Para Belluzzo, Barbosa deve dialogar com setor privado

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Luiz Gonzaga Belluzzo: “Barbosa é um ótimo economista. Será uma transição no posto o mais suave que se poderia esperar”

O novo ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, deverá atuar para gerar a coordenação das políticas fiscal e monetária e dialogar com o setor privado e trabalhadores a fim de retomar o investimento autônomo e o consumo na economia disse o ex-secretário de Política Econômica, Luiz Gonzaga Belluzzo.

“A economia capitalista não cresce sem a expansão dos rendimentos dos assalariados e dos lucros das empresas. É preciso estimular o crescimento. Todo mundo está esperando isso” disse. Ele aposta que o principal canal para que isso ocorra é a decolagem das concessões públicas em infraestrutura em 2016.

Para Belluzzo, “Barbosa é um ótimo economista. Será uma transição no posto o mais suave que se poderia esperar. O Nelson tem bom senso e tentará corrigir os desequilíbrios da economia, causados especialmente pelo choque de juros para combater uma inflação causada por um reajuste brutal de preços administrados.”

Belluzzo afirma que o novo ministro saberá atuar para tirar a atividade da recessão, “da melhor forma possível”.

O economista afirma que o melhor caminho para o País retomar a expansão do PIB é preciso negociar e conversar com o setor privado e com os trabalhadores. “Ouvir as demandas. Tem que estimular o investimento autônomo, especialmente com as concessões públicas em infraestrutura, uma tese que é muito defendida por diversos economistas conceituados pelo mundo, inclusive Oliver Blanchard. É preciso fortalecer o circuito renda-emprego.”

Belluzzo descarta a liberação de crédito por bancos públicos: “Na atual conjuntura, essa posição, que é inclusive defendida pelo ex-presidente Lula não funcionaria. As pessoas estão com medo de perder o emprego e portanto não assumirão mais financiamentos.”


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Barbosa ‘Afinará discurso interno’, afirma Trabuco

O presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco Cappi, afirmou, em nota, que o novo ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, vai conseguir afinar o discurso interno do governo, unificar as ações e, com isso, dar segurança ao mercado. Foi importante, de acordo com Trabuco, definir a nova equipe econômica antes do Natal para que 2016 comece com uma “linha de conduta” e “ânimos renovados”.

Com a saída de Joaquim Levy do Ministério da Fazenda, Barbosa assumiu a pasta e foi substituído por Valdir Simão, que ocupava o cargo de ministro-chefe da Controladoria-Geral da União (CGU). Antes de Levy ser escolhido, no fim do ano passado, circularam informações de que Trabuco foi convidado para assumir a Fazenda, mas recusou o convite da presidente Dilma Rousseff, alegando compromissos junto ao Bradesco. Em seu lugar, sugeriu justamente o nome de Levy.

“Ele (Nelson Barbosa) tem sintonia com a presidente Dilma, tem sua confiança, e vai conseguir afinar o discurso interno, unificar as ações, dando segurança ao mercado”, destacou Trabuco em comunicado enviado ao Broadcast, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado.

De acordo com o executivo do Bradesco, Barbosa tem visões diferentes das do ex-ministro Joaquim Levy. Isso não significa, na sua visão, que as questões fundamentais deixarão de ser prioritárias, dada a dimensão dos desafios que o Brasil tem pela frente. “Entendo que Barbosa será pragmático e vai olhar o Brasil como grande brasileiro que é”, afirmou o presidente do Bradesco. “Desejo muito boa sorte ao novo ministro”, acrescentou.

Oposição acusa Barbosa de pedaladas

Num sinal de que não haverá trégua em relação ao ministro da Fazenda, diferentemente do que ocorria no caso de Joaquim Levy, lideranças de oposição criticaram ontem a escolha do titular do Planejamento, Nelson Barbosa, para o cargo. O líder do DEM no Senado, Ronaldo Caiado (GO), acusou Barbosa de ser o mentor das “pedaladas fiscais”.

Os oposicionistas sustentam que ele pode aprofundar ainda mais a crise em razão da desconfiança em relação ao seu nome, mas destacaram que o problema está com a presidente Dilma Rousseff, a condutora da política econômica. Para os oposicionistas, a mudança na equipe econômica tem potencial de aumentar o desemprego, a queda nos investimentos e a perspectiva negativa sobre o futuro.

“Na época, ele (Barbosa) estava na Secretaria de Política Econômica e era secretário executivo do Ministério da Fazenda. Assinou portarias que autorizaram as pedaladas no BNDES”, disse Caiado, ao citar o fato de o ministro estar arrolado em um processo no Tribunal de Contas da União (TCU). “O temor agora é em relação às ilusões e mágicas que ele irá desenvolver, a exemplo das pedaladas, o que pode aprofundar ainda mais a crise” disse Caiado.

Rebaixamento
Ele lembrou também que a saída de Levy acontece dias após o rebaixamento do País pela agência de classificação de risco Fitch. “A saída de Levy demonstra o fracasso da tentativa do governo de ludibriar o mercado colocando um nome de respeito como fachada da política econômica, quando, na realidade, não estava interessado em mudar nada. Usaram o Levy como forma de tirar a atenção. Todos os equívocos na máquina pública que trouxeram o País a esta crise permanecem”, afirmou.

