Deputados trocam tapas na sessão do Conselho de Ética

Foto: Reprodução

"Você mete a mão em mim. Me respeite. O senhor chamou de moleque todo mundo aqui, de turma do Cunha. Quem tem turma é ladrão"... Esse foi o clima que abriu a sessão de hoje, 10, no plenário da Câmara

Os deputados Zé Geraldo (PT-PA) e Wellington Roberto (PR-PB) trocaram tapas na sessão do Conselho de Ética e tiveram de ser apartados por colegas e seguranças da Câmara dos Deputados. A discussão começou quando Wellington disse que a votação no colegiado de um projeto de resolução pedindo a retirada do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), do cargo era golpe. A discussão contagiou o plenário e os deputados se agrediram. 

"Você mete a mão em mim. Me respeite. O senhor chamou de moleque todo mundo aqui, de turma do Cunha. Quem tem turma é ladrão", esbravejou Wellington. "Fale o que quiser. Aceito tudo, menos você me tocar", gritou o petista. "Macho nenhum vai tocar em mim", reagiu aos gritos Wellington Roberto. Mais calmo, Zé Geraldo mudou de lugar.

O início da sessão já foi marcado por discussão da tropa de choque de Cunha com o presidente do colegiado, José Carlos Araújo (PSD-BA). O deputado João Carlos Bacelar (PR-BA), suplente do colegiado, questionou a demora da abertura do painel para marcação de presença e cobrou uma atitude de Araújo. 

O presidente explicou que a Mesa Diretora é responsável pela administração do painel, disse que o deputado deveria cobrar do presidente da Casa, "que é quem manda, que pode tudo" e ironizou o nervosismo dos aliados de Cunha. "Enquanto vocês não me afastarem, e o que eu estou vendo é que querem me afastar também estou aguardando chegar o meu dia, do meu afastamento. Porque aqui pode de tudo", respondeu.

O mesmo Wellington Roberto se indignou com a resposta. "Tudo aqui agora é atribuído ao presidente Eduardo Cunha!", rebateu.


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Admissibilidade do processo de Cunha caminha para ser votada só em 2016

Com a realização da sétima sessão do Conselho de Ética sem conseguir avançar no processo por quebra de decoro parlamentar do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), parlamentares já avaliam que a votação da admissibilidade – dada até então como certa para acontecer ainda neste mês – deve ficar para 2016. 

Embora a cúpula do colegiado tenha marcado previamente duas sessões na terça-feira, 15, com o intuito de agilizar a apreciação do processo, já é dado como certo que a "tropa de choque" de Cunha virá munida de recursos regimentais para protelar a votação do relatório prévio de Marcos Rogério (PDT-RO).

"Temos de ter respostas rápidas no regimento (para evitar manobras protelatórias)", disse o vice-presidente do Conselho, deputado Sandro Alex (PPS-PR). O parlamentar acredita que a votação do parecer contra Cunha "será difícil até o último momento", principalmente com o clima tenso das últimas sessões. 

Alex garantiu que há respaldo regimental na decisão do presidente José Carlos Araújo (PSD-BA) de não permitir abertura de novo prazo para discussão, e que a ideia é ouvir a leitura do parecer e partir para sua votação. "Não vamos voltar ao zero. Nem pedido de vista cabe mais", disse.

O novo relator foi apresentado só nesta quinta-feira, 10, ao colegiado e não pode apresentar seu parecer para evitar questionamentos jurídicos. Assim, Rogério só poderá fazer a defesa de seu relatório na próxima semana. Para isso, foi marcada uma sessão de manhã e outra à tarde. Araújo sinalizou que poderá marcar sessão na quarta-feira, 16, se a admissibilidade não for votada na terça-feira.

Desde a escolha do primeiro relator, Fausto Pinato (PRB-SP), os conselheiros já sabiam que o processo não seria concluído em 2015 porque, só a partir da definição do relator, o representado passa por um processo que dura pelo menos 90 dias. Ou seja, escolhido Pinato e com relatório prévio já discutido, a admissibilidade da ação iria em votação antes do início do recesso de janeiro. A cada sessão, no entanto, os aliados do peemedebista conseguiram ganhar tempo fazendo questões de ordem e valendo-se de recursos que postergavam a votação do parecer. Com a iminência da votação, partiram para a destituição do relator.

"O Cunha venceu no seu primeiro objetivo: de não ter a opinião do Conselho para a admissibilidade (este ano). É mais fôlego para ele", concluiu o líder do PSOL, Chico Alencar (RJ). O deputado considera inédita a protelação do caso e acredita cada vez mais que diminui a chance de votar a admissibilidade este ano. "A expectativa é que a gente entre no recesso sem votar nada", observou Alencar.

Projeto 
Os deputados de oposição a Cunha desistiram de colocar em votação hoje o projeto de resolução do presidente do Conselho que pede o afastamento cautelar do peemedebista da presidência da Casa. O objetivo é tirá-lo do cargo enquanto tramitar o processo disciplinar no colegiado. Na reunião desta manhã, os oposicionistas avaliaram que tinham apenas nove votos dos 21 membros à favor do projeto.

A ideia é votar primeiro a admissibilidade da representação do PSOL e da Rede contra Cunha. Se a ação contra o peemedebista tiver prosseguimento, a estratégia é aprovar em seguida o projeto. Se passar no colegiado, a proposta deve ser submetida à votação em plenário.

Araújo também não chegou a apresentar na reunião de hoje sua proposta, pois ainda havia dúvidas sobre quem do comando do Conselho poderia assiná-la. Além do projeto de Araújo, também foi protocolada uma proposta do deputado Betinho Gomes (PSDB-PE) integrante do Conselho, que propõe o afastamento de membro da Mesa Diretora da Casa que tenha contra si representação admitida no Conselho de Ética. Os adversários de Cunha preferem não apostar suas fichas no texto do tucano por considerar que a medida não valeria para processos já em curso, como no caso de Cunha.

Enquanto o peemedebista permanece no cargo, o PSOL informou que na próxima semana lançará uma carta aberta a todos os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) dizendo que a Constituição está sendo violada pela presidência da Câmara. Defensor da judicialização do processo, Alencar afirma que o pedido de afastamento de Cunha já é público e argumenta que é preciso convencer os 11 ministros de que a dinâmica do Parlamento está "anômala". "Em situações extraordinárias, não nos resta outro recurso (a judicialização)", declarou.

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