‘Dilma perdeu o controle da gestão’, diz ex-ministro da Agricultura

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Rodrigues acredita que a presidente, ao convidar o ex-presidente Lula para assumir a Casa Civil, abriu mão de seu mandato

Ex-ministro da Agricultura no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Roberto Rodrigues, que está à frente do Centro de Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (FGV), vê o impeachment da presidente Dilma Rousseff como uma "solução para o momento delicado pelo qual o Brasil vive". Para ex-ministro, não há alternativa a não ser a busca de entendimento em torno de um projeto maior, que é reconstruir o Brasil com o resgate de confiança dos empresários e uma aliança "com a parte mais lúcida da oposição e da situação". 

Rodrigues acredita que a presidente, ao convidar o ex-presidente Lula para assumir a Casa Civil, abriu mão de seu mandato. 

Segundo ele, o Brasil tem de buscar um entendimento em torno de um projeto, independentemente de quem seja o comandante desse processo. "É preciso juntar a parte mais lúcida da oposição e da situação e resgatar a retomada da confiança do setor privado para que eles possam voltar a investir no Brasil."

Para recuperar a confiança do empresariado, Rodrigues disse que é preciso um programa claro, com regras definidas e com segurança jurídica. "Dar a certeza de que as coisas não vão mudar no meio do caminho."

Questionado se a carta do PMDB, "Uma ponte para o futuro", seria um caminho, ele respondeu que ela é "apenas um pedaço do caminho". "Não está pronta ainda. Não contempla, por exemplo, a reforma previdenciária, que é indispensável. É um baita de um pepino que precisa ser revolvido. A Dilma tentou, mas o partido dela não quis. O (Michel) Temer (vice-presidente) ou um novo governo terá de ser um governo de construção, como foi Itamar (Franco, ex-presidente que assumiu após a renúncia de Collor)", comentou. "As classes políticas, empresariais e trabalhadoras atuaram, juntas, para sair do atoleiro. Hoje, a crise política e econômica é pior."

Para Rodrigues, o atual governo perdeu a condição de comandar o processo político e de desenvolvimento. "Perdeu a confiança do setor privado e não se faz um País sem o setor privado", disse. "Lembro quando o (ex-presidente) Lula, dois meses antes de ser eleito em 2002, convidou empresários e representantes de classe para participarem de um debate em São Paulo. Ele estava com a alta cúpula do PT e se dispôs a ouvir todos para tentar entender quais eram as principais dificuldades e o que poderia ser feito pelo País, caso ele fosse eleito."

De acordo com o ex-ministro, Dilma tem uma posição completamente diferente da posição de Lula. "O Lula tinha uma visão de que o setor privado era essencial e o governo ditaria as regras a serem seguidas. Ela tem a visão de que o Estado é o grande ator da economia. E esse modelo de intervenção fracassou, levando o País a esse momento de desconfiança."

Perguntado se seria a favor do processo de impeachment, Rodrigues respondeu que Dilma perdeu o controle do processo de gestão. "O PT insurge contra ela em temas importantes, como reforma da previdência, que é necessária. Tem também a base aliada desembarcando por não se sentir prestigiada pelo governo" comentou. "O fato de a presidente convidar o ex-presidente Lula para a Casa Civil foi visto como um gesto de abdicação das funções pela sociedade. Ela abdicou do cargo, mas não renunciou" disse, destacando até que, talvez, Lula até conseguisse acertar a situação. 

Para Rodrigues, Dilma não tem capacidade de continuar o governo. "Gostaria que ela compreendesse isso e renunciasse. Eu a conheço bem. Ela é bem-intencionada, correta. Ela não renunciaria", afirmou. "Então, a solução ideal seria a do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e ter uma nova eleição. Embora eu ache que, neste momento, seria uma grande confusão nacional. Fazer uma eleição em momento turbulento é um risco grande. Pode aparecer um aventureiro de última hora", avaliou.

Rodrigues não vê nenhum nome forte atualmente. "Temos ótimas pessoas, mas nenhum deles com condições de se empoderar em votos em uma sociedade que está confusa. Então, aceito o impeachment como solução chata, particularmente porque o comando da Câmara (dos Deputados) gera – como poderia dizer? – uma sensação de comprometimento da lisura do processo", disse. "Fica aquela sensação de que a Câmara é contra a Dilma. Esse é um momento diferente do Collor (ex-presidente Fernando Collor de Mello)."

Sobre a possibilidade de Michel Temer fazer uma boa gestão em caso de impeachment de Dilma, Rodrigues respondeu que pode ser que o atual vice-presidente da República faça em torno dele uma articulação de um "projeto correto, apartidário, apolítico, que recupere a credibilidade do País interna e externamente". "Viajo muito e converso constantemente com investidores. Há uma clara sensação de insegurança por parte dos investidores, jurídica e institucional."

