Baixa adesão desanima manifestante na Paulista

Foto: Agência Brasil

Manifestantes que foram à Avenida Paulista demonstravam descrença e desconfiança no processo de impeachment da presidente. "Pelo visto o povo está desacreditado de que alguma coisa vai mudar”

Defender uma causa política sob o sol não é fácil, mas mais difícil é com menos gente ao lado. Manifestantes que foram neste domingo (13) à Avenida Paulista demonstravam descrença e desconfiança no processo de impeachment da presidente. "Isso aqui está uma decepção", disse a aposentada Tereza Marinho, de 77 anos, que participava de sua terceira manifestação anti-Dilma. "Se o povo não vem, essa manifestação não tem impacto nenhum."

A baixa adesão desanimou mesmo defensores esforçados da deposição, como o comerciante Heverton Ferreira, de 37 anos, que distribuía adesivos de "Fora Dilma" na esquina com a Alameda Ministro Rocha Azevedo. "Gastei R$ 300 numa gráfica pra fazer uma montanha de panfletos e mais esses adesivos, mas acho que vai sobrar", disse. "Na outra manifestação, do dia 15 (de março) fiz o mesmo tanto e faltava braço pra distribuir."

O engenheiro Pedro Estevão, de 57 anos, que ouvia a conversa, concordou: "Pelo visto o povo está desacreditado de que alguma coisa vai mudar. Como a coisa não anda lá em Brasília, os políticos não se mexem, as pessoas vão ficando cansadas."

Havia também quem creditasse ao medo o menor número de manifestantes. "Ouvi falar que o povo da esquerda também viria e que podia haver confronto. Quase não vim", disse a oficial de Justiça aposentada Wilma de Almeida, de 72 anos, que usava uma bandeira do Brasil na cabeça para se proteger do sol. "Mas no fim decidi vir, porque achei que é o que todo mundo deveria fazer. O povo brasileiro não tem cultura política, por isso foi esvaziado. Não entendem a importância de vir pra rua agora."

Dia de lazer 
Este foi o primeiro protesto anti-Dilma na Paulista após a decisão do prefeito Fernando Haddad (PT) de fechar a via para carros aos domingos. Ao longo da tarde, manifestantes, ciclistas e skatistas disputavam espaço na ciclovia do canteiro central da via, obstruída em alguns trechos por carros de som ou vendedores ambulantes. "No fim das contas a ciclovia do Haddad ajudou a engrossar o público da manifestação que vai derrubar o PT", disse o professor Geovani Aquino, de 35 anos, que segurava um cartaz com os dizeres "Petista, vai pra Cuba que o pariu".

O protesto marcou também a primeira participação direta da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) numa manifestação pelo impeachment. A entidade levou para a avenida uma campanha contra a recriação da CPMF e instalou um pato inflável de 15 metros, símbolo da campanha, em frente à sede da entidade. Também foram distribuídas milhares de bexigas amarelas que foram disputadas pelos manifestantes, que chegaram a fazer fila.

O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, também participou pela primeira vez do ato, tirando selfies e distribuindo abraços. Mas não discursou. Ao Estado, Skaf disse que estava lá para divulgar a campanha contra a CPMF e que foi uma coincidência.

Em relação a outras manifestações contra o governo, havia ontem menos grupos defensores de uma intervenção militar no País. Um único carro de som, da União Nacionalista Democrática (UND), que defende uma "intervenção militar constitucional", estava estacionado em frente ao prédio da Gazeta.

Havia também integrantes da Tradição, Família e Propriedade (TFP), que levou uma fanfarra com gaitas de fole. Paramentados com o símbolo do grupo, atravessaram a avenida tocando o hino nacional.


LEIA MAIS…

Após protestos menores, Aécio diz no Facebook que 'indignação permanece viva'

Após os protestos que levaram menos manifestantes às ruas ontem, 13, o senador Aécio Neves (MG), presidente nacional do PSDB, afirmou que as mobilizações, que começaram a ser organizadas no dia 2, com a aceitação do pedido de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff, "mostraram que permanece vivo em grande parte da sociedade o sentimento de indignação e rejeição a esse governo". A declaração do tucano foi escrita em sua página no Facebook.

O senador mineiro, que não participou das manifestações, repetiu a fala de um colega paulista, que esteve na Avenida Paulista. "Repetindo o que disse hoje o senador Aloysio Nunes, não vai ter golpe, vai ter é impeachment".

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), que disputa com Aécio a chance de disputar a Presidência do partido, afirmou que a cidade foi "novamente palco de uma demonstração popular espontânea, livre e pacífica". "A democracia ganha com isso", afirmou, em breve mensagem no Facebook na noite de ontem. 

"Esperamos que as instituições escutem a sociedade que representam e que respeitem a Constituição. Desejamos que o País volte ao normal. Que as pessoas e empresas retomem a rotina de investimentos, do emprego e da união entre todos."

A presidente Dilma Rousseff decidiu agradecer neste domingo a mensagem de apoio do ex-jogador de futebol argentino Diego Maradona. "Gracias", escreveu no Facebook, compartilhando mensagem do argentino: "Quiero enviar mi apoyo a la Sra. Presidenta Dilma Rousseff, mi corazón está contigo."

Cunha
O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), não rebateu nas redes o editorial da Folha de S.Paulo pedindo sua saída e voltou nesta segunda-feira, a postar uma mensagem religiosa aos seus fãs no Facebook.

Compartilhar: