‘A República cai’ se empreiteiras fizerem delação, diz Delcídio

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Delcídio deixou a prisão em 19 de fevereiro, após ter ficado quase três meses na cadeia acusado de tentar obstruir as investigações da Operação Lava Jato

O senador Delcídio Amaral (PT-MS) acusou, em delação premiada, o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, de sinalizar "de uma forma muito sutil" a aprovação de financiamentos do banco de fomento obrigando grandes empresas a fazerem doações para campanhas eleitorais.

Ele citou as empreiteiras Odebrecht, Andrade Gutierrez e OAS – ao lado do grupo JBS – como algumas das principais doadoras de campanhas eleitorais no País e avaliou que "a República cai" se algum dos executivos das companhias vierem a colaborar nas investigações da Operação Lava Jato.

"(Essas empreiteiras) atuam ecumenicamente quando o a assunto é eleição. A Odebrecht e a OAS são mais petistas, o que nunca as impediu de, evidentemente, apoiar candidaturas de outros partidos. A Andrade Gutierrez é mais 'tucana', o que não a impede de apoiar outros partidos. Não é por mera coincidência que estão juntas, entre outros projetos, na Usina Hidrelétrica de Belo Monte", afirmou Delcídio aos investigadores.

Segundo o delator, uma lista sigilosa da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado – que foi presidida por Delcídio – mostra os financiamentos concedidos pelo BNDES para as empreiteiras em obras no exterior. 

Delcídio deixou a prisão em 19 de fevereiro, após ter ficado quase três meses na cadeia acusado de tentar obstruir as investigações da Operação Lava Jato. O ministro Teori Zavascki, relator da Lava Jato STF, homologou hoje delação premiada do senador e abriu o sigilo dos autos.


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Nome de Lula é citado 186 vezes em resumo de delação de Delcídio

No resumo da delação premiada do senador Delcídio Amaral (PT-MS) homologado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Teori Zavascki, e divulgado nesta terça-feira, 15, o nome do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece 186 vezes.

Entre as citações ao ex-presidente, Delcídio afirma que partiu de Lula a ordem para que ele tentasse convencer o ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró, preso na Lava Jato, a não implicar José Carlos Bumlai numa eventual delação premiada. O senador cita ainda a participação de Lula na 'compra' de silêncio do empresário Marco Valério no mensalão.

O ex-presidente também aparece em referências à CPI do Carf (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais). Segundo o senador esse é um tema que aflige Lula, que já o teria procurado para tentar evitar a convocação do lobista Mauro Marcondes e sua esposa Cristina Mautoni.

Procurado pela reportagem , o Instituto Lula informou que não comentaria 'falatório'. "O Instituto Lula não comenta falatórios. Quem quiser levantar suspeitas em relação ao ex-presidente Lula que faça diretamente e apresente provas, ou não merecerá resposta", diz a nota.


Em gravação, Mercadante diz que Delcídio livrou Lula e Lulinha de CPI

Em delação premiada, o senador Delcídio Amaral (PT-MS) relatou que seu assessor Eduardo Marzagão gravou conversa em que o ministro da Educação, Aloísio Mercadante, recriminou o comportamento do PT no episódio da prisão do ex-líder do governo em 25 de novembro de 2015.

Segundo Delcídio, o ministro disse a Marzagão que era "ato de covardia" a nota divulgada pelo partido na ocasião em que ele foi preso por tentar barrar a Lava Jato.

"Aloísio Mercadante acrescentou que tal ato era ainda mais grave em razão de várias 'broncas' que o depoente havia segurado, dando como exemplo a retirada dos nomes do ex-presidente Lula, e de seu filho Lulinha (Fábio Luís Lula da SIlva), do relatório final da CPI dos Correios, o que foi feito, inclusive, com o apoio de parlamentares da oposição", declarou o senador.

Delcídio afirmou que Mercadante "ainda durante as conversas mantidas com Eduardo Marzagão e ao tocar no assunto da CPI dos Correios, recordou que o depoente tornara-se persona non grata no PT pela sua atuação naquela Comissão Parlamentar de Inquérito bem como afirmou que fizeram ao depoente uma covardia por ocasião de sua prisão".

"Tal ato de covardia", segundo a declaração, foi representado, particularmente, pela nota emitida pelo presidente do PT, Rui Falcão."


Delcídio confessa ter recebido propina de US$ 1 mi de Pasadena

Em depoimento de delação premiada, o senador Delcídio Amaral (PT-MS) confessou ter recebido US$ 1 milhão em propina para pagar dívidas de campanha. O dinheiro era fruto da compra, pela Petrobras, da Refinaria de Pasadena, no Texas (EUA), e foi repassado pelo então diretor Internacional da companhia, Nestor Cerveró, atualmente preso pela Operação Lava Jato. Ao saber do montante de suborno movimentado pelo então dirigente da estatal, o petista se disse "estupefato".

O petista relatou que, após ser derrotado na disputa pelo Governo do Mato Grosso do Sul, em 2006, recorreu a Cerveró e Renato Duque, então diretor de Serviços, hoje também preso na Lava Jato, para obter recursos de fornecedores da estatal. A campanha havia se encerrado com um rombo de R$ 5 milhões a R$ 6 milhões.

Ele explicou que, enquanto não recebia retorno dos dirigentes da companhia, recorreu ao ministro da Secretaria de Governo, Ricardo Bezoini, e o PT assumiu parte dos débitos. A ajuda para pagar outra parcela veio de Cerveró, que o avisou de que Fernando Baiano, operador de propinas na companhia, o procuraria para repassar US$ 1 milhão em espécie.

"O depoente soube, posteriormente, que a origem desses recursos teria advindo de propinas pagas a partir da compra da Refinaria de Pasadena, no valor global de US$ 15 milhões. O depoente sabia que Cerveró arrecadava dinheiro, a titulo de propina, para o PMDB do Senado", diz trecho do depoimento de delação transcrito pela Procuradoria-Geral da República (PGR).

Os recursos, explicou, foram usados para quitar dívidas com fornecedores de campanha e não contabilizados. "O depoente sabe que, sendo doação oficial de campanha ou não, o valor destinado seria oriundo de propina. Concorda que o pedido que realizou a Cerveró e a Duque foi errado. Reconhece esse erro", diz transcrição do depoimento Delcídio. Ele contou não saber do montante de propina movimentado por Cerveró. "Quando obteve tal conhecimento, ficou estupefato", diz o documento.

Para receber os recursos de Cerveró, Delcídio enviou um de seus amigos, Alberto Godinho. No depoimento, ele ressaltou, contudo, que o emissário não sabia da origem do dinheiro.

O petista também citou possível pagamento de propina na compra da Refinaria de Okinawa, no Japão, por US$ 72 milhões. "O depoente acredita que o mesmo esquema de pagamento de propinas, já investigado no Caso Lava lato, repetiu-se durante a compra de Okinawa. Os desenvolvedores do projeto de compra foram Cerveró e a equipe comandada por ele", diz trecho do depoimento transcrito pela PGR.


Delcídio pede desfiliação do PT por e-mail após ter homologado sua delação

O ex-líder do governo no Senado Delcídio Amaral (MS) pediu nesta terça-feira, 15, a desfiliação do PT horas após a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de homologar a delação premiada feita pelo senador. 

A decisão de Delcídio foi encaminhada pelo e-mail institucional dele enviado às 12h50 desta terça, no horário de Brasília, para os correios eletrônicos do presidente do diretório do partido no Mato Grosso do Sul, Antonio Carlos Biffi, e da comunicação do diretório regional da legenda.

Conforme adiantado pela reportagem publicada pelo jornal O Estado de São Paulo na semana passada, a carta de desfiliação, que seria apresentada assim que o ministro do STF Teori Zavascki homologasse a delação do senador, estava pronta e é lacônica.

Em uma única linha, somente informa a decisão de se desfiliar da legenda e agradece as "providências necessárias" para a saída dele do partido – do qual é filiado desde 2001.

Na delação divulgada na íntegra a partir de hoje com a homologação, Delcídio implica ou cita a presidente Dilma Rousseff, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o vice-presidente Michel Temer, os presidentes da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), senadores do PMDB e até da oposição, como o tucano Aécio Neves (PSDB-MG), em supostas irregularidades. Todos os citados ou envolvidos negam as acusações.

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