Em entrevista, Dilma diz que não há consenso para plebiscito

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Dilma afirmou que precisaria recompor seu apoio no Congresso e que tentaria combater o presidencialismo de coalizão

A presidente afastada, Dilma Rousseff, afirmou que pretende fazer um "governo de transição" caso não seja condenada no processo de impeachment no Senado Federal. Em entrevista ao portal Agência Pública, publicada na segunda-feira, 27, Dilma disse que teria um governo de dois anos, até 2018, para garantir a "qualidade da democracia no Brasil". Questionada sobre sua promessa de chamar um plebiscito para a convocação imediata de novas eleições presidenciais, Dilma desconversou. "Não, não. Está em discussão isso. Não há um consenso. É uma das coisas, uma das propostas colocadas na mesa."

Dilma afirmou que precisaria recompor seu apoio no Congresso e que tentaria combater o presidencialismo de coalizão. Sem citar o PMDB ou o presidente em exercício, Michel Temer, diretamente na resposta, a petista disse que mudaria suas alianças. "Não tem mais como recompor."

A presidente afastada reforçou a tese de que sofre um "golpe parlamentar" e acrescentou não saber ainda se irá pessoalmente ao Senado para se defender no processo de impeachment. Dilma repetiu ainda que o presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), é o homem por trás da gestão Temer.

'Endireitou'
A presidente criticou o processo por qual passa o País, em que pautas de direita ganham força. Dilma acusou o PSDB, partido que contrapôs o PT nos últimos anos, de cometer um "gravíssimo equívoco político".

"Primeiro perdeu a cara porque endireitou. Mas endireitou não só do ponto de vista dos projetos econômicos ou políticos. Endireitou do ponto de vista dos valores. Se misturou no movimento e deu força a ele. E estimulou, organizou e propôs um movimento que era baseado em algumas questões inadmissíveis. Como é que (o PSDB) se mistura com um (movimento) que defende o golpe militar? Como é que é possível tratar de uma situação em que os direitos individuais e coletivos mais básicos são desrespeitados?", questionou.

Odebrecht
Dilma classificou de "estarrecedor" o questionamento das entrevistadoras sobre informações vazadas do processo de delação de Marcelo Odebrecht. "Acho estarrecedor me perguntar sobre o Marcelo Odebrecht, que nem concluiu a sua delação premiada. Tirante a hipótese de que o seu jornal – e aqui eu vou engrossar – tenha uma escuta dentro da cela, ou do lugar onde ele está fazendo a delação, vocês não têm o direito de me perguntar nada" afirmou, ao reclamar do "uso político das investigações da Lava Jato".

Se as notícias envolvendo a delação do empresário impactam suas chances no impeachment, Dilma disse que não. "Estou em um nível de vacinação absoluta contra isso."

Segundo informações veiculadas na imprensa, em sua delação premiada, Odebrecht deve admitir que controlava pessoalmente repasses de caixa dois para as campanhas presidenciais da presidente afastada.

'Espontânea pressionada'
Ao falar sobre o processo que a levou a ser candidata presidencial em 2010, Dilma afirmou que houve um peso na proposta de Lula pelo fato que ela seria a primeira presidente mulher do País, mas que esse não foi o principal fator. Dilma admitiu que não tinha pretensão de ser presidente da República, mas que não poderia negar a indicação. "É assim quase público e notório que eu não tinha a menor pretensão de ser presidenta tampouco de concorrer a nenhum cargo eletivo naquele então. Foi assim uma coisa 'espontânea muito pressionada'", resumiu.


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Aliados de Dilma acusam Senado de 'desinteresse' no processo de impeachment

Com parlamentares dando sinais de desinteresse após 11 reuniões para ouvir testemunhas, o Senado deve encerrar na quarta-feira, 29, a fase probatória do processo de impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff. Aliados da petista reclamam que os senadores da base do presidente em exercício Michel Temer têm agido com descaso no processo, o que teria se intensificado durante os depoimentos.

Em uma das sessões, o senador Álvaro Dias (PV-PR), favorável ao impeachment, afirmou que o processo é "protelatório". Ele chegou a dizer que os votos já estavam definidos e que a comissão é uma "formalidade". Também houve grande número de ausências – por duas vezes, o quórum da comissão caiu quase a ponto de a reunião ser suspensa. Para haver sessão, são necessários pelo menos cinco senadores.

Coordenada pela senadora Simone Tebet (PMDB-MS), a base aliada de Temer abriu mão de fazer perguntas às testemunhas e chegou a aprovar a dispensa de testemunhas de acusação. "Esse é o único processo que eu conheço em que a acusação abre mão de produzir provas. Mas eles não podem interrogar as testemunhas, porque estariam produzindo provas contra eles mesmos", disse a senadora Vanessa Grazziotin (PC do B-AM), membro da tropa de choque de Dilma na comissão. 

Senadores da base questionam a quantidade de depoentes trazidos pela defesa – ao todo, 40. Os aliados do presidente em exercício argumentam que muitas testemunhas eram desnecessárias e foram trazidas apenas com o intuito de dar mais semanas a Dilma. "A fase de depoimentos foi cansativa e improdutiva em grande parte. Isso porque muitas testemunhas foram escolhidas pela defesa sem nenhum conhecimento, com caráter procrastinador", afirmou o líder do Democratas, Ronaldo Caiado (GO).

Desinteresse
Para Vanessa, porém, há desinteresse. "Eles (a oposição) não têm nenhum pudor de dizer que já está definido, que é uma formalidade. Não fazem perguntas porque não se interessam pelas respostas. Estão usando o processo de impeachment para validar uma decisão que já foi tomada lá atrás."

Ao longo das três semanas de depoimentos, a tropa de choque de Dilma também demonstrou desgaste e chegou a negociar, por duas vezes, um acordo de procedimento para liberar as testemunhas mais rapidamente. Nos bastidores, os petistas assumem a dificuldade de reverter votos na comissão e acreditam que o placar pode estar definido: 15 a 5 a favor do afastamento, como na primeira fase.

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