As sequelas evitáveis da imprudência no trânsito

FOTO: Maria Antonieta Toledo / Divulgação

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Entidades buscam formas educativas de alertar condutores e futuros motoristas sobre o respeito às leis de trânsito

O dia 25 de novembro de 2015 ficou marcado definitivamente na vida do casal de feirantes Terezinha Oliveira da Cruz Melo e João Batista da Costa Melo. Após trabalharem durante toda a madrugada na popular Feira da 44, no Centro de Goiânia, eles se preparavam para retornar para casa. Era por volta das 9 horas da manhã no momento em que Terezinha e o marido iniciaram a travessia na faixa de pedestre no cruzamento da Avenida Anhanguera com a Rio Verde, quando um ônibus do transporte coletivo, na tentativa de furar o sinal vermelho, arremessou Terezinha na faixa contrária, jogando-a com tamanha força no asfalto que seu crânio sofreu diversas fraturas. O marido, atônito, acompanhava tudo a alguns passos de distância, crente que estava observando os últimos segundos de vida da sua esposa. “Lembro da poça de sangue que se formou ao redor da cabeça dela e das pessoas dizendo que ela tinha morrido na hora”, recorda com pesar João Batista.

 

O motorista do ônibus chegou a rodar uns 50 metros antes de parar, sem ao menos descer do veículo para oferecer socorro. “Nunca recebemos uma ligação da companhia para saber sobre o estado da minha esposa”, lamenta. Após 12 dias internada na UTI sem receber esperanças da própria equipe médica, Terezinha iniciou uma luta pessoal para reverter os efeitos do forte trauma sofrido na cabeça, que resultou em um derrame com paralisação do lado direito do seu corpo. “Fiquei totalmente transformada”, relata Terezinha. Hoje, duas vezes por semana, o casal se dedica ao atendimento terapêutico oferecido no Centro de Reabilitação e Readaptação Dr. Henrique Santillo (Crer), onde Terezinha é submetida a fisioterapia e fonoaudiologia. Seu objetivo é recuperar a autonomia para continuar a ajudar o marido no sustento da família, vindo da feira.

Acidentes como esse são menos raros do que se imagina. Levantamento feito pela Delegacia Especializada em Investigação de Crimes de Trânsito (Dcit) mostra que em 2015, 39 pessoas foram atropeladas na capital e outras 27 foram vítimas de acidentes envolvendo ônibus do transporte coletivo em Goiânia. Esse ano, até agosto os registros mostram que 31 pessoas foram atropeladas e dez foram vítimas de acidentes envolvendo ônibus do transporte coletivo. As jornadas extenuantes e a exigência de se cumprir horários preestabelecidos, somadas à falta de prudência, podem estar relacionadas às fatalidades registradas. No caso de Terezinha, o acidente não ceifou a vida, mas lhe tirou as condições plenas de batalhar pelo seu sustento. “Imagina para uma pessoa que lida com atendimento ao público ficar com um lado do corpo paralisado? Meu único sustento vem da feira, não tenho outra fonte de renda. E agora, além de não conseguir ajudar, ainda tomo um tempo precioso do meu marido para me acompanhar nas terapias”, lamenta.

A imprudência no trânsito também vitimou o jovem Igor Henrique Feitosa, de 20 anos. Do seu acidente, ele só sabe relatar aquilo que lhe contam. A moto que pilotava foi atingida por uma outra motocicleta, sem que ele tivesse tempo de reagir. A força com que Igor foi arremessado provocou uma lesão medular grave, levando à perda do movimento das duas pernas. Desde novembro de 2015 ele se dedica a fisioterapias no Crer.

Da cadeira de rodas, hoje o jovem já evoluiu para trocar passos com o andador. Seu empenho está em recuperar a força e coordenação das pernas. Além de ter modificado totalmente a sua vida, sua mãe também precisou parar de trabalhar para cuidar do filho e investir na sua recuperação. Um drama que atinge a todos que estão ao redor da vítima. Confira o vídeo do tratamento de Igor.

Dados apurados pela Secretaria Municipal de Trânsito de Goiânia (SMT) mostram que ainda há muito que se avançar em direção à conduta apropriada no trânsito. De janeiro a junho deste ano foram lavrados mais de 338 mil autos de infração, sendo as principais causas o excesso de velocidade, avanço de semáforo, parada sobre a faixa de pedestre e direção ao celular. Atitudes adotadas pelos autores dos acidentes que resultaram em tragédia na vida de Terezinha e do jovem Igor.

Evolução para eficácia do tratamento
Diante da crescente demanda por atendimentos especializados, o Crer implantou em 2004, dois anos após a sua inauguração, uma ala de internação voltada a pacientes com lesão aguda grave, que precisa de acompanhamento próximo imediato. Segundo explica o supervisor multiprofissional de internação do Crer, Eduardo Martins Carneiro, dos 36 leitos disponibilizados para esse tipo de acompanhamento, até 40% deles chega a ser ocupado por vítimas de acidente de trânsito. “Próximo a feriados prolongados e período de férias, o número de acidentados costuma ser maior”, relata.

