Dilma vira professora por um dia e chama Aedes de ‘mosquita’

Foto: Roberto Stuchert/PR

Adotando uma linguagem coloquial, a presidente Dilma Rousseff teve um dia de professora e comandou uma aula a 370 estudantes do Colégio da Polícia Militar Alfredo Vianna, em Juazeiro (BA)

"Você tem o mosquito e a mosquita. O mosquito gosta de frutas, ele não pica nem extrai sangue das pessoas. Quem faz isso é a mosquita. É a mosquita que pica. E é quando ela pica que contamina, porque é a mosquita que transporta o vírus da zika."

Adotando uma linguagem coloquial, a presidente Dilma Rousseff teve nesta sexta-feira, 19, um dia de professora e comandou uma aula a 370 estudantes do Colégio da Polícia Militar Alfredo Vianna, em Juazeiro (BA). O tema da apresentação foi como combater o mosquito Aedes aegypti e a relação da epidemia do vírus da zika com o aumento dos casos de microcefalia.

Além de chamar o vetor da dengue, da zika e do chikugunya de "mosquita", Dilma usou uma série de metáforas e onomatopeias para conseguir prender a atenção, por cerca de uma hora, de meninos e meninas com idades entre 10 e 14 anos.

"Eu vou mostrar de onde vem o tal do vírus da zika. Ele veio da África, de um país chamando Uganda, que tem uma montanha chamada zika", disse apontando para o slide do power point projetado na tela, que trazia um mapa do continente africano.

"Aonde o mosquito não vai? Aonde tem peixe, porque o peixe come a larva do mosquito. Se você tiver um laguinho e tiver um peixe dentro, o mosquito já era. Porque o peixe vai lá e 'babau' para o mosquito", afirmou ao explicar porque era importante eliminar os focos de água parada.

Ao falar das complicações causadas pelo vírus da zika, Dilma demonstrou preocupação com relação ao nascimento de bebês com microcefalia, mas minimizou a síndrome de Guillain-Barré, que, segundo ela, é "uma doença que incomoda, mas não tem a gravidade" da má-formação craniana. A síndrome pode causar paralisia e até mesmo levar à morte em alguns casos.

A aula de Dilma fez parte de mais uma iniciativa do governo no esforço de mobilizar as pessoas no combate ao Aedes aegypti. Além da viagem da presidente à cidade da Bahia, pelo menos 27 dos 31 ministros visitaram escolas em todo o País nesta sexta. No sábado passado, todo o governo já havia participado de uma campanha que, junto com 270 mil homens das Forças Armadas, visitou casas e comércios em cidades brasileiras.

Nesta sexta, a presidente voltou a pedir que a população destinasse pelo menos 15 minutos por semana para fazer uma faxina e eliminar os focos do mosquito. Ela afirmou ainda que a iniciativa era importante porque cerca de 2/3 dos criadouros se concentram nas casas das pessoas.

Dilma também respondeu a perguntas dos estudantes. Uma delas questionou se os casos de zika poderiam prejudicar as Olimpíadas 2016, que serão realizadas no Rio de Janeiro.

A presidente disse que não, já que o período de maior incidência de proliferação do mosquito é de janeiro a junho, "no máximo julho", e os jogos ocorrem de 5 a 21 de agosto. Ela, no entanto, recomendou que atletas usassem roupas compridas e usassem repelentes.

Antes da aula, Dilma visitou a fábrica Moscamed Brasil, que trabalha com o desenvolvimento de mosquitos transgênicos e esterilizados, que poderão ser usados para reduzir a reprodução do Aedes aegypti.


LEIA MAIS…

Dilma visita fábrica que produz Aedes aegypti transgênico

A presidente Dilma Rousseff visitou nesta sexta-feira, 19, uma fábrica de mosquitos transgênicos do Aedes aegypti. O método tem sido apontado como uma das alternativas na luta contra a proliferação do vírus da zika pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Dilma conheceu o laboratório em Juazeiro (BA) onde mosquitos machos são alterados geneticamente e, quando soltos na natureza para se reproduzirem, transmitem um gene mortal que faz com que os mosquitos gerados morram ainda na fase de larva.

"Explicando simplificadamente, é controle de natalidade aplicada a insetos", diz o diretor da Moscamed, Jair Fernandes Virginio. Segundo ele, esse método é parecido com a técnica do inseto estéril, que é usada desde a década de 1950 e consiste na produção em grande escala de mosquitos estéreis para liberá-los na área em que a espécie é uma praga.

Quando estes mosquitos se reproduzem com a fêmea natural, não são gerados filhotes ou, como acontece neste caso, esses filhotes não conseguem sobreviver.

Na fábrica de Juazeiro, a pesquisas com o Aedes acontecem desde 2010 em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) e com financiamento do governo da Bahia, que já investiu quase R$ 6 milhões no projeto.

A técnica já foi aprovada pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) e está em fase de testes. O projeto piloto foi instalado na cidade baiana de Jacobina e os resultados iniciais demonstraram uma redução média aproximada de 80% no número de ovos do mosquito.

Até a metade do ano, a Moscamed vai começar uma nova pesquisa com mosquitos estéreis fornecidos pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Não há, no entanto, uma previsão de quando esse tipo de experimento poderá ser aplicado em larga escala no Brasil.

Virginio, porém, sustenta que, diante da epidemia de zika no mundo, é cada vez mais importante investir em estudos como esse, porque não se pode abrir mão de nenhuma tecnologia que ajude no combate ao mosquito que também transmite a dengue e a chikungunya.

"Nós temos que trabalhar com o somatório de todas as tecnologias. Eu brinco que, se alguém conhecer um menino bom de estilingue, tem de convidá-lo para participar do combate, porque nós não podemos preterir de nenhuma tecnologia", afirmou.

Compartilhar: