Reestruturação da JBS preocupa investidores

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As investigações levantam temores sobre alterações no cronograma da reestruturação societária e a consequente abertura de capital da JBS Foods International na Bolsa de Nova York (Nyse)

Um possível atraso na reestruturação societária da JBS e a percepção de obstáculos no refinanciamento da dívida da empresa são as principais preocupações do mercado em relação à JBS, após a operação Greenfield, que investiga "gestão temerária e fraudulenta" nos fundos de pensão estatais brasileiros. Apesar de não envolver a processadora de carnes diretamente, a investigação tem como alvo a Eldorado Celulose, empresa controlada pela mesma holding, a J&F.

Após a ação da companhia cair mais de 10% no pregão de segunda-feira (5) e 1,7% na terça (6) bancos rebaixaram a recomendação da JBS e alertaram sobre os possíveis riscos que a envolvem. Conforme apurou ontem o Broadcast, sistema de informação em tempo real do Grupo Estado, as investigações levantam temores sobre alterações no cronograma da reestruturação societária e a consequente abertura de capital da JBS Foods International na Bolsa de Nova York (Nyse). Esta mudança foi anunciada em maio, logo após a saída de Henrique Meirelles da presidência do conselho consultivo da J&F, para assumir o Ministério da Fazenda no mesmo mês, e foi responsável por sustentar ganhos dos papéis.

Atraso na reestruturação. Relatório do Bradesco BBI, assinado pelo analista Gabriel Lima, afirma que há a possibilidade de atraso do processo de reorganização da empresa. A expectativa é de que o novo desenho fosse concluído até o quarto trimestre deste ano, com objetivo de melhorar a governança corporativa. "Admitimos que esta é uma bandeira vermelha para muitos investidores, mas achamos que o risco/recompensa é favorável". O analista cita que a reorganização permitirá uma redução dos custos financeiros e estima que a taxa de desconto aplicada aos fluxos de caixa JBS poderia cair significativamente.

Também em relatório, o Itaú BBA afirma que o desenrolar do caso pode alterar o cronograma da mudança societária. "Acreditamos que a reestruturação é um importante gatilho para a performance das ações", diz.

A listagem da JBS Foods International foi o que sustentou os ganhos das ações recentemente, de acordo com o BTG Pactual. "Tememos, portanto, que este processo de listagem poderá sofrer atrasos se uma revisão geral de gerenciamento se revele necessária", diz relatório.

Além da reestruturação, analistas citam a questão do endividamento da empresa. O Bradesco BBI afirma, em relatório, que a ação da Polícia Federal implica em uma percepção de aumento de risco do refinanciamento da dívida da companhia detida por bancos comerciais – R$ 18 bilhões de dívida de curto prazo a ser reconduzida para os próximos 12 meses.

A JBS encerrou o segundo trimestre com uma dívida líquida de R$ 49,2 bilhões. A alavancagem ficou em 4,1 vezes ao final de junho acima dos 3,84 vezes no primeiro trimestre. A porcentagem da dívida de curto prazo em relação à dívida total ficou em 32% no período, dos quais 82% são linhas lastreadas às exportações das unidades brasileiras. Ao final do período, 91,4% da dívida era denominada em dólares. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.


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A maior empresa de carnes do mundo, com faturamento de R$ 120 bilhões, perdeu na segunda-feira, 5, seu comando. Wesley Batista presidente da JBS, empresa dona da marca Friboi, foi proibido pela Justiça de administrar a empresa. A decisão ainda afeta a holding do grupo: também não pode exercer as suas funções Joesley Batista, presidente da J&F, controladora da JBS e outras oito empresas da família Batista. 

A decisão foi tomada pelo juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10.ª Vara Federal de Brasília, no âmbito da Operação Greenfield, que investiga crimes em fundos de pensão e foi deflagrada na segunda-feira pela Polícia Federal. A reação dos mercados foi imediata. No fim do dia, as ações da JBS fecharam com uma queda de 10% na Bolsa de Valores.

O foco da investigação não é o JBS, mas os investimentos dos fundos de pensão em outra empresa do grupo, a Eldorado Celulose. No entanto, Wesley Batista foi levado coercitivamente para prestar depoimento, fazendo com que houvesse uma espécie de "contágio" sobre a JBS a partir de suspeitas que pairam sobre a Eldorado. 

Propina 
Não é a primeira vez que a Eldorado é alvo de investigação. Em julho, sofreu busca e apreensão na Operação Sépsis, que revelou pagamentos de propinas para financiamento com o FI-FGTS. Há outro agravante: Joesley, da J&F, também tem um mandado de condução coercitiva em seu nome, mas não compareceu porque está no exterior.

A operação levou em consideração um investimento de R$ 550 milhões na Eldorado, em 2009, feito por dois fundos de pensão: Funcef, dos funcionários da Caixa Econômica Federal, e Petros, da Petrobrás. As suspeitas são de que os fundos de pensão faziam investimentos sobrevalorizados, algo parecido com superfaturamento de obras públicas, segundo o juiz.

Fontes ligadas a fundos de pensão disseram que os investimentos eram feitos com valores acima do que de fato valia a companhia. A diferença seria desviada para financiamento de campanhas políticas. 

Essas mesmas fontes afirmaram que, nos últimos anos, havia uma pressão muito forte em cima dos fundos de pensão para aumentar a participação na Eldorado. A empresa investiu R$ 6 bilhões em uma fábrica em Mato Grosso do Sul, mas seu planejamento prevê a construção de uma segunda planta, para otimizar os custos e a rentabilidade.

Gestão familiar 
Além das suspeitas levantadas pela operação sobre o grupo, a reação do mercado leva em conta outra questão: a JBS é uma dessas raras empresas de capital aberto e global ainda sob gestão familiar.

Apesar de sempre se cercarem de executivos, quem manda é a família Batista. É assim desde 1953, quando o atual conglomerado não passava de um açougue, em Anápolis, cidade no interior de Goiás. O fundador José Batista Sobrinho colocou os seis filhos no negócio. As três filhas ocuparam cargos gerenciais até bem pouco tempo. Mas o comando foi por anos compartilhado pelos três filhos homens, Joesley, Wesley e José Batista Júnior, o primogênito, que deixou o grupo em 2013. Os símbolos dessa gestão familiar foram as salas de diretoria, tanto da JBS quanto da holding J&F, decoradas com quatro mesas, mesmo que não ocupadas. 

Segundo o jornal O Estado de S. Paulo apurou, a empresa passou o dia de na segunda-feira tentando reverter a decisão da Justiça para que Wesley permaneça no comando da empresa. No entanto, já teria feito uma seleção prévia entre eventuais executivos que poderiam ser escalados para o lugar dos cargos ocupados pelos Batista: Gilberto Tomazoni para cuidar da JBS no Brasil e André Nogueira, no exterior.

Por meio de sua assessoria de imprensa, a empresa disse que não iria comentar o caso. Em nota, a companhia ressaltou que tem 150 mil colaboradores e 50 mil fornecedores no Brasil e que "reitera que sempre esteve à disposição das autoridades e que sua relação com os fundos de pensão sempre se pautou pela ética e pela impessoalidade". As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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