Corpo de Marília Pêra foi enterrado no Rio

Fotos: Reprodução

Atriz lutava contra o câncer e passava por tratamento para um desgaste ósseo na região lombar. Morte comoveu amigos de carreira e fãns

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O corpo da atriz Marília Pêra foi sepultado no fim da tarde de ontem, 5, no Cemitério São João Batista, em Botafogo, no Rio de Janeiro. A cerimônia foi discreta e contou basicamente com a presença de familiares e amigos de Marília, conhecida também por ser reservada.

O velório foi realizado no Teatro Leblon, na Sala Marília Pêra durante o dia. A atriz morreu em sua casa na zona sul do Rio, aos 72 anos, no início da manhã.

Marília Pêra lutava havia dois anos contra um câncer e passava por um tratamento para um desgaste ósseo na região lombar.


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Marília Pêra era considerada uma artista completa

Marília Pêra, que morreu na manhã de sábado, 5, poderia ser só mais uma dessas herdeiras de artistas que, fascinada pelo universo frequentado pelos pais, virou atriz.

O caso é que Marília dificilmente escaparia desse destino. Artista completa, capaz de atuar, cantar e dançar com maestria, pisou no palco pela primeira vez aos 4 anos, incentivada pela mãe, Dinorah Marzullo, e pelo pai, Manuel Pêra.

Foi bailarina dedicada a coreografias, sapatilhas e pas-des-deux dos 14 aos 21 anos. Esteve em musicais e espetáculos de revista peças, filmes, novelas e seriados. Cantou e cantou bem até o fim – vinha gravando um CD pela Biscoito Fino, com repertório pautado pelo amor. 

Ela mesma nos contou sobre o projeto, ainda em setembro, quando o jornal O Estado de S. Paulo a entrevistou sobre a nova temporada de Pé na Cova, que então iria estrear. Na ocasião, Marília fez questão de dizer que estava ótima, que a reclusão de dois anos antes, em função de um tratamento para sanar o desgaste ósseo dos quadris, era algo completamente superado. E que estava cheia de projetos. 

"Eu não estou reclusa, muito pelo contrário", insistiu. Mas o agendamento de uma sessão de fotos pela reportagem demorou a ocorrer, em razão da fragilidade da atriz. Os retratos foram feitos cerca de dez dias depois, no Rio, e apresentavam então a diva de sempre, perfeita, com fragilidade nula nas imagens, como só uma grande atriz faria. 

Marília tentou, até o fim, disfarçar a condição física apontada há alguns dias por Hidelgard Angel, que publicou em seu blog que a atriz sofria de câncer – "ela mesma me falou", informou Angel.

Polêmica como só os gênios podem se dar ao luxo de ser, Marília Pêra fascinou grandes plateias e descontentou alguns colegas de profissão. De temperamento impositivo, fazia valer sua vontade. Um dos episódios que vieram à tona, nesse contexto, foi sua escalação para a minissérie Cinquentinha, de Aguinaldo Silva. Após várias cenas gravadas, desistiu do papel, causando revolta entre os profissionais da Globo e sendo substituída por Betty Lago.

Em 1989, ao tomar partido por Fernando Collor para a presidência da república, foi vítima de agressores que apedrejaram a porta do teatro onde ela se apresentava. Desde então, não mais se manifestou politicamente.

O episódio foi um contraste no seu histórico político, já que no passado, chegou a ser vista como comunista. Foi presa durante a apresentação da peça Roda Viva, de Chico Buarque, em 1968, e teve a casa invadida pela polícia pouco tempo depois, quando novamente foi presa.

Foi ainda engatinhando como atriz que esteve no mesmo palco de Bibi Ferreira, em Minha Querida Lady (1962). Costumava dizer que passou nos testes porque os diretores procuravam alguém capaz de fazer acrobacias, coisa rara na época.

Em 63, foi Carmen Miranda em O Teu Cabelo Não Nega, biografia de Lamartine Babo, e voltou a encarnar a cantora em outras ocasiões como no espetáculo A Pequena Notável (1966), dirigido por Ary Fontoura, e A Tribute to Carmen Miranda, no Lincoln Center, em Nova York (1975), dirigido por Nelson Motta, e na única apresentação A Pêra da Carmem, no Canecão, em 1986. Em 2005, fez o musical Marília Pêra canta Carmen Miranda (2005), dirigido por Maurício Sherman.

Em 64, chegou a derrotar Elis Regina em um teste para o musical Como Vencer na Vida sem Fazer Força. 

Chegou à TV ainda em 65, em Rosinha do Sobrado, já na Globo e depois, em A Moreninha. Em 1967 fez sua primeira apresentação em um espetáculo musical, A Úlcera de Ouro, de Hélio Bloch.

Em 1969, cativou críticos e públicos como protagonista de Fala Baixo Senão eu Grito, primeira peça da dramaturga Leilah Assumpção. Levou o Molière e o APCA do ano.

Em 75, gravou o LP Feiticeira, pela Som Livre.

Com aulas de ópera no currículo, interpretou Maria Callas na primeira montagem de Masterclass. Disse ao Estado que se identificava com a diva.

Com a mesma competência que a levava a atuar e a cantar tão bem, dirigia com mão firme. Era seu o comando de Marco Nanini e Ney Latorraca em O Mistério de Irma Vap, um hit de bilheteria da história teatral brasileira.

Casou aos 17 com o músico Paulo da Graça Mello, morto num acidente de carro em 1969 e pai de Ricardo Graça Mello, seu primogênito. Paulo Villaça, o segundo marido, foi seu parceiro no palco. Depois veio Nelson Motta, pai das filhas Esperança e Nina.

O grande musical Elas por Elas, para a TV Globo, veio em 92. Em 2008, foi protagonista do longa-metragem, Polaróides Urbanas, de Miguel Falabella, onde interpreta duas irmãs gêmeas.

Miguel Falabella foi seu grande parceiro nos últimos anos. Dele, fez A Vida Alheia e Pé na Cova, série que ainda reserva uma temporada inédita, já gravada, como Darlene.

Contou que o amigo lhe prometera uma série centrada nela, no papel da mulher de um político que comete várias falcatruas.


Marília Pêra sabia alcançar a alma de todo personagem

A atriz Marília Pêra respondia com um belo sorriso quando ouvia falar de seu perfeccionismo. "Sou apenas dedicada", dizia, com um ar maroto, tentando minimizar o tremendo esforço que utilizava para compor qualquer papel, especialmente em musicais, gênero a que se dedicou com mais afinco nos últimos anos.

Estudiosa do canto lírico e também da tonalidade dedicada exclusivamente ao musical, o chamado belt, Marília, além do cuidado em seguir os registros das partituras, concentrava-se na memorização das letras. "Se o compositor pensou em determinada nota, por que justamente eu deveria mudá-la?", dizia ela, para justificar a fidelidade e o empenho.

Isso impressionava os colegas. Miguel Falabella, fiel companheiro de palco e televisão nos últimos anos, sempre ressaltou a forma com que a atriz se entregava a qualquer tipo de papel. "Marília nos obrigava a um empenho além do normal, ninguém conseguia vacilar, seja na nota, seja no passo coreográfico, ao perceber o empenho de Marília. Um dos poucos exemplos de uma atriz completa que ainda temos neste País", comentava.

Por conta disso, Marília conseguia também, com a simples mudança de detalhes, como figurino, criar personagens muito distintos. Em 2003, por exemplo, uma série de diferentes penteados identificava Marília. Com os cabelos curtos, ela subia ao palco para o espetáculo Marília Pêra Canta Ary Barroso, que voltava em cartaz em São Paulo. Com uma longa peruca cacheada, ela viveu também o personagem de Madame Clessy, na versão cinematográfica que Jofre Rodrigues prepara da peça Vestido de Noiva, escrita pelo pai, Nelson. E, nos raros momentos de folga, ela já se preparava para cortar as madeixas, em um penteado rente à nuca para assumir a mitológica figura de Coco Channel na peça Mademoiselle Chanel, escrita por Maria Adelaide Amaral sobre a mulher que, ao ditar novos rumos da moda feminina, também apontou uma conduta revolucionária para as mulheres. "São personagens muito fortes e maravilhosos, que exigem um grande trabalho de preparação e concentração", comentava.

Para viver Chanel, Marília recuperou sua intensa pesquisa, semelhante ao que fizera para viver outra diva, Maria Callas, no espetáculo Master Class. Na criação de Chanel, Marília fez diversas pesquisas – leu biografias e artigos, observou dezenas de fotos e acompanhou atentamente as poucas imagens em movimento que restaram da estilista. "Chanel era uma mulher misteriosa, pois oferecia várias faces", contava a atriz. "Apesar de sua fala agressiva, ela inventou um jeito delicado de andar." Marília preocupou-se com a coreografia do personagem, representando com elegância gestos comuns de Chanel como colocar uma das mãos no bolso (ou no cós da saia), enquanto a outra segura um cigarro. "Ela é uma atriz que alcança a alma do personagem", observava o diretor Jorge Takla, com quem Marília trabalhou em outras produções, como o musical Vitor ou Vitória? 

A pesquisa era uma atividade infinita, para ela. "O teatro é como um quadro eternamente inacabado, em que novos detalhes são acrescentados", justificava Marília, que contava ter um ritual: sempre chegava cedo ao teatro, fazia exercícios vocais e corporais e apenas depois de soar o primeiro toque é que vestia a roupa de seu personagem. "Tenho muito respeito pelo figurino", confessava. 

O profissionalismo se estendia para as produções em que Marília Pêra dirigia. Foram vários espetáculos, mas certamente o mais duradouro foi O Mistério de Irma Vap, que estreou em 1986, com Marco Nanini e Ney Latorraca, e que ficou 11 anos em cartaz, fato registrado no livro de recordes. Uma montagem "de quintal" – assim ela se recordava da primeira encenação, uma experiência ao mesmo tempo excitante como improvisada. "Utilizamos roupas de outras peças, perucas emprestadas, uns trocados aqui, outros ali… Foi assim: uma montagem 'jovem'." 

Havia uma alucinada troca de roupas – 56 ao todo, nenhuma ultrapassava os 30 segundos para não quebrar o ritmo. Também estavam lá as improvisações, as brincadeiras entre os atores, o jogo com a plateia. A veia cômica de Marília Pêra, uma das maiores comediantes da TV e do palco, revelou-se essencial para a conquista do bom resultado.

Outro momento curioso que mostrava o virtuosismo da atriz aconteceu no musical Gloriosa!, dirigida por Charles Möeller e Claudio Botelho e que estreou em 2008. Ali, ela interpretou Florence Foster Jenkings, soprano americana que se tornou famosa por sua completa falta de ritmo, tom e todas habilidades do canto. Em outras palavras, a pior cantora de ópera do mundo.

"Ela não conseguia acertar nenhuma nota, o que tornava seus concertos um verdadeiro show de humor", contava Marília. "Assim, seus concertos se tornaram concorridíssimos e as pessoas gargalhavam durante as apresentações." Afinadíssima, Marília era obrigada a descobrir primeiro como era cantar certo, para depois desaprender a cantar. "Espero também ser vaiada", brincava ela, o que, de fato, jamais aconteceu.

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