – apesar que com sentimento de muita tristeza – essa injustiça", afirmou. "Não vou me abater, não vou me deixar paralisar, vou lutar como fiz ao longo de toda minha vida".

A presidente disse que a democracia é o "lado certo da história" e ressaltou que vai se defender no Senado. "Ao contrário do que alguns anunciaram, não começou o fim. Estamos no inicio da luta, que será longa e demorada", afirmou. Ela advertiu que, sem democracia, não há como retomar o crescimento econômico e o nível de emprego.

Ressentimento
Em entrevista no Palácio do Planalto, Dilma disse ainda que não viu ressentimento de deputados retratado na votação de ontem. "Qualquer governo pode cometer erro, mas ressentimento também não é justificativa para nenhum processo de impeachment. Temos que procurar padrão de seriedade maior", disse.

Ela afirmou que o processo foi conduzido com hegemonia muito forte do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Segundo ela, o deputado fez a condução "como quis".

Ela ainda defendeu também que, se houve uso de poder econômico, com pagamento de jatinhos para deputados votarem em Brasília, é necessário que haja investigação.


Dilma diz que, sem sombra de dúvida, a ditadura é o pior dos mundos

A presidente Dilma Rousseff considerou nesta segunda, 18, a prisão e tortura sofrida por ela durante o período de ditadura militar como "sem sombra de dúvida, um milhão de vezes pior" do que o processo de impeachment enfrentado por ela no Congresso. "Na ditadura, o cidadão comum não tem liberdade de imprensa, direito à liberdade de expressão. Sem sombra de dúvida, a ditadura é o pior dos mundos", disse. "Democracia, como sempre citam, não é perfeita, mas ainda é o melhor regime", emendou ela em resposta à pergunta de um jornalista na primeira entrevista após a admissibilidade do processo contra ela na Câmara.

Sobre o processo de impeachment, considerado sem base legal por ela, a presidente disse esperar que "mais cedo o mais tarde conseguiremos barrar esses processos" praticados no País. A presidente admitiu ser possível aceitar alternativas, como, por exemplo, a redução de mandato, mas disse que não avalia essa opção. "Não podemos aceitar que o cumprimento da legalidade não se dê nesse processo", completou.

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