O líder do PSDB na Câmara, Carlos Sampaio (SP), disse que a escolha de Barbosa pode aprofundar a recessão com todos os efeitos desemprego, queda nos investimentos e incertezas sobre o futuro. “É uma indicação ruim, de que a presidente Dilma continuará interferindo na política econômica e reforça também a manutenção do modelo que mergulhou o país nesta crise sem precedentes”, criticou Sampaio, ao destacar que Barbosa responde pelas pedaladas comprovadas pelo TCU e que seriam base para o impeachment de Dilma Rousseff.

Para o tucano, a ida de Barbosa para a Fazenda revela também que a presidente não tem "peças de reposição", já que ninguém quer fazer parte de um governo que está com os dias contados com a presidente prestes a sofrer um impeachment.

O líder do PSDB do Senado, Cássio Cunha Lima (PB), disse que não adianta trocar “Joaquim por José nem por Antônio muito menos por Nelson”. “O problema não está no nome de quem vai ocupar o ministério, mas na política econômica equivocada patrocinada pelo desgoverno da presidente Dilma.”

Barbosa luta contra fama de ser antiajuste

Para o economista Nelson Barbosa, o ministério dos sonhos só chegou um ano e 21 dias depois da pomposa cerimônia no Palácio do Planalto, que marcou o anúncio da nova equipe econômica para o segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, após a vitória nas eleições do ano passado.

Nenhum dos prognósticos otimistas alardeados naquele momento histórico, em 27 de novembro de 2014, se confirmou – pelo contrário, a economia afundou numa recessão. Exceto as previsões de que o fiscalista Joaquim Levy não passaria mais de um ano no comando da Fazenda e seria substituído, mais cedo ou mais tarde, pelo desenvolvimentista Barbosa, o escolhido para comandar o Ministério do Planejamento. Um cargo que não era o mais desejado por ele, presença recorrente nas listas de apostas de candidatos para a Fazenda.

Considerado um economista “brilhante” por seus auxiliares mais próximos, que o acompanham há anos, Barbosa retorna agora ao prédio do Ministério da Fazenda, onde já foi o número dois na gestão de Guido Mantega. Tem pela frente a tarefa de buscar uma “luz no fim do túnel” para a retomada do crescimento. A frase que melhor resume o seu pensamento é de que sem crescimento não há como garantir o equilíbrio sustentável das contas públicas. Primeiro é preciso crescer.

Antiajuste
Na cadeira de Levy, ele precisará, no entanto, afastar a desconfiança do mercado financeiro e a pecha que ganhou de ministro do “antiajuste” das contas públicas. A fama de gastador foi alimentanda ao longo do ano por sua defesa, vitoriosa com a presidente, de enviar ao Congresso Nacional um orçamento com déficit primário e de redução da meta fiscal. Medida em defesa do “realismo fiscal”, que custou a perda do grau de investimento do Brasil pela agência de classificação de risco e piora na confiança dos investidores.

Assessores refutam essa imagem e alegam que ele fez o maior ajuste fiscal em 2015 desde que a Lei de Responsabilidade Fiscal foi criada. Um corte de R$ 134 bilhões, o equivalente a 2,31% do Produto Interno Bruto (PIB) este ano. “Barbosa não é antiajuste. Ele tem planejado um ajuste no mesmo montante para 2016. O mercado está tentando desconstruir ele ao dizer isso”, reclama um dos seus auxiliares próximos.

A ideia de que foi o construtor da nova matriz econômica – política adotada pela presidente no primeiro mandato e apontada como responsável pela crise econômica atual – também é contestada. Teria sido obra de Márcio Holland, ex-secretário do time de Guido Mantega.

Fla-Flu
Sem a polarização com Levy, que fez da Esplanada dos Ministérios ao longo do ano um verdadeiro “Fla-Flu” entre os ministros da equipe econômica, Barbosa deve conseguir agora implementar, mesmo que não de imediato, um sistema de “bandas” para as metas fiscais para garantir maior flexibilidade da gestão da política fiscal em momentos de choque econômico, como o de hoje.

O risco de que ele faça uma “guinada” na política econômica é hoje a maior preocupação dos investidores. Não se deve esperar, no entanto, uma reviravolta ou giro de 360 graus. Embora em campos muitas vezes opostos, a estratégia de Levy e Barbosa para o ajuste da economia traçado no segundo mandato não era lá muito diferente.

As divergências foram muito mais em torno da velocidade do ajuste e do processo de cortes de gastos do governo. Mas foram se alargando, nos últimos meses, com a disputa pelo poder na gestão da política fiscal e de medidas econômicas.

Os dois concordam que era preciso cortar gastos obrigatórios e uma reforma estrutural nas despesas do governo, principalmente com uma Reforma da Previdência. A diferença entre Levy e Barbosa estava na velocidade e no ritmo que esse processo de mudança deve ser encaminhado para não prejudicar os investimentos.

A falta de unidade, entrosamento e desconfiança mútua, no entanto, aliado ao temperamento forte e teimