País deve perder grau de investimento de todas as agências

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Fernando Honorato: "Se o equacionamento de forças políticas melhorar contas públicas, há espaço para melhora de ativos, mas, sem ajuste fiscal encaminhado, teremos preços bastante piores, com câmbio de R$ 4,80 a R$ 4,90"

O economista chefe da Bradesco Asset Management (Bram), Fernando Honorato Barbosa, afirmou nesta quinta-feira, 10, em conferência de projeções para 2016, que "com alta probabilidade perderemos o grau de investimento por todas as agências de investimento". Para ele, o cenário brasileiro para o início do próximo ano dependerá "do equacionamento do déficit público", independente de quem estiver no governo.

"Se o equacionamento de forças políticas melhorar contas públicas, há espaço para melhora de ativos, mas, sem ajuste fiscal encaminhado, teremos preços bastante piores, com câmbio de R$ 4,80 a R$ 4,90", disse. "Esse quadro fiscal terá de ser enfrentado por quem quer que esteja no País nos próximos anos", completou ele sobre a crise política e a abertura do processo de impeachment que pode afastar a presidente Dilma Rousseff.

Honorato avalia que o déficit fiscal será de R$ 120 bilhões este ano e que o Brasil deve fechar com R$ 55 bilhões de déficit em 2016. "A dívida bruta (dívida local mais externa) sai de 51% do PIB em 2011 para 77% do PIB em 2017, e nem somos tão pessimistas", comentou.

Inflação
Honorato afirmou, ainda, que ninguém recomenda alta de juros em País cuja demanda doméstica cai 6%, mas que o comportamento da inflação no Brasil fará com que o Banco Central (BC) ainda reaja com novas altas na taxa básica de juros em 2016. "É pouco razoável esperar alta forte de juros, mas o BC não vai ficar sentado esperando quando vê uma inflação se deteriorando e vai subir juros entre 150 e 200 pontos no próximo ano", disse ele em conferência do banco de investimentos.

Barbosa avaliou que o pico do desemprego no País deve ocorrer no segundo trimestre de 2016, para uma taxa entre 10% e 11% por conta do ajuste das empresas, o que pressionará a inadimplência. O economista, no entanto, avalia que a balança comercial tem reagido bem à desvalorização do real, com alta este ano e que o ajuste do setor externo será a grande força da economia – ainda que não seja sozinho responsável pela recuperação do País.

"O Brasil está ficando barato em salários em dólar e a ociosidade da indústria, apesar de ser ruim no curto prazo, será positiva no futuro porque o setor terá capacidade de reagir", completou.

Entre os indicadores, a Bram projetou queda de 3% no Produto Interno Bruto (PIB), com cenário de recuperação no segundo semestre de 2016. O câmbio deve encerrar o próximo ano em R$ 4 40, "com o viés de ser mais baixo", a taxa básica de juros ficará em 16,25% e o IPCA em 7% ao final de 2016.

Indagado se o processo de impeachment ainda poderia influenciar a economia em 2016, Barbosa repetiu "que quem sair do processo (de impeachment), sairá fortalecido" e emendou: "quanto antes o tema for resolvido, melhor".


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Eventual rebaixamento exigirá medidas do governo

O economista chefe da Bradesco Asset Management (Bram), Fernando Honorato Barbosa, afirmou nesta quinta-feira, 10, que a decisão da Moody's em sinalizar a perda do grau de investimento do Brasil mostra que o downgrade do País pela agência de classificação de risco, e ainda pela Fitch Ratings, ocorrerá no curto prazo. Mas na avaliação de Barbosa, "o Brasil já está precificado a até duas notas abaixo do grau de investimento" e possíveis decisões não devem influenciar em indicadores, como o câmbio.

No entanto, segundo Barbosa, o governo terá que reagir com várias medidas, principalmente fiscais e orçamentárias ao rebaixamento. "Se o downgrade for seguido por hesitação e parada do governo, o caminho estará aberto à piora, principalmente do câmbio", completou ele em conferência sobre as perspectivas para a economia em 2016.

Barbosa avaliou que o cenário interno balizará 90% da economia brasileira ao menos no primeiro semestre de 2016. Para ele, o cenário internacional nesse prazo é mais tranquilo e será marcado por uma alta gradual nos juros norte-americanos, iniciada na reunião da próxima semana do Banco Central dos Estados Unidos (FED), pelo possível fim da queda nos preços das commodities e ainda pelo pouso suave da economia chinesa.

"A impressão é que mercados vão reagir de maneira serena (à alta dos juros nos Estados Unidos), porque farão de forma bem suave e gradual. Já as commodities têm caído muito, o que é ruim para emergentes, mas a impressão é que a baixa está perto do fim", disse. "A China ainda tem uma porção de incertezas sobre crescimento, mas o governo local se mobiliza para fazer um pouso suave", concluiu Barbosa.


Governo dá como certo novo rebaixamento

O anúncio da agência internacional de classificação de risco Moody’s de colocar a nota do Brasil em revisão na direção da perda do grau de investimento é mais um golpe na economia provocado pela crise política que alimenta a recessão. É simbólico que o aviso tenha sido feito poucos dias depois da abertura do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff.

A revisão indica que a agência vai ficar de olho e decidir em pouco tempo se põe o Brasil no grupo de países com nota de grau especulativo. Se isso ocorrer, será a segunda agência de rating a retirar o grau de investimento do Brasil, o selo de bom pagador que sinaliza aos investidores estrangeiros que o País é seguro para investimentos.

O fato é que desde a visita de representantes da agência ao Brasil, em julho, houve piora na frente política e econômica. O governo espera uma nova decisão da agência em dois meses. 

A perda do grau de investimento, contudo, é dada como praticamente certa no Executivo. "Demorou demais", resumiu um integrante da área econômica sem antes lamentar que o movimento para o rebaixamento tenha se acelerado.

É difícil encontrar no governo quem arrisque uma avaliação de que será possível reverter essa ameaça, porque não há perspectiva de melhora do cenário brasileiro no curto prazo.

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