Os pacientes atendidos em sistema de internação são aqueles que precisam de um regime intensificado de cuidados para não piorarem seus quadros. Geralmente eles não possuem um cuidador ou têm dificuldade de transporte para os atendimentos ambulatoriais. “Diante disso, o hospital investiu nessa ala, para que tais pacientes pudessem ser acompanhados mais de perto, na tentativa de minimizar as sequelas provenientes dos traumas sofridos”, explica.

Esses pacientes chegam a receber duas sessões diárias de terapias ocupacionais, acompanhamento fonoaudiológico quando necessário, e psicológico. Um médico fisiatra acompanha de perto sua evolução e gerencia seu prognóstico junto ao projeto terapêutico. O prazo médio de internação é de 30 dias, quando o paciente passa a ser encaminhado para a reabilitação na própria instituição ou em sua cidade de origem.

Medidas preventivas
Outra unidade de saúde fortemente impactada pelos casos de imprudência no trânsito é o Hospital de Urgências Governador Otávio Lage de Siqueira (Hugol). Nos primeiros oito meses de 2016, de janeiro a agosto, a unidade realizou 3.615 atendimentos relacionados a acidentes de trânsito, o que representa quase 20% do total de atendimentos oferecidos no período. Deste total, 63% envolveram motociclistas, 27% outros tipos de veículos e 10% são vítimas de atropelamento.

Diante desse quadro alarmante, a unidade instituiu o programa PARE!, que é focado na conscientização do público interno e da comunidade em geral sobre os riscos de se associar certas condutas ao volante como bebida, alta velocidade, ultrapassagens perigosas, entre outras. Conforme explica o diretor-geral do Hugol, Hélio Ponciano, a ideia surgiu justamente da observação do número de pacientes vítimas de acidentes. “Tínhamos que fazer algo que rompesse os nossos limites, que transmitíssemos uma mensagem em maior escala sobre todos esses traumatismos evitáveis”, reflete.

Ao perceber que a demanda por esse tipo de atendimento aumentava próximo aos feriados prolongados, foram organizadas blitzen com a ajuda de colaboradores que se voluntariaram a dar visibilidade à causa. Juntos, eles se deslocam para as barreiras policiais das GOs 070 e 060 e passam a distribuir materiais informativos sobre os riscos da imprudência no trânsito. A medida visa impactar positivamente o motorista que está prestes a pegar a estrada, evitando possíveis imprudências, e, consequentemente, novas vítimas. “Se conseguirmos promover a conscientização da população teremos a diminuição desses acidentes e traumatismos e, com isso, das sequelas advindas da imprudência”, crê Ponciano.

Às vésperas do feriado de Carnaval, três mil motoristas foram abordados na blitz, e durante o feriado de Corpus Christi outros 2.653 motoristas receberam as orientações. No calendário do programa ainda constam a realização de duas outras operações sendo no aniversário de Goiânia e outra nas festas de final de ano.

Formação na base
O Detran Goiás oferece desde 2013 o programaDetranzinho, que mira na educação para o trânsito de crianças a partir de quatro anos. Com apoio da metodologia Lego Education, os pequenos são estimulados a pensar sobre a segurança no trânsito de forma lúdica, recebendo orientações sobre condutas apropriadas. Segundo o diretor técnico e de atendimento do Detran, João Balestra, desde a sua criação mais de 20 mil crianças foram impactadas. “Esse é um investimento que se faz na base, na formação de futuros condutores, que vão contribuir com um trânsito mais consciente”, analisa.

O programa Detranzinho envolve as crianças em duas etapas. Na primeira delas são repassadas as orientações sobre como se comportar no trânsito. Em seguida, elas são convidadas a montarem uma minicidade com peças do Lego, onde são incluídos sinaleiros, faixas de pedestre, placas e todos os demais mecanismos reais do dia a dia. A partir daí, elas aprendem brincando, junto com simulações cotidianas a aplicar as leis de trânsito. “Essa metodologia é tão eficaz que já vimos crianças se recusando a ir embora com os pais ao término do programa porque não tinha um capacete para protegê-lo, fazendo com que o pai retornasse para casa para pegar o equipamento de proteção”, relata João Balestra.

A intenção com esse tipo de abordagem é sensibilizar as crianças para serem agentes multiplicadores junto aos mais velhos, cobrando posturas corretas no trânsito quando estão em sua companhia, bem como formar futuros condutores mais conscientes, que adotaram desde o princípio a postura coerente no trânsito. “Esse processo é tão incrível que elas absorvem o conhecimento de forma rápida. Percebemos que há o envolvimento após a aula teórica, quando eles partem para a prática. Assim, estamos contribuindo para tornar o nosso trânsito algo mais seguro no futuro”, argumenta.

Por ser um programa itinerante, as escolas públicas e privadas de todo o Estado podem solicitar sua realização nas escolas. A intenção do programa, segundo João Balestra, é envolver o maior número de crianças por todo o Estado. Para isso, basta entrar em contato na Gerência de Formação de Condutores pelo telefone (62) 3201-4731.

Para melhor orientar os condutores, o Governo do Distrito Federal produziu o vídeo abaixo exibido durante a Semana Nacional de Trânsito. Por meio da história da vítima, é mais fácil entendermos os impactos negativos da imprudência ao volante.

VEJA LINK DA MATÉRIA: http://www.goiasagora.go.gov.br/as-sequelas-evitaveis-da-imprudencia-no-transito/

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