Poupança perde da inflação pela primeira vez em 13 anos

Foto ilustrativa/Reprodução

Em 2015 poupadores perderam poder de compra, já que a rentabilidade da caderneta foi de 8,07%, enquanto a inflação, medida pelo IPCA, ficou em 10,67%

Quem investiu na caderneta de poupança em 2015 perdeu poder de compra, já que a rentabilidade da caderneta foi de 8,07%, enquanto a inflação, medida pelo IPCA, ficou em 10,67%. É a primeira vez que a poupança perde da inflação desde 2002 e o segundo pior desempenho desde o início do Plano Real.

Esse cenário de baixa rentabilidade, aliado ao aumento do desemprego e à queda da renda, fez com que o volume de saques da poupança superasse o de aplicações em R$ 53,568 bilhões em 2015, a maior saída líquida de recursos em 20 anos. Com isso, o patrimônio da aplicação caiu pela primeira vez na história. 

O administrador de investimentos Fabio Colombo aponta que o rendimento da poupança só superou o da Bolsa de Valores, que registrou queda de 13,31% em 2015. Com a taxa básica de juros (Selic) atualmente em 14,25%, o mercado de renda fixa ficou mais atrativo. 

A remuneração da caderneta, por sua vez, é formada por uma taxa fixa de 0,5% ao mês mais a Taxa Referencial (TR) – esse cálculo vale para quando a Selic está acima de 8,5% ao ano. 

Já a rentabilidade de fundos de renda fixa ficou em 13,49% em 2015, enquanto títulos do governo indexados ao IPCA renderam 17 66%. Mesmo com a incidência do Imposto de Renda, o investimento nessas modalidades é muito mais vantajoso do que na poupança.

“O resultado da poupança no ano tem basicamente duas explicações e uma delas é que os investidores maiores – que não são muitos – estão saindo da caderneta para investir em outros produtos”, diz Colombo. A outra explicação, segundo ele, é a situação econômica do País, com a piora do mercado de trabalho e a alta dos preços obrigando muitos brasileiros a usar o dinheiro investido para honrar compromissos do dia a dia.

De acordo com o Banco Central, a poupança tem 137,4 milhões de clientes. Como base de comparação, o número de investidores cadastrados no Tesouro Direto atingiu 604,3 mil no ano passado, quando superou, pela primeira vez, a quantidade de investidores na Bolsa.


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Para analistas, inflação reflete sequência de erros

A inflação de dois dígitos é uma herança do primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff e tem como origem a política de controle de preços administrados – como por exemplo, os de energia elétrica e do combustível. Em 2015, a correção desses preços como parte do ajuste proposto pela equipe econômica contribuiu para a forte alta do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). No ano passado, o preço da energia elétrica avançou 51%, e o da gasolina aumentou 20,10%.

“Foi uma sequência de erros que culminou no quadro atual”, diz Zeina Latif, economista-chefe da XP Investimentos. “Houve uma correção forte num País que já está com uma inflação elevada”, afirma Zeina. Desde 2010, o IPCA sempre ficou próximo ao teto meta (6,5%). 

Segundo analistas, o resultado da inflação também pode ser explicado pela ineficiência da política monetária. O Comitê de Política Econômica, do Banco Central, promoveu uma série de aumentos da taxa básica de juros para trazer a inflação para baixo. Somente no ano passado a Selic subiu de 11,75% ao ano para 14,25% ao ano.

A expectativa do controle inflacionário por meio da política monetária foi frustrada pela piora das contas públicas. “A equipe econômica não conseguiu reverter a política fiscal e criar uma superávit primário”, afirma Juan Jensen, sócio da 4E Consultoria. “O governo teve de pagar vários dos gastos efetuados em anos anteriores, mas que não foram devidamente contabilizados”, diz.

A piora fiscal foi decisiva para que a economia brasileira perdesse o grau de investimento, o que levou a uma depreciação do câmbio e, consequentemente, a uma pressão inflacionária adicional e de piora das expectativas – em 2015, o dólar subiu 48,93% em relação ao real.

“O ano passado era para ser do ajuste, mas a economia brasileira deixou escapar o grau de investimento. Fica muito difícil”, afirma Zeina.

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