Com juro recorde, dívida dos brasileiros no rotativo do cartão de crédito dispara

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Um levantamento da CNC mostra que, em janeiro, o cartão de crédito foi apontado como a principal dívida por 78,6% das famílias, o maior porcentual desde o início da pesquisa, em 2010

A dívida dos brasileiros no rotativo do cartão de crédito engordou em 2015. O saldo dessa modalidade – isto é, a soma de todo os valores devidos – cresceu 21,2% no ano passado e atingiu R$ 34,5 bilhões, segundo o Banco Central (BC). O ritmo de crescimento é praticamente o dobro do verificado em 2014, quando avançou 11,4%. De acordo com o BC, o aumento pode ser explicado pela intensificação do uso do rotativo e a incorporação de juros – que atingiram o patamar recorde de 431,4% ao ano.

O gatilho do rotativo ocorre quando o consumidor não paga o valor integral da fatura. Se quitar alguma quantia entre o pagamento mínimo exigido e o total, o consumidor não é considerado inadimplente, mas fica sujeito a uma taxa altíssima de juros. 

O valor que restou é computado como um crédito novo – ou concessão, pela nomenclatura do BC. Neste detalhe, outro dado desperta atenção: a concessão do rotativo está crescendo a um ritmo bem menor, de 1,6%.

Os dados não permitem quantificar o número de pessoas inadimplentes no cartão. Mas o descolamento entre o aumento da dívida (saldo) e a concessão indica que o juro recorde está criando um contingente de superendividados no Brasil.

"Se o consumidor carregar a dívida do rotativo por muito tempo, e não trocá-la por outra mais barata, acaba ficando com um débito impossível de se pagar", afirma Marianne Hanson, economista da Confederação Nacional do Comércio (CNC). Não por acaso, a inadimplência do rotativo é a maior entre todas as linhas de crédito disponíveis no País: 40,3%.

"A falta de conhecimento de outras opções acaba fazendo com que a pessoa opte pelo refinanciamento do rotativo", diz Eduardo Tambellini, sócio da consultoria GoOn, especializada na gestão de risco de crédito. 

Para escapar dessa espiral de juros, o consumidor pode procurar, no próprio banco, linhas de crédito mais baratas. O consignado, que desconta o valor das parcelas diretamente na folha de pagamento, cobra 28,8% ao ano pelo dinheiro emprestado, por exemplo.

Um levantamento da CNC mostra que, em janeiro, o cartão de crédito foi apontado como a principal dívida por 78,6% das famílias, o maior porcentual desde o início da pesquisa, em 2010. "Essa percepção dos consumidores se deve à preocupação com os juros", afirma Marianne.

Meio de pagamento
A economista da CNC lembra que a popularização do cartão de crédito tornou o instrumento um meio de pagamento e de bancarização, principalmente entre a camada mais pobre da população. "Observamos nos últimos anos uma redução da participação de outros meios, como os carnês e o cheque pré-datado."

Entre aqueles que recebem até 10 salários mínimos, o cartão é apontado como principal dívida por 80%, enquanto na camada superior, com renda de mais de 10 salários mínimos, o porcentual cai para 72,2%.

Marianne lembra, contudo, que os consumidores que escolhem essa alternativa para contas do dia a dia são potenciais tomadores de crédito no rotativo em momentos como o atual, de aumento de inflação, queda de rendimento e disparada do desemprego.

"Os saldos do cartão de crédito à vista, em que não há incidência de juros, e os do parcelado ainda são maiores do que o rotativo", afirma Marianne.

Os especialistas lembram que os consumidores devem evitar a aparente facilidade do rotativo. "As faturas destacam a possibilidade do pagamento mínimo, em geral 15% a 20% do total, sem explicações para o consumidor sobre as implicações dessa escolha", afirma Hessia Costilla, economista da associação da consumidores Proteste.

Campanha
O forte aumento dos juros motivou a Proteste a encampar uma iniciativa para reduzir as taxas cobradas pelos bancos. Em dezembro, a entidade enviou um ofício ao BC sugerindo um teto para o juro do rotativo. Pela proposta, os bancos poderiam cobrar, no máximo, o dobro da taxa do Certificado de Depósitos Interfinanceiros (CDI).

"Um mercado de livre concorrência funciona melhor do que um em que as taxas são reguladas. Mas, em situações emergenciais como esta, limitar o juro do rotativo pode ser uma solução", diz Hessia. Ela cita exemplos internacionais, como o de Portugal, que adotou medida semelhante e obteve sucesso na redução dos juros.


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O número de consumidores brasileiros com contas atrasadas registrou um crescimento nas regiões Centro-Oeste, Nordeste, Norte e Sul em janeiro e as contas básicas, como água e luz, são o destaque, segundo o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL). Os especialistas responsáveis pelo levantamento estimam que com a crise econômica e a alta do desemprego, a inadimplência seguirá avançando em 2016, mesmo com o aumento da seletividade na concessão do crédito. 

Das quatro regiões pesquisadas pelo SPC Brasil, a Nordeste foi a que registrou avanço mais expressivo no total de consumidores com contas em atraso na comparação com janeiro de 2015, com alta de 6,86%, seguido por Sul (4,77%), Centro-Oeste (4,59%) e Norte (3,71%). Em relação a dezembro do ano passado, todas as regiões mostraram aceleração, com elevações de 0,93% no Sul, 0,92% no Norte, 0,59% no Nordeste e 0,26% no Centro-Oeste. Segundo o SPC, o aumento do ritmo de crescimento do número de inadimplentes em janeiro é decorrente de fatores sazonais.

Na abertura por segmentos econômicos, a inadimplência nas contas de água e luz foi mais alta em duas das quatro regiões estudadas com aumentos de 17,01% no Sul e de 13,30% no Centro-Oeste em janeiro de 2016 ante igual mês de 2015. "Esse fato demonstra que o aperto financeiro já impactou a capacidade de pagamento até mesmo das contas do dia a dia", avalia a economista-chefe do SPC Brasil, Marcela Kawauti. Já nas demais regiões, o aumento mais intenso se deu nas contas de telefone, TV por assinatura e internet, com avanços de 12,39% no Nordeste e 9,89% no Norte, segundo a instituição.

A projeção do SPC Brasil é que 2016 registre aumento da inadimplência. Além da piora das condições macroeconômicas e da elevação da taxa de desemprego, outros fatores também devem pesar para o atraso nas contas. "A aceleração da inflação tem feito com que o planejamento financeiro dos consumidores fique prejudicado, já que há perda constante do poder de compra. Além disso, a escalada nas taxas de juros encarece as parcelas das compras realizadas a prazo e dos financiamentos, dificultando assim o pagamento em dia dos compromissos financeiros", afirma Marcela.

Região Sudeste
O levantamento não analisa dados da região Sudeste, devido aos efeitos da Lei Estadual 16.569/2015, que muda o processo de negativação de inadimplentes no Estado de São Paulo.

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