Fifa aprova maior reforma da história das Copas, que passará a ter 48 seleções

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Fifa aprovou a maior expansão na história de quase cem anos da Copa. Ao passar de 32 para 48 seleções, a entidade admite que a qualidade vai cair

De olho em lucros inéditos e de consolidar o futebol como o principal esporte no planeta, a Fifa promove a maior reforma da história de quase cem anos da Copa do Mundo. Além de uma expansão para incluir 48 seleções, a entidade muda as regras do torneio e abre a possibilidade de que continentes possam repartir os jogos em diversos países. Nesta terça-feira, o Conselho da Fifa aprovou a mudança de forma unânime. 

A reportagem do Estado havia antecipado que uma decisão de princípios já havia sido tomada numa reunião informal no domingo entre os cartolas. Nesta terça-feira, de forma oficial, a Fifa votou a favor da decisão, incluindo 16 novos países no Mundial.

Na preparação para a decisão, a entidade havia realizado 10 mil simulações apontando que, em termos de qualidade, o melhor seria manter a Copa com os atuais 32 países. Mas, para atingir seu objetivo de expandir o futebol e a renda da entidade, a única opção encontrada pelos cartolas foi a de abrir mais vagas. 

A projeção é de que a renda salte em 35%, com uma audiência recorde em novos territórios que jamais sonhariam em se classificar, principalmente na Ásia. Com a expansão, existem boas chances de que a China também entre na Copa, um sonho de Pequim e dos dirigentes na Fifa. 

Pelo projeto aprovado, serão 80 jogos e pelo menos seis horas de futebol por dia. Com quatro partidas por dia, a própria entidade admite que será "um desafio" erguer uma infraestrutura capaz de acomodar o projeto.

Para que isso seja possível, a Fifa vai promover mudanças radicais nas regras do jogo. O primeiro é o fim do empate, com todos os jogos sendo definidos em pênaltis em caso de as partidas não tiverem um vencedor durante o tempo de bola rolando. Além disso, até 2026 a esperança é de que a tecnologia já esteja avançada e de que polêmicas possam ser facilmente resolvidas por meio vídeo ou outros auxiliares. 

Estão ainda em estudos medidas como a autorização de um maior número de substituições, na esperança de manter elevado o ritmo de jogo. 

CONTINENTAL – Para garantir ainda que o novo projeto possa encontrar uma sede capaz de ter 12 estádios novos, 64 campos de treinamentos, 48 hotéis para as seleções e uma segurança reforçada, a Fifa vai abrir a possibilidade de que diversos países se apresentem de forma conjunta. 

Um dos temores das federações era de que, com o novo projeto, as futuras sedes da Copa se limitassem aos grandes países: EUA, China, Alemanha ou Japão. 

Mas a Fifa, a partir de 2026, permitirá que uma Copa possa ocorrer em mais de três países ao mesmo tempo. Isso, segundo a entidade, reduzirá o custo para cada uma delas. Se o Mundial voltar para a Europa em 2030, por exemplo, ela poderia ser espalhada pelo continente. No caso da América do Sul, o evento poderia ver uma aliança entre Argentina, Uruguai e Chile. 

O pesadelo organizacional ainda fica mais complicado se for considerado que o país ou continente sede tenha de receber 48 torcidas diferentes.


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Com Copa inchada, Fifa vai distribuir mais de US$ 1 bilhão para federações

O novo presidente da Fifa, Gianni Infantino, repete as velhas táticas de João Havelange e cumpre sua promessa de campanha de distribuir mais dinheiro e mais vagas nas Copas do Mundo para a "periferia" do futebol mundial. Na terça-feira, 10, a entidade anunciou que vai expandir o Mundial de 32 para 48 times, além de criar um calendário destinado a aumentar a audiência da TV, mesmo em detrimento dos torcedores locais.

Em documentos confidenciais da Fifa obtidos pelo Estadão.com, a entidade admitiu que terá de pagar mais de US$ 1 bilhão (aproximadamente R$ 3,2 bilhões) em contribuições às seleções no evento expandido a partir de 2026. O valor é quase 25% a mais do que será pago em 2018 às federações nacionais. 

De acordo com a avaliação interna, cada seleção classificada para a Copa receberá automaticamente um cheque de US$ 8 milhões (R$ 26 milhões). Hoje, das 209 federações pelo mundo, cerca de 110 delas tem uma renda de menos de US$ 2 milhões (R$ 6,4 milhões) por ano. Portanto, apenas por abrir as portas do torneio para mais times, a Fifa distribuirá um total extra de US$ 128 milhões (R$ 409 milhões), levando em consideração a inclusão de 16 seleções.

Se nos anos 1970 Havelange retribuiu os votos africanos e asiático com novos lugares na Copa do Mundo de 1982, o mesmo ocorrerá mais de 40 anos depois. Pelo novo formato, serão os africanos e asiáticos os que mais vão ganhar. Das atuais cinco vagas, a África somará 9,5 lugares em 2026. 

LUCROS – Mesmo em sua avaliação interna, os técnicos da Fifa admitem que a "qualidade absoluta” do torneio será atingida com o fim do formato atual de 32 seleções. Mas, em Zurique, o objetivo declarado é o de tornar a Copa num evento “realmente global”, o que também implica um aumento de audiência, de marketing, de seguidores e de mercado. A meta é a de que, em dez anos, 60% do planeta acompanhe o futebol, consolidando a modalidade como número 1 em todos os continentes. 

Outro tema é o aumento do valor do torneio e o impacto nas aplicações financeiras da Fifa. “A apreciação natural do mercado sobre os ativos da Fifa e o aumento de renda atribuído à expansão, combinado aos esforços de minimizar custo, podem garantir que a organização esteja bem posicionada em seus esforços para desenvolver o jogo”, disse.

Em todos os aspectos avaliados pelos técnicos, o lucro é garantido. “Uma mudança incremental na renda de emissoras de TV pode ter o maior impacto financeiro na renda comercial da organização”, admitiu. “A Fifa pode esperar um aumento em seu valor de direitos de mídia diante do aumento no conteúdo de futebol”, estimou.

Hoje, 40% dos acordos de TV para 2026 já foram fechados. Mas a perspectiva é de que, com 48 mercados, ocorra uma explosão de novas TVs interessadas em transmitir os jogos. 

Mesmo os horários dos jogos vão mudar para garantir maior audiência nos países das seleções em campo, e não dos torcedores no estádio. “A Fifa deve ter como objetivo oferecer a maioria das oportunidades a emissoras de transmitir ao vivo em horários razoáveis nos diversos mercados”, indica o documento. 

Para garantir a renda, até mesmo a agenda da Copa é pensada em termos financeiros. “A alocação de horários deve ter um papel central em determinar o impacto da expansão dos direitos de TV”, afirmou. “O tamanho da população do país classificado e sua situação econômica impactariam de forma significante o potencial do tamanho da audiência”, constatou. “Isso tem uma relação direta com o valor dos contratos potenciais a serem assinados”, disse a Fifa. “Em algumas regiões do mundo, especialmente Ásia e Europa, uma maior chance de classificação pode gerar acordos mais valiosos”, completou. 

CAMPANHA – Na Fifa, tudo está desenhado para uma explosão na renda e em cumprir uma promessa de campanha. Nesta segunda-feira Infantino convocou até mesmo ex-jogadores para defender a ideia diante da imprensa. “Trata-se de uma ideia muito boa. Alguns países precisam desse incentivo extra e estar na Copa”, disse Roberto Carlos. 

“A ideia me parece fantástica e genial”, afirmou, ao responder ao Estadão.com. “Isso daria mais possibilidades a países que nunca chegaram a esse nível de Copa que é tão genial e lindo e que gera tantos sonhos”, afirmou.


Expansão da Copa exigirá 'futebol sem fim', com 4 jogos por dia em duas semanas

A expansão da Copa do Mundo para 48 seleções vai exigir a realização de quatro jogos de futebol por dia, durante duas semanas. Só assim é que a Fifa conseguirá cumprir sua promessa aos maiores clubes do planeta de que o novo Mundial será realizado com 16 seleções extras e, mesmo assim, não ultrapasse 32 dias de disputa.

Na terça-feira, 10, a Fifa aprovou a maior expansão na história de quase cem anos da Copa. Ao passar de 32 para 48 seleções, a entidade admite que a qualidade vai cair. Mas a renda vai sofrer uma explosão, com 35% de aumento em comparação à receita da Copa de 2014 no Brasil. 

Para o novo presidente da Fifa, Gianni Infantino, trata-se de seu maior teste como chefe da entidade máxima do futebol. Por meses, ele tem costurado a ideia com emissoras, federações, clubes e patrocinadores. 

Maior audiência, maior marketing e mais venda de ingressos, porém, exigirão um acúmulo de jogos por dia, com um total de seis horas de futebol diariamente. Isso se os jogos não forem para os pênaltis. Uma das propostas é de que não haja empates e que todas as partidas nessa situação sejam definidas por pênaltis, o que aumentaria ainda mais as horas de futebol na TV.

"Será um mês de um futebol sem fim nas televisões do mundo", alertou um dos cartolas em Zurique, na condição de anonimato e admitindo que, no médio prazo, isso pode afetar o valor da Copa. "A Fifa não entende a lei do retorno", alertou Patrick Nally, homem que desenhou o sistema de marketing da entidade nos anos de 1970. "Um modelo com 48 seleções vai diminuir o valor das Eliminatórias e da Copa", disse. 

Estudos realizados na Inglaterra no final de 2016 mostraram que, pela primeira vez em 30 anos, a audiência do futebol na TV dá sinais de fadiga. A culpa, segundo as análises, seria do excesso de horas de partidas ao vivo sendo transmitidas.

De acordo com a agenda realizada pela Fifa, a partir de 10 mil simulações diferentes, a primeira fase da nova Copa terá 16 grupos, de três equipes cada. Para que todos esses 48 jogos possam ocorrer em duas semanas, quatro partidas serão disputadas diariamente.

Não haverá nem mesmo como ter a abertura da Copa do Mundo sendo realizada com um jogo único, como ocorreu em 2014, quando a única partida do primeiro dia do Mundial foi Brasil x Croácia. Já no primeiro dia de competições, seriam quatro partidas. 

O número representa o acréscimo de um jogo por dia, em comparação ao atual modelo, com 32 times. Na segunda fase, com 32 times em um mata-mata, o mesmo ocorreria: quatro jogos por dia. 

Mas a expansão também representará um desafio para infraestrutura e transmissões. Num documento confidencial preparado pelos técnicos da entidade, admite-se ainda que essa nova realidade vai exigir "uma maior logística e coordenação, o que colocaria mais pressão sobre as equipes da Fifa e das emissoras". "Um número maior de jogos também levaria a um aumento de custos diante da maior necessidade por funcionários e alugueis mais longos de equipamentos", disse a entidade.

"Enquanto formatos de expansão com quatro jogos por dia gerariam mais valor de transmissão, isso também aumentaria os custos operacionais", indicou a Fifa. 

RENDA – Em sua avaliação interna, a entidade deixou claro que, apesar do maior custo e do futebol praticamente sem interrupção, a superlotação de jogos compensaria em termos financeiros, principalmente se as TVs entrarem em um acordo com os organizadores para transmitir os jogos nos horários nobres dos países envolvidos na partida.

No Comitê Olímpico Internacional (COI), os Jogos do Rio-2016 já registraram uma situação similar, quando a natação e o atletismo ocorreram em horários que eram considerados como mais adequados para as transmissões da NBC nos EUA. 

Para que o novo formato funcione, a Fifa estima que pelo menos 12 estádios sejam necessários para que o calendário funcione e, mesmo assim, cada um deles terá de comportar um jogo a mais, o que também colocará pressão sobre o gramado.

Para cada seleção, a média será de um jogo a cada quatro dias, número considerado como o mínimo necessário para garantir a qualidade do torneio com jogadores que já vem de longas temporadas e exaustos. 

Um dos problemas registrados é o de que não haverá um equilíbrio entre os dias de descansos entre as seleções. Outro problema é que não haverá forma de realizar disputas simultâneas nas últimas rodadas da fase de grupos, medida adotada para evitar que seleções combinem resultados. 

Com esse calendário sobrecarregado, a Fifa espera conseguir evitar que a competição dure mais dias, uma promessa que Infantino havia feito aos grandes clubes europeus que já criticam o calendário internacional.


Maradona diz que Copa com 48 seleções é 'fantástica' e faz elogios a Neymar

Diego Maradona faz as pazes com a Fifa, entra em campo ao lado do presidente da entidade para um jogo amistoso e, acima de tudo sai em apoio à ideia de uma Copa do Mundo com 48 seleções. A reportagem do Estado revelou que, no último domingo, os cartolas da entidade máxima do futebol mundial fecharam um entendimento para expandir o Mundial de 32 para 48 times. A decisão será oficializada na terça-feira. 

Se existe certa resistência de alguns grandes times e seleções, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, fez questão de reunir em campo na segunda-feira, 9,  jogadores que apoiam a medida, entre eles Puyol e Batistuta. 

"A ideia me parece fantástica e genial", disse Maradona ao responder à reportagem do Estado. "Isso daria mais possibilidades a países que nunca chegaram a esse nível de Copa, que é tão genial e lindo e que gera tantos sonhos", afirmou. 

Questionado se a qualidade do torneio não cairia, como diz um documento interno da própria Fifa, Maradona rejeitou a tese. "Pelo contrário, a qualidade não cai", insistiu. "Seria um campeonato com muito futebol e assim as pessoas vão voltar a campo", disse. 

Na segunda-feira, 9,em Zurique, o ex-craque argentino voltou à entidade que, por anos, ele acusou de ser "mafiosa" e corrupta. "Estou agradecido aos que me receberam de braços abertos", disse. "Esse é o espírito que quer a nova Fifa e nós, jogadores, queremos ajudar a fazer uma Fifa transparente, purista e limpa. É o que o mundo quer", declarou. "O futebol tão corrupto precisa acabar", defendeu.

Maradona ainda será um dos convidados especiais da festa de gala da Fifa que, nesta segunda-feira, dará seu prêmio de melhor do mundo. O argentino diz que não tem favorito entre Lionel Messi e Cristiano Ronaldo, dois dos três finalistas da premiação – o outro é o francês Antonie Griezmann. 

Mas Maradona insistiu em elogiar Neymar, ainda que o brasileiro não esteja entre os finalistas. "Ele se parece a Messi em seu início de carreira", disse. "O que ele está fazendo em campo é genial. Ele está fazendo coisas que me fazem lembrar dos primeiros tempos de Messi e isso é muito", insistiu. 

JOGO – Brincando, Maradona não ganhou nenhum dos jogos que disputou na Fifa nesta segunda-feira, num campo cercado de neve. "Lamentavelmente ganhou Puyol", disse. "O árbitro não era sério e deram dois pênaltis contra o time do presidente da Fifa. Tem de que ter cara de pau de dar pênalti contra o presidente da Fifa", disse, rindo.


Clubes europeus criticam expansão da Copa do Mundo para 48 seleções

Os maiores clubes europeus criticam a decisão de expandir a Copa do Mundo para 48 seleções, anunciada pela Fifa. Em um comunicado, a Associação de Clubes Europeus (ECA, na sigla em inglês) indicou que a medida, a ser aplicada a partir da Copa de 2026, é "lamentável". "Reiteramos que não estamos a favor de uma expansão da Copa", alertou a entidade, que lidera um grupo que reúne 220 times do Velho Continente. 

"Não conseguimos ver os méritos de mudar o formato atual de 32 seleções e que provou ser uma fórmula perfeita sob todas as perspectivas", disse. "Questionável é também a urgência em chegar a tal decisão tão importante, com nove anos de antecipação, sem envolver de forma adequada os interessados sobre os quais a mudança vai afetar", afirmou a ECA. 

"Entendemos que essa decisão foi tomada com base política, e não com critérios esportivos e sob uma pressão política considerável algo que a ECA acredita ser lamentável", acusou. 

A entidade indicou que vai analisar o impacto e consequências desse novo formato e tratar do assunto em sua próxima reunião, ainda neste mês de janeiro.

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