Questionado se a Operação Lava Jato perderia força em um eventual impeachment, Rodrigues respondeu que a operação é a grande novidade, uma mudança significativa no País. "Fizemos um movimento parecido lá atrás, com o Mensalão, mas não chega aos pés da Lava Jato pela grandeza, pela magnitude (desse processo). Acho que esse é um ponto que não pode ser mais perdido", afirmou. "Me preocupa um pouco o risco da banalização do processo. A lista dos não sei quantos da Odebrecht, uma remissão aos anos 80. Não acho que esse seria o melhor caminho. O foco tem que ser mais em cima da Petrobras e ir até o fim. Punir quem tem que ser punido e criar uma nova imagem para o País. A Lava Jato lava a alma do povo que se sente, de certa forma, compensado. Tem d..e continuar (a investigação)", opinou.


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Quem quer tirar Dilma da Presidência não é o PMDB, é o País, diz Jucá

O senador Romero Jucá, vice-presidente nacional do PMDB, porta-voz do anúncio oficial feito ontem, 29, de rompimento da sigla com o governo da presidente Dilma Rousseff, rebateu nesta manhã, 30, a acusação do PT de que o movimento de seu partido é um golpe. Em entrevista à Rádio Estadão, Jucá argumentou que o PMDB não está dando nenhum golpe e nem se movimentando para tirar a presidente Dilma Rousseff do Palácio do Planalto. "Quem fez essa manifestação, quem quer a saída da presidente é o País, as forças das ruas, os segmentos organizados e as diversas representações de empresários e trabalhadores que sabem que o governo (do PT) não tem mais a condição e a legitimidade de construir uma alternativa para o País. O PMDB está apenas verbalizando que não concorda com o quadro que existe hoje e não quer ser parceiro (do PT)."

Na entrevista, o líder disse que tem visto na bancada de seu partido uma vontade majoritária para o impeachment de Dilma prosseguir. Indagado sobre a declaração do presidente do Senado Federal, seu correligionário Renan Calheiros, que disse esperar que o processo de impeachment não chegue ao Senado, Romero Jucá afirmou que diverge dessa posição. "Renan se acautelou, respeitamos a torcida pessoal dele, mas a torcida do povo brasileiro, que é maior, espera que (o processo) chegue (ao Senado)." Apesar da divergência, Jucá disse não ter dúvidas de que Renan tratará do assunto – se o impeachment tramitar no Senado – de forma institucional, equilibrada e o processo caminhará. "Eu espero que chegue porque o País tem que dar a volta por cima, não dá mais para ficar do jeito que está, travado, empresas fechando e pessoas perdendo seus empregos."

Na sua avaliação, o PMDB acordou hoje "mais leve" com a decisão tomada por 82% de correligionários presentes no Diretório Nacional, votando por aclamação. E reiterou que a partir de hoje ninguém está autorizado a exercer cargo do PMDB no governo federal. Segundo ele, além de Henrique Eduardo Alves, outros ministros estão se preparando para o desembarque. "O PMDB agiu acertadamente porque a situação do Brasil hoje é gravíssima e não podemos compactuar com o quadro econômico e social que está se deteriorando rapidamente no País." Indagado sobre eventuais resistências, disse esperar que isso não ocorra.

O senador peemedebista afirmou que tem o maior respeito pela presidente Dilma, mas o seu governo perdeu o eixo. E justificou o desembarque do seu partido da gestão petista, sob alegação de que a motivação não foi pessoal, mas política. "O governo disputou a eleição de 2014 com um discurso e a realidade hoje é outra, então o PMDB não mudou de posição", disse, alegando que a sigla está cobrando posições e se posicionando sobre um quadro gravíssimo. "A solução desse imbróglio tem que vir pela política o Brasil não precisa de um bravateiro."

Sobre os riscos de Temer assumir um País fragilizado, disse que o maior partido do País não pode se furtar a enfrentar este desafio e colocar as providências para a saída da crise em andamento. "Se o PMDB não fizer, quem fará?", indagou. E lembrou que a legenda já conviveu com vários confrontos ao longo de seus 50 anos. 

Lava Jato
O senador disse que o PMDB apoia a Lava Jato. "Essa operação muda os parâmetros da política no Brasil. Mas acho que ela não pode ser o centro do governo e o centro do País, o governo tem que governar, tem que sair do imobilismo e paralelamente a Lava Jato vai investigando, quem tiver culpa deve ser punido e quem não tiver, o Ministério Público deve ter a responsabilidade de isentar, não há demérito em ser investigado, o demérito é ser condenado."

No caso de integrantes do PMDB, Jucá disse que eles devem ter direito de defesa, mas todos devem responder perante a lei. "Não há ninguém acima da lei, é importante que a Lava Jato continue com rapidez, para que fique claro quem cometeu ou não crimes."

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