Fala, Dona Eudóxia! Nós precisamos te ouvir…

FOTO: SUEDY PIESANTI

"Tive a oportunidade de viver um tempo saudável, nostálgico e mágico que marcou minha mocidade. Como foi bom, como tenho saudade"

“Diria que amar a vida, amar a família e o próximo, ter esperança e fé em Deus são princípios fundamentais. A gente precisa ser útil, estar presente e ser importante para alguém, ter uma participação ativa na família e na sociedade”
 
A entrevista desta edição é uma verdadeira lição de vida e uma resposta àqueles que desistem de seus ideais quando surgem as primeiras dificuldades. É a história de uma guerreira, que no alto dos seus 90 anos nos ensina: “Tive a oportunidade de viver um tempo saudável, nostálgico e mágico que marcou minha mocidade. Como foi bom, como tenho saudade!”
 
Eudóxia Francisca de Rezende Cunha nasceu na antiga Vila de Mineiros, estado de Goiás, em 16 de agosto de 1926. Descendente de uma família de desbravadores.
 
O Coronel Joaquim Carrijo de Rezende (Coronel Carrijo), seu avô paterno, considerado o legítimo fundador de Mineiros, foi um dos empreendedores vindos das Minas Gerais, que chegaram à região com o objetivo principal de desbravar terras e trabalhar com a criação de gado de modo extensivo.
 
Dona Eudóxia é a filha caçula, única ainda viva, dos 12 filhos de Clarimundo Joaquim de Rezende (o Coronel Mundinho) e Francisca Umbelina de Oliveira.
 
Realizou seus estudos preliminares na Fazenda Flores, onde residia, hoje propriedade dos descendentes de Urbano Clarimundo de Rezende, seu irmão. Após os primeiros estudos na fazenda, frequentou o colégio interino Maria Auxiliadora, em Alto Araguaia-MT. Para ajudar sua mãe nas lides domésticas, a filha caçula, ainda adolescente, teve de interromper seus estudos e o sonho de se formar, regressando à fazenda. Nesse tempo, ajudou, inclusive, na criação dos filhos do primeiro casamento de Alcides Clarimundo de Resende (Sr. Neném Mundinho), seu irmão, cuja esposa falecera precocemente.
 
Casou-se aos 18 anos com Paulo Borges da Cunha, em 29 de maio de 1944. Seu esposo era natural de Prata-MG. Paulo chegou a Goiás ainda moço, com o objetivo de comprar e vender gado Zebu. Logo no início do casamento, o casal Paulo e Eudóxia residiu em uma fazenda. Depois de alguns anos vieram para a cidade e adquiriram uma casa em frente ao antigo Mercado Municipal, hoje Senac. Depois foram morar na casa atual, situada à Praça Coronel Carrijo, número 13, onde Dona Eudóxia nos recebeu para a entrevista.
 
O casal Paulo e Eudóxia teve seis filhos: Paulo Ítalo, falecido ainda bebê; Fausto, morto em acidente automobilístico em 1978; Yara, Jussara, Jurema e Paulo.
 
Hoje, aos 90 anos de idade, essa senhorinha acompanha, realizada e feliz, o crescimento e desenvolvimento de seus descendentes, tendo a felicidade de receber no ano passado a primeira trineta (popularmente, tataraneta).
 
Eis a entrevista com Dona Eudóxia, mulher dinâmica e corajosa, generosa, cristã, trabalhadora incansável em prol da comunidade.
 
Qual é o segredo para se chegar aos 90 anos esbanjando tanto entusiasmo e alegria?
Dona Eudóxia – Diria que amar a vida, amar a família e o próximo, ter esperança e fé em Deus são princípios fundamentais. A gente precisa ser útil, estar presente e ser importante para alguém, ter uma participação ativa na família e na sociedade. Foi assim que cheguei aos 90 anos, respeitando os valores adquiridos com os meus pais, sempre procurando ser justa nas minhas ações e observando que a minha liberdade termina onde começa a do semelhante.
 
Mas existem muitos outros fatores importantes para se chegar aos 90 anos, que são básicos e essenciais, como uma alimentação saudável, exercitar o corpo e a mente, procurar ser feliz, porque os momentos tristes passam e a vida continua. Não é mesmo?…
 
Qual foi o fator preponderante que motivou a vinda de sua família para Mineiros?
Dona Eudóxia – Esta região de Goiás era um verdadeiro eldorado para muitos fazendeiros do estado de Minas Gerais e para cá muitas famílias se deslocaram em carros de boi, viajando meses, desbravando regiões inabitadas e perigosas. Aqui se aportaram, construíram grandes fazendas, criaram gado, produziram, trabalharam muito e geraram riquezas.
 
Às vezes me pergunto se Mineiros seria a cidade que é hoje, não fosse o ideal dessas famílias, dentre elas as minhas Mundinho e Carrijo.
 
Diria que o fator preponderante que motivou a vinda dessas famílias para Mineiros foi o ideal do trabalho, a luta por uma vida melhor, a consolidação de muitos sonhos que vislumbraram aqui, nesta terra prometida.
 
Sinto-me bastante honrada e feliz por fazer parte destas famílias tão tradicionais e queridas em Mineiros.
 
A senhora é a única filha viva do Coronel Mundinho e neta do Coronel Carrijo. Qual a característica que a senhora destacaria em ambos?
Dona Eudóxia – Eram homens predestinados e que não temiam desafios. A decisão de vir para os extremos de Goiás, e aqui fixar morada, foi uma verdadeira saga, digna de livros e filmes. O ideal e a força de trabalho moviam esses homens. Foram verdadeiros desbravadores. Destaco aqui, na minha singela opinião, uma característica que marcou meu pai e meu avô. Apesar da dureza que era a vida naquela época, eles eram pessoas amáveis, dedicadas a família e aos amigos.
 
Nos relate um fato que marcou sua trajetória no decorrer destes 90 anos de vida em Mineiros…
Dona Eudóxia – Tive uma vida muito ativa na comunidade mineirense, participando de muitos movimentos e atos que marcaram a história de Mineiros. Sempre era procurada pelas entidades, que buscavam minha opinião e participação. Sinto-me muito alegre e prestigiada com tudo isso.
 
Como a senhora vê a cidade de Mineiros hoje em comparação com a de sua mocidade?
Dona Eudóxia – Nossa, a diferença é muito grande. Antes havia mais sentimento, mais ternura. Hoje o celular domina tudo e as pessoas não têm mais tempo para um bom papo, para visitar um amigo ou parente. Foram-se os tempos tranquilos, quando dormíamos com as janelas abertas. A insegurança tomou conta da nossa Mineiros, não podemos mais confiar nas pessoas que encontramos pelas ruas.
 
Tive a oportunidade de viver um tempo saudável, nostálgico e mágico que marcou minha mocidade. Como foi bom, como tenho saudade!
 
Na sua opinião quais são os grandes problemas que afetam a juventude de hoje?
Dona Eudóxia – Falta de lazer saudável, o alcoolismo e as drogas.
 
A senhora destacaria uma boa lembrança?
Dona Eudóxia – São muitas… Apesar de não dançar mais, lembro-me dos bailes nos finais de semana. Da alegria e motivação das moças e rapazes. Da confraternização das famílias. Tudo era feito com muita amizade e respeito, não era como nos dias de hoje.
 
Se tivesse que apagar um fato ruim vivido ao longo desses anos, qual seria ele?
Dona Eudóxia – A tragédia que vitimou os filhos de Mineiros, deputado José de Assis, o ex-prefeito Antônio Carlos Paniago (meu genro) e seus colegas que viajavam naquele avião dia 14 de outubro de 1979.
 
Foi muito triste, Mineiros chorou naquele dia.
 
A impressão que dava é que naquele avião viajava a alma de nossa gente. José de Assis e Antônio Carlos eram muito amados. Até hoje, quando me lembro, me emociono.
 
Qual a mensagem que a senhora deixa para essa nova geração em busca de sonhos e realizações…
Dona Eudóxia – Que ela estude muito. Mineiros conta hoje com várias opções, com boas Faculdades. Não percam esta oportunidade. Por muitas gerações ouvimos dizer que “A pessoa vale o que tem”. Eu diria que este ditado está perdendo seu conceito no mundo atual, marcado por enormes avanços tecnológicos. Não demora muito e ele será trocado pelo seguinte: “A pessoa vale o que sabe”. Vamos viver um tempo em que o conhecimento será o maior patrimônio que o ser humano pode acumular. É ele que vai nortear o futuro da humanidade.

PINGUE PONGUE…
Religião: Católica
Time de futebol: Santos
Ídolo: Roberto Carlos
Uma frase: “Nunca deixe para amanhã o que se pode fazer hoje”
Prato preferido: Macarronada
Uma música que marcou sua vida: Luar do Sertão
Um livro: Os livros do Dr. Martiniano J. Silva
Um medo: De ladrão
Juventude: Dança
Lembrança: Vir da fazenda para a cidade na época das festas
Saudade: Viajar
Família: Saudade eterna do meu filho, esposo e dos meus pais.

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