Dilma diz que é confortável para os golpistas que a injustiça não seja visível

FOTO: ROBERTO STUCKERT FILHO/PR

Dilma: "Se eu renunciar, se esconde para debaixo do tapete esse impeachment sem base legal e, portanto, esse golpe. É confortável para os golpistas que a vítima desapareça"

A presidente Dilma Rousseff afirmou, durante cerimônia do Plano Safra da Agricultura Familiar, no Palácio do Planalto, que não irá renunciar. Segundo ela, mais de uma vez pediram que deixasse o cargo voluntariamente, mas isso, enfatizou, seria mais confortável para os que querem ocupar o seu lugar. "Se eu renunciar, se esconde para debaixo do tapete esse impeachment sem base legal e, portanto, esse golpe. É confortável para os golpistas que a vítima desapareça", disse.

A plateia, formada por movimentos sociais do campo, aplaudia e a todo instante gritava palavras de ordem: "Não vai ter golpe, vai ter luta" e "no meu País eu boto fé porque ele é governado por mulher." "É confortável que a injustiça não seja visível. Pois eu quero dizer para vocês: a injustiça vai continuar visível", disse ao falar que não renunciaria. "Nós estamos fazendo história porque a democracia é, sem sombra de dúvida, o lado certo da história", afirmou.

Representantes dos movimentos sociais também discursaram, com críticas ao processo de impeachment. Eles também fizeram críticas diretas ao vice-presidente Michel Temer, que deve assumir o lugar de Dilma caso o Senado aprove a admissibilidade do processo de impeachment, em 12 de maio; e ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que deu início ao processo na Câmara. "Temer e Cunha, a batata de vocês está assando", afirmou Anderson Amaro, da Via Campesina. "Golpistas, não os deixaremos governar nem um só dia até estabelecermos a normalidade democrática", disse. Além dele também discursaram os presidentes da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) e da Federação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadores da Agricultura Familiar (Fetraf).

Plano Safra
Dilma anunciou hoje que o Plano Safra da Agricultura Familiar 2016/2017 vai oferecer R$ 30 bilhões em crédito para o financiamento da produção, conforme antecipou o Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado. No ciclo passado, a oferta havia sido menor, de R$ 28,9 bilhões, mas os recursos contratados devem alcançar R$ 22 bilhões até o fim da safra. Os juros para itens agroecológicos e produtos que integram a cesta básica como arroz feijão, batata, trigo, café e leite recuaram de 5,5% ao ano para 2,5%. Além desses agricultores, criadores de gado leiteiro, abelhas, peixes, ovelhas e cabras também poderão acessar financiamento a juros de 2,5%. Para assentados da reforma agrária as taxas ficarão entre 0,5% e 1,5%. Parte das operações pode ter taxa de até 5,5% a depender dos limites e outras condições. "Os juros reais do Plano safra são negativos, ou seja abaixo da inflação", destacou o ministro do Desenvolvimento Agrário, Patrus Ananias.

Os limites de crédito para as operações de custeio passaram de R$ 100 mil na safra passada para R$ 250 mil neste novo ciclo. Já nas contrações de investimento, os valores aumentaram de R$ 150 mil para R$ 330 mil. Patrus Ananias ressaltou "a conquista" dos 14 últimos anos na agricultura familiar e afirmou que o plano anunciado hoje pelo governo, mesmo "diante do cenário econômico e político, atesta o elevado compromisso do nosso governo – sob a liderança da Dilma – com a agricultura familiar e a produção de alimentos saudáveis", afirmou. "Empreendemos grandes esforços para que a agricultura familiar e a reforma agrária tenham avanços."

Além de Patrus, participaram do evento os ministros da Fazenda, Nelson Barbosa; da Justiça, Eugênio Aragão; Secretaria de Governo, Ricardo Berzoini; Mulheres, Igualdade Racial, da Juventude e dos Direitos Humanos, Nilma Lino; Desenvolvimento Social, Tereza Campello; Trabalho e Previdência, Miguel Rossetto e da Integração Nacional, Josélio de Andrade Moura. 

O anúncio do lançamento do Plano Safra da Agricultura Familiar foi antecipado pelo governo. No ano passado, Dilma anunciou os recursos apenas no dia 22 de junho. O mesmo acontecerá com o Plano Safra para a agricultura empresarial que, em 2015, foi divulgado em 2 de junho, e será lançado por Dilma amanhã. A presidente decidiu intensificar suas agendas e promover uma série de anúncios de medidas nos dias que antecedem a votação do impeachment no Senado, que pode afastá-la por até 180 dias.


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Em mais um evento para afagar a base e demonstrar apoio ao governo, a presidente Dilma Rousseff usou na terça-feira, 3, o seu discurso na cerimônia de lançamento do Plano Safra da Agricultura Familiar, no Palácio do Planalto, para fazer uma defesa de seu mandato. "Vivemos tempos muito estranhos, difíceis politicamente conturbados. A democracia brasileira sofre um assalto. Querem encurtar o caminho para a democracia", acusou a presidente. Ao chegar à cerimônia, Dilma foi recebida aos gritos de "não vai ter golpe, vai ter luta" e "no meu País eu boto fé porque ele é governado por mulher".

A presidente disse, ainda, que está sendo vítima de uma fraude e argumentou que impeachment sem crime é golpe. Ela classificou as acusações do processo de impeachment como mentiras e falou sobre os decretos de crédito suplementar, publicações que são parte das acusações que pesam contra ela. "É uma mentira contra a experiência histórica do País. Se comparar com os últimos presidentes, a situação é estranha. Eu fiz seis decretos. Fernando Henrique Cardozo (FHC) fez 101", relatou. 

Dilma observou que os decretos que aparecem na acusação mostrariam que ela estava cumprindo a meta fiscal. "Esses decretos não foram feitos por demanda minha. Um deles é do TSE, que falava que eles fizeram concurso e apareceu mais gente do que o esperado", explicou. "Por isso o TSE arrecadou dinheiro a mais e pediu que esses valores fossem destinados a outro concurso", disse. Um segundo decreto, explicou Dilma, é referente ao hospital federal do Ministério da Educação. "Nesse, o MEC recebeu para os hospitais doações de pessoas físicas e de organizações sem fins lucrativos. Esse montante foi colocado nos hospitais e nós cometemos crimes porque, segundo eles, não deveríamos ter posto o dinheiro nos hospitais; os recursos tinham de ter ido para o cumprimento da meta", relatou.

Segundo a presidente, o governo já tinha feito o maior corte orçamentário que o País viveu e ainda assim "eles queriam que colocasse mais dinheiro ainda na meta". "Por isso quando votam (os deputados), votam por todas as razões, menos pelos decretos. Eles não queriam votar contra o dinheiro dos hospitais", argumentou. Dilma ainda se defendeu dizendo que não participou de nenhum dos atos pelos quais foi acusada e agora pode perder o mandato. "Eu sou acusada e sequer estive presente em qualquer dos atos. É claro que as razões do impeachment são outras. É porque não tinham do que me acusar. Estão construindo uma acusação", afirmou. "Por isso digo que me sinto injustiçada por um grupo que quer chegar ao poder através de um caminho fácil, que não passa pelo caminho do voto do brasileiro", acusou. 

Durante o discurso na cerimônia do Plano Safra da agricultura familiar ela afirmou que está se traçando o caminho para eleições indiretas. Disse que foi eleita para pôr em prática um programa que tinha como prioridades os programas sociais, mesmo enfrentando uma crise econômica e política. Ela ainda aproveitou a ocasião para fazer críticas ao presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). "Estamos em maio e não tem, por decisão de seu presidente, não existem comissões que possam avaliar projetos. Não tem a comissão de orçamento, não tem a CCJ. Mesmo diante disso, das pautas bombas, da teoria do quanto pior melhor temos lutado para manter os programas sociais", afirmou.


Dilma quer nova eleição, mas tem de convencer sua base de apoio

A presidente Dilma Rousseff planeja enviar ao Congresso, nos próximos dias, uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para antecipar as eleições ao Palácio do Planalto. Antes de bater o martelo, porém, ela precisa convencer os movimentos sociais que foram às ruas defender o seu mandato e são contrários à proposta.

Dilma escalou os ministros Jaques Wagner (Gabinete Pessoal) e Ricardo Berzoini (Governo) para sondar os movimentos. O governo avalia que, sem uma grande pressão popular capaz de influenciar os parlamentares, a medida não teria chance alguma de ser aprovada pelo Congresso.

Sem os votos necessários para virar o jogo, o governo já está convencido de que será derrotado na votação da Comissão Especial do impeachment, na sexta-feira, e também no primeiro julgamento no plenário do Senado, previsto para o dia 11. Com a confirmação deste cenário, Dilma será afastada por até 180 dias e o vice Michel Temer vai assumir a Presidência.

Antes disso, no entanto, a presidente pode encaminhar ao Congresso a proposta que prevê o encurtamento de seu mandato e novas eleições em outubro, juntamente com as disputas para as prefeituras, para "emparedar" Temer. Na última sexta-feira, 29, ela despachou Wagner e Berzoini para São Paulo com o objetivo de ouvir as frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo sobre a ideia.

Na semana passada a Frente Brasil Popular fechou posição contra a antecipação das 

eleições. A Frente Povo Sem Medo não tem posição fechada sobre assunto, e alguns grupos, como a Intersindical, são contra, mas Guilherme Boulos, do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) é a favor. 

Depois da conversa com os ministros, os movimentos contrários à antecipação das eleições passaram a admitir que podem mudar de posição. "Depois da decisão do Senado pode até haver novas eleições", disse João Paulo Rodrigues, do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST).

A reunião de sexta-feira contou com a participação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, cotado para ser candidato do PT. "Não acredito que Lula seja candidato a um mandato-tampão", disse o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas.

Lula tem dado sinais contraditórios sobre o apoio à proposta de abreviar o mandato de Dilma, mas a CUT classifica a ideia como uma "capitulação". "Eu conversei com a presidenta ontem (domingo) e disse claramente a ela que isso seria homologar o golpe. Não está dado que, no julgamento final, daqui a seis meses, haverá impeachment. Quando perceberem quem é Temer na Presidência será outra coisa", disse Freitas.

Mesmo que a proposta seja enviada ao Congresso, no entanto, sua aprovação é considerada dificílima. Uma PEC precisa ser votada em dois turnos tanto na Câmara como no Senado e só é aprovada se obtiver apoio de três quintos dos deputados (308) e dos senadores (49).

O governo, os movimentos e o PT estão cientes dos percalços, mas avaliam que, mesmo que sejam derrotados no Congresso, podem usar o tema para desgastar Temer e manter acesas as mobilizações contra o impeachment que marcaram a reaproximação entre partido e sua base. Em outra frente, senadores petistas vão buscar o diálogo com a ex-ministra Marina Silva (Rede), defensora da realização de novas eleições. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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