Com prejuízo mensal e poucos jogos, estádios da Copa de 2014 pedem socorro

FOTO: REPRODUÇÃO

FOTO: REPRODUÇÃO LEGENDA (FOTO 1) Maracanã, templo do futebol brasileiro, convive com o abandono. Futuro incerto

Das 12 arenas da Copa do Mundo, três se desdobram em estratégias para diminuir o prejuízo mensal com o baixo número de partidas nos últimos dois anos. No Campeonato Amazonense, a Arena Amazônia não cobra aluguel dos clubes que jogam lá. A diária dos funcionários também fica “na faixa”. Desde o ano passado, o Mané Garrincha (Distrito Federal), que só tem três jogos confirmados do Campeonato Brasiliense até agora, passou a alojar dois órgãos da administração distrital, economizando aluguel do orçamento do governo. Por mês, o saldo negativo é de R$ 500 mil. No Mato Grosso, os gestores da Arena Pantanal defendem uma ação federal, com a participação da CBF e do governo, para salvar os estádios do Mundial que estão no vermelho.

O apelo dos mato-grossenses se justifica. E o pedido de socorro é geral. Com custos médios de R$ 700 mil por mês, a arena não consegue cobrir nem 10% disso, ou seja, R$ 70 mil. Os números são da secretaria Adjunta de Esportes e Lazer. O estádio em Cuiabá é bancado pelo governo estadual. Até o momento, estão confirmados 20 jogos da primeira fase do campeonato local, o que não significa lá grande coisa. Os clubes pagam pela utilização da Arena Pantanal uma taxa de 8% da renda bruta. A final do torneio de 2016, por exemplo, teve uma renda pífia, de R$ 167 mil.

Para resolver essa situação de penúria, o secretário Leonardo Oliveira vê duas saídas emergenciais: concessão à iniciativa privada e uma ação federal. “A CBF e o Governo Federal poderiam desenvolver uma ação conjunta, em nível nacional, para fomentar o esporte nas arenas da Copa que possuem poucas partidas”, defendeu o secretário.

Em Brasília, Jaime Recena, secretário de Turismo do Distrito Federal, rejeita o rótulo de elefante branco para o Mané Garrincha. “O nosso estádio é um elefante, mas não é branco, não. Ele está corado”, afirmou.

Para tentar sustentar a afirmação, Recena abre as contas do estádio mais caro do Mundial de 2014. O custo de manutenção mensal é parecido com o do colega mato-grossense (R$ 700 mil); a arrecadação gira em torno de R$ 200 mil. No ano passado, o estádio recebeu 28 partidas de futebol, 10 da Olimpíada. O show do grupo norte-americano Gun’s Roses ajudou a diminuir o prejuízo – o aluguel para grandes eventos oscila entre R$ 150 mil e R$ 500 mil.

Para compensar o rombo, a arena se tornou o endereço de três órgãos da administração estadual. Nos números do secretário, a economia com aluguel alcançou R$ 10 milhões entre junho de 2015 e junho de 2016, quando a arena foi entregue para os Jogos Olímpicos. Hoje estão no estádio a Secretaria de Cidades e um departamento da Terracap (Agência de Desenvolvimento do Distrito Federal).

Em 2017 só estão confirmados três jogos no estádio do campeonato estadual. Os clubes reclamam que é caro jogar ali. De acordo com a negociação, o time tem de pagar entre 8% e 13% da bilheteria. “A média de público nos nossos jogos é de duas, três mil pessoas. Se a gente jogar lá, teremos prejuízo”, afirmou Paulo Henrique Lorenzo, gerente de futebol do Brasiliense.

As arenas ainda enfrentam um problema adicional visível pela TV. Quando as partidas são realizadas, elas ficam vazias, pois são muito grandes para a realidade local. No ano passado, 70% dos lugares das arenas da Copa do Mundo ficaram desocupados. Sete dos 12 estádios tiveram ocupação menor que 30%.

SOLUÇÃO – Para contornar o problema do valor do aluguel, os administradores da Arena Amazônia não cobram a taxa dos clubes locais. Para times de outros Estados, ela gira em torno de 7 a % 10%. A final de 2016 atraiu 1.574 pessoas, que deixaram na bilheteria R$ 17.580,00. “A renda da bilheteria vai para os clubes. É uma forma de incentivar o futebol local”, disse o secretário estadual de Juventude, Esporte e Lazer, Fabrício Lima.

A iniciativa também tenta minimizar o saldo negativo. Em 2016, a despesa anual foi de R$ 6,5 milhões. A receita, por sua vez, alcançou R$ 1,1 milhão. “Nosso objetivo é encerrar 2017 no 0 a 0”, afirmou o secretário.

Em todos os Estados, uma das soluções apontadas foi a concessão à iniciativa privada. Em Brasília, uma chamada pública atraiu dois grupos interessados. No Mato Grosso, a secretaria acha difícil encontrar um parceiro. Em quatro locais, empresas que gerem os estádios querem deixar o negócio. Isso já aconteceu em Pernambuco – a administração voltou para o governo do Estado. Pode acontecer no Maracanã (Rio), Arena das Dunas (Natal) e na Fonte Nova (Salvador).


LEIA MAIS…
Principal estádio do País, Maracanã tem futuro incerto; Mineirão é exceção

Palco da abertura e encerramento da Olimpíada e da Paralimpíada do Rio-2016 e dos principais jogos do futebol carioca, o Maracanã está longe de ser um elefante branco, problema comum das outras arenas da Copa do Mundo de 2014, mas seu futuro está indefinido. O principal estádio do Brasil está sem condições de uso. O problema é uma briga judicial entre a concessionária e o governo do Estado do Rio de Janeiro.

Em março do ano passado, o consórcio Maracanã S.A., que administra o estádio e é liderado pela Odebrecht, cedeu a arena ao Comitê Organizador Rio-2016 para a Olimpíada e a Paralimpíada. Após as competições, o consórcio não aceitou o estádio de volta, alegando que ele não estava na mesma condição anterior.

No entanto, a Justiça ordenou que o consórcio reassumisse o Maracanã. A empresa, por sua vez, recorreu da decisão. No último capítulo da briga, na última sexta-feira, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro negou recurso e manteve a decisão de 1.ª instância que obriga a empresa a reassumir a gestão do estádio e do Maracanãzinho. Assim, a concessionária deve manter a administração, sob pena de multa diária de R$ 200 mil.

Por causa da disputa, o complexo está fechado. Turistas não conseguem visitá-lo e o gramado foi abandonado. Funcionários da empresa Sunset, responsável pela segurança do estádio, registraram, em boletim de ocorrência no início do mês de janeiro, o furto de duas televisões de LCD de 46 polegadas, de um pino de mangueira de incêndio em cobre e de dois bustos, também de cobre. Um deles do jornalista Mário Filho, que dá nome ao Maracanã.

O estádio teve a sua energia cortada por falta de pagamento. A concessionária garantiu a quitação do débito de R$ 1 milhão. O consórcio também comunicou que já restabeleceu o contrato com a empresa responsável pela segurança e solicitou aumento do efetivo tanto o estádio do Maracanã como para o ginásio do Maracanãzinho. O mesmo procedimento teria sido adotado com outros prestadores, incluindo empresas de manutenção do gramado e limpeza.

CONTRAPONTO EM BELO HORIZONTE – O Mineirão é um dos poucos exemplos de sucesso entre as arenas da Copa. Em 2016, o estádio alcançou o crescimento de 35% de exploração comercial com jogos de futebol e grandes shows. Foram 43 três partidas com arrecadação de R$ 18 milhões apenas em bilheteria.

Só o clássico das Américas, partida das Eliminatórias entre Brasil e Argentina, rendeu R$ 13 milhões. Mais de 53 mil pessoas acompanharam o massacre da seleção brasileira sobre a argentina por 3 a 0. Foi o maior público da arena em 2016. Entre os grandes shows, a arena recebeu a apresentação do grupo britânico Iron Maiden e da banda californiana Marron 5. A arena também assinou contrato com a cervejaria Brahma, que se tornou a marca oficial do estádio.

Em alguns casos, shows e jogos de futebol acontecem simultaneamente. No camarote do estádio, os torcedores podem acompanhar espetáculos musicais nos intervalos e no final das partidas. A partida inicial do Campeonato Mineiro, entre Vila Nova e Cruzeiro, também terá atrações musicais.

Com um planejamento comercial para 25 anos, o estádio recebe desde aniversários de crianças até shows para 50 mil pessoas. O organizador do evento tem o custo médio de R$ 10 por pessoa. No futebol, não há aluguel do estádio, mas apenas cobrança dos custos operacionais. No caso do Cruzeiro e no do América-MG, por exemplo, há um contrato de fidelidade. Para o Atlético, a negociação é feita jogo a jogo.

O Mineirão firmou uma parceria inédita com o estádio Beira-Rio, em Porto Alegre. Os clientes de camarotes e cadeiras cativas da arena de Belo Horizonte e das áreas vips da gaúcha tiveram assentos garantidos nos dois estádios na semifinal da Copa do Brasil.


Compartilhar: