Aliado do Planalto, líder do PMDB critica Dilma em comissão do impeachment

FOTO: VALTER CAMPANATO/AGÊNCIA BRASIL

Picciani: “Quem ganhou a eleição não teve a humildade de reconhecer que ganhou uma eleição dividida e chamar o País a uma reconciliação e quem perdeu não teve a resignação de aceitar o resultado e pensar no País"

Embora tenha dito ter convicção de que a presidente Dilma Rousseff não cometeu crime de responsabilidade que justifique seu afastamento, o líder do PMDB na Câmara, deputado Leonardo Picciani (RJ), fez uma dura crítica à petista em seu discurso na Comissão Especial do impeachment, na madrugada deste sábado. 

Picciani afirmou que o Brasil chegou à atual situação, "porque quem ganhou a eleição não teve a humildade de reconhecer que ganhou uma eleição dividida e chamar o País a uma reconciliação e quem perdeu não teve a resignação de aceitar o resultado e pensar no País; preferiu contestar e pensar apenas na sua ambição política". "Essa página, sim, seja qual for o resultado, tem que ser virada", disse.

Ponderando que não estava discursando como líder do partido, mas como deputado, Picciani disse não ter encontrado na representação do pedido de impeachment de Dilma feita pelos juristas Hélio Bicudo, Miguel Reale Júnior e Janaína Paschoal, fundamento de que a petista tenha cometido crime de responsabilidade. "Tenho convicção, presidente, de que ela não cometeu", afirmou.

O peemedebista disse também não concordar com o parecer do relator do processo na comissão especial do impeachment, deputado Jovair Arantes (PTB-GO). "Seu parecer é melhor do que a denúncia formulada pelos três advogados que a propuseram, mas, mesmo assim, a meu juízo, não me convenceu que, em algum movimento, houve crime de responsabilidade", declarou Picciani. 

O líder disse ter se convencido ainda mais disso ao assistir à participação de Janaína Paschoal na comissão. "Ela não se restringiu a falar da sua peça. Ela fez um discurso político que qualquer um de nós aqui poderia ter feito". "Portanto, se quem escreveu a denúncia (…) precisou buscar outros pontos de argumentação, certamente é porque sua convicção não estava tão segura de que a peça era completa por si só". 

Ameaças
Picciani contou ter sido procurado por diversas pessoas a favor e contrárias ao impeachment e, sem citar nomes, indicou que foi alvo de ameaças. O parlamentar disse, no entanto, que ameaças não vão sensibilizá-lo a mudar suas convicções. "Portanto, me desculpem, mas o conjunto da obra não preenche a lacuna legal para que o princípio do voto popular possa ser rompido", disse.


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Deputado do PSB indeciso diz que impeachment não é golpe e votará com partido

Até o momento no rol dos indecisos, o deputado federal Bebeto (PSB-BA) afirmou na madrugada deste sábado, durante discurso na Comissão Especial do Impeachment, que impeachment não é golpe, como PT, PCdoB e PDT vêm defendendo. Embora não tenha deixado claro sua posição, o parlamentar também indicou que deverá seguir a posição oficial de seu partido na votação do impedimento da presidente Dilma Rousseff.

"Não me perfilo com essa ideia de que impeachment é golpe. Não, ele está no ordenamento jurídico", afirmou Bebeto na comissão, defendendo, contudo, que é preciso respeitar o processo legal. O parlamentar considerou que o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff "foge à regra", pois tem uma "natureza muito mais política", em função do momento que o País passa. 

Próximo ao governador da Bahia, Rui Costa (PT), Bebeto disse que seu partido tem "uma clareza" de que a presidente Dilma cometeu erros, tem baixo índice de popularidade e que o Brasil passa por uma grave crise econômica. Mas disse ver uma "dúvida" no processo de Dilma, se os deputados farão um julgamento exclusivamente político ou levarão em conta fundamentos jurídicos.

Embora a bancada do PSB já tenha divulgado na quinta-feira nota em que declara apoio ao impeachment, o deputado lembrou que somente na segunda-feira o partido vai tomar uma decisão oficial sobre o tema. "E eu, que tenho ouvido muito ,haverei de adotar com mais segurança uma posição para apresentar na segunda-feira (data da votação do parecer na comissão)", disse.


Governo busca voto de Maluf na comissão

O Planalto elegeu o voto do deputado Paulo Maluf (PP-SP) na Comissão Especial do impeachment como determinante para ser perseguido até segunda-feira, quando o relatório favorável ao impedimento da presidente Dilma Rousseff será apreciado no colegiado. A busca pelo parlamentar parte do princípio de que ele pode mudar novamente sua posição e ser, nas contas do governo, o 33.º voto de desempate em favor da petista.

Maluf migrou nos últimos dias de uma posição contra o impeachment para uma posição indefinida e, depois, para uma favorável. Além dele, o governo vai passar o fim de semana empenhado em conseguir mais votos para derrubar o relatório. Há 65 votantes na comissão. Segundo o Placar do Impeachment do Estado, até as 20h30 de ontem, 35 deputados do colegiado são a favor do impeachment. Na quarta-feira, o relator Jovair Arantes (PTB-GO) apresentou parecer favorável ao processo de impedimento.

Ontem, a tropa de choque do governo – os ministros Ricardo Berzoini e Jaques Wagner e o assessor especial da Presidência Giles Azevedo – se reuniu para fazer esta contabilidade. O governo recomendou aos líderes que continuem investindo nos parlamentares para mostrar que argumentos para tentar afastar Dilma são "totalmente políticos", "sem base na realidade" e "indefensáveis".

O debate na comissão começou ontem em uma sessão amena que se estenderia até a madrugada de hoje, uma vez que 116 deputados – entre membros e não membros – se inscreveram para defender ou rechaçar o pedido de afastamento da presidente. Até a 1h30 de hoje, após dez horas de sessão, 37 inscritos haviam falado, nenhum do PP ou do PR, partidos que negociam sua permanência na base. Parlamentares passaram a noite saindo e chegando ao plenário. Uma nova defesa oral do advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo, seria apresentada nesta madrugada, mas foi adiada para segunda-feira.

'Barbárie'. Integrante da comissão, o deputado Wadih Damous (PT-RJ) disse que, se o afastamento for aprovado, haverá cenário de "barbárie". "Barbárie é o que vão implantar aqui se esse golpe se perpetrar", disse. A declaração gerou um princípio de tumulto, interrompendo seu discurso. O deputado Eduardo Bolsonaro (PSC-SP) chegou a perguntar se o colega estava fazendo uma ameaça. Damous retomou seu discurso após a intervenção do presidente do colegiado, Rogério Rosso (PSD-DF). O petista chamou o relatório de Jovair Arantes de "imprestável". "O relatório é ruim, é fraco. No relatório não se ouve a voz da defesa."

Rosso havia fechado acordo para esgotar a fase de pré-votação até as 4h de hoje. Mas, no fim da noite, admitia a possibilidade de estender as discussões até esta manhã. Rosso tem respaldo da oposição e do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) para realizar sessões de debates no fim de semana. Por causa da votação do impeachment, Cunha suspendeu as visitações públicas à Casa até o dia 17, data prevista para a votação em plenário.

Outro momento de tumulto foi marcado pela intervenção do petista Pepe Vargas (RS), que declarou que o PT não está no topo do ranking da corrupção e que PSDB e DEM são os partidos com o maior número de políticos cassados no País. O líder do DEM, Pauderney Avelino (AM), e o deputado Mendonça Filho (PE) reagiram com gritos de "mentira".

O discurso do deputado Sílvio Costa (PT do B-PE), vice-líder do governo na Câmara, provocou um acalorado bate-boca com dois parlamentares integrantes da Comissão Especial do Impeachment. Ele ironizou o deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ) pelo fato de ele ser pastor e chamou o deputado Danilo Forte (PSB-CE) de "merda", "corrupto" e "imbecil". As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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