UMA HISTÓRIA DE LUTA EM DEFESA DO CERRADO E DAS PLANTAS MEDICINAIS

“Minha avó dizia que as plantas se revelam para nós”, conta Lucely, que desde criança a seguia pelo campo para estudar os potenciais terapêuticos das plantas que rodeiam a comunidade Quilombola do Cedro, em Mineiros

Fernando Brandão
Tivemos a oportunidade de acompanhar Lucely Morais Pio, numa caminhada de aprendizado pelo pouco que resta de uma área de cerrado. Vivenciamos seu carisma e constatamos que ela fala com as plantas e que elas recebem sua mensagem de amor, seu apelo à preservação.

Com a sabedoria e a humildade de quem já superou todos os preconceitos, Lucely abre o coração e fala de sua luta. Foi com esse espírito que a Olhaki Revista encontrou essa mulher extraordinária, para uma entrevista exclusiva.

Nascida na comunidade quilombola do Cedro, mais precisamente na Chácara das Flores, a cerca de 5 quilômetros de Mineiros-GO, ela é mestra tradicional no preparo artesanal de medicamentos e tem conhecimentos sobre técnicas de tratamentos através de argilas medicinais. É conhecedora do cerrado e do uso medicinal das plantas, saber tradicional herdado de sua avó materna.

Participou de curso de dois anos em massagem, fitoterapia, geoterapia e bioenergética pela Nature e Vida/SP e do curso de extensão e formação em técnicas de manipulação de remédios caseiros pela Universidade Católica de Goiás. Realizou também o curso de manipulação e fórmulas de remédios caseiros pelo Hospital de Medicina Alternativa em Goiânia (GO) e o curso de manipulação de tinturas pela Faculdade de Farmácia da UnB (Brasília-DF).

É uma das fundadoras do Centro Comunitário de Plantas Medicinais do Cedro e coordenadora da equipe de fitoterapia de remédios caseiros do município de Mineiros. É sócia fundadora e secretária da Associação Pacari de Plantas Medicinais do Cerrado. Também é membro-suplente desta associação na Comissão Nacional de Desenvolvimento Sustentável de Povos e Comunidades Tradicionais.

Tem ministrado palestras e cursos sobre os saberes relativos aos fundamentos da vida humana: os conhecimentos sobre manejo e aplicação de plantas como medicamentos e alimentos; as formas de auscultar o corpo e as práticas voltadas para a recuperação e a manutenção da saúde e do bem estar ao longo do ciclo de vida; a formação de redes sociais de pesquisas e a socialização dos meios tradicionais de promoção da saúde.

É uma das autoras da Farmacopéia Popular do Cerrado. Atuou como professora no Projeto Encontro de Saberes na UnB, nas áreas dos saberes da saúde e da cura, espiritualidade, saberes quilombolas e meio ambiente.

Recentemente foi indicada como coordenadora do DGM Brasil, onde desempenha o importante trabalho de preservação das plantas medicinais e das últimas áreas de cerrado existentes no Brasil.

Nesta entrevista, a raizera e guardiã do cerrado nos ensina como os métodos naturais, usados desde os primórdios do mundo, podem ser aliados na cura de muitas doenças.

Inicialmente, fale-nos um pouco sobre a Comunidade Quilombola do Cedro e sobre seu fundador, o escravo Chico Moleque…
Lucely – Essa comunidade foi fundada pelo meu tataravô “Chico Moleque”, apelido de Francisco Antônio de Morais. Um homem batalhador, no qual me espelho pela sua força e coragem. Se estamos aqui hoje é graças a ele.

“Chico Moleque” pagou tudo que devia aos coronéis da época. Com muita luta e suor, sem direito a descanso nos finais se semana e feriados, comprou sua alforria, sua liberdade, e aqui no Cedro criou sua família e deu vida a essa comunidade quilombola, que tanto contribuiu para a história de Mineiros, seja através da produção de alimentos, da extração de diamantes do garimpo e da força de trabalho de um povo guerreiro que sobreviveu a tudo, até mesmo a um dos males mais perverso que ainda afeta a humanidade: a discriminação.

“Chico Moleque” nos deixou um legado, dentre muitos, que é o conhecimento pelas plantas medicinais, mostrando-nos como os métodos naturais podem ser grandes aliados na cura de muitas doenças.

Quando você começou seu trabalho com as plantas medicinais? Quem te influenciou?
Lucely – Conforme disse veio dos nossos antepassados, do “Chico Moleque” e de seus descendentes.
Mas, de forma direta, fui influenciada pela minha avó Maria Bárbara. Com cinco anos de idade eu já sabia a função de cada planta que coletava no cerrado. Cada uma tem sua funcionalidade e horário certo para ser colhida. Cada erva possui um ciclo que precisa ser respeitado.

Em 1985 fui convidada pela Pastoral da Criança para unir meus conhecimentos tradicionais com a medicina natural, a fim de estimular ainda mais o trabalho já realizado na comunidade do Cedro. Essa iniciativa despertou em mim a vontade de estudar ainda mais sobre as plantas e terapias naturais.
Outra pessoa que me influenciou muito e eu não posso deixar de mencionar foi o saudoso padre Dom Eric, que sempre esteve presente no meu trabalho com as plantas e minha luta pela preservação da natureza.

 

Algumas dessas plantas medicinais do cerrado já são difíceis de serem encontradas, não é mesmo?
Lucely – Infelizmente sim. Mas nós realizamos na rede Pacari um trabalho de coleta sustentável e plantamos aqui na comunidade do Cedro essas espécies que estão em extinção. Nós trabalhamos com 450 espécies de plantas medicinais e lutamos para mantê-las vivas, inclusive orientando e conscientizando a todos sobre a importância de preservá-las.

O cerrado vem sendo dizimado no Brasil. Qual sua análise sobre isso…
Lucely – Fico muito triste e preocupada com o que está acontecendo. Não sou contra o desenvolvimento, sei que o País precisa produzir alimentos, mas defendo que a exploração do cerrado poderia ser menos agressiva e mais sustentável, sem tanta ganância econômica.

Estamos acabando com um bioma sem conhecê-lo, sem estudá-lo, sem nos atentar para o fato de que nele, em suas plantas, está a cura para muitas doenças.

É preciso, com urgência, priorizar o cuidado com o cerrado. Além de sua flora e fauna, a maioria de fontes de água doce está aqui. Ele precisa ser preservado, não só por nós povos e comunidades tradicionais, negros e índios, mas por todo mundo que depende dessa água para viver.

Aqui no Cedro sobrevivemos usando as folhas, os frutos e as raízes do cerrado. Para mim ele significa: força, aprendizado, cultura e saúde. Queremos passar isso para nossos filhos e netos, para que esse trabalho continue de geração em geração.

 

Quando foi inaugurado o Centro Comunitário de Plantas Medicinais do Cedro?
Lucely – Ele está em atividade desde 1998, produzindo 90 fórmulas fitoterápicas, dentre elas xaropes, garrafadas, chás, pomadas e sabonetes. Aqui estamos produzindo remédios para gripe, tosse, reumatismo, gastrite e vários tipos de infecções.

Você também realiza um importante trabalho com a argila, que é um barro medicinal. Em que consiste esse tratamento?
Lucely – Aplicamos a geoterapia, que é o tratamento natural com a argila. Ela é aplicada no corpo da pessoa e fica em repouso durante uma hora. Esse tratamento limpa a pele, reativa a circulação, combate dores, infecções e trata a ansiedade. Os resultados têm sido satisfatórios.

Seu trabalho aqui na comunidade quilombola do Cedro ganha agora dimensão internacional. Você foi indicada como Coordenadora no Comitê Gestor Nacional do DGM Brasil. Como se sente?


Lucely – Fui eleita pela articulação Pacari de plantas medicinais do cerrado, que é a rede que eu participo como representante junto ao DGM Brasil, que é composto por povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais. No mundo ele é composto por 14 países, que tem seus comitês nacionais. Aqui no Brasil estamos acompanhando 60 projetos, de 10 estados na região do cerrado. Graças a nossa participação já conseguimos um recurso de R$ 198 mil, que será aplicado no reflorestamento de nascentes na comunidade do Cedro.

Mas, vale dizer que estamos discutindo e avaliando projetos de todo o mundo. É uma honra para mim ser uma das representantes do DGM Brasil. Estou feliz porque aonde vou falo do meu povo, de minhas origens, do cerrado e suas riquezas, da minha querida Mineiros.

Recentemente você participou de um congresso do DGM Global em Bruxelas – Bélgica. O que foi apresentado e discutido?
Lucely – Foi uma experiência muito importante na minha vida. Diria um sonho! Uma negra do Cedro levando seu conhecimento e, ao mesmo tempo, conhecendo o trabalho desenvolvido em outros países. Uma negra do Cedro, podendo falar de sua experiência com as plantas, falar de sua cultura, de sua cidade e do seu País.

Foi de uma responsabilidade muito grande discutir projetos do mundo inteiro para os próximos dois anos e perceber que temos um grande desafio pela frente. Apesar de tudo, de toda maldade praticada contra a natureza, contra o ser humano, existe um grupo de pessoas aqui e ali defendendo, se preocupando e buscando soluções. Com muito orgulho faço parte desse grupo, o Cedro de Mineiros faz parte desse trabalho.

 

 

FONTES PESQUISADAS:
Sombra dos Quilombos – Martiniano J. Silva
www.saberestradicionais.org/luceli-morais-pio/
www.palmares.gov.br/?p=52358
www.srmineiros.com.br/artigos/20/historia-viva
www.pnud.org.br/meio_ambiente/reportagens/index.php?id01=2799&lay=mam
www.mma.gov.br/estruturas/sbf_agrobio/_publicacao/89_publicacao01082011054912.pdf
www.ispn.org.br/site/wp-content/uploads/2018/10/clique-aqui.pdf
inctinclusao.com.br/atividades/seminario-medicina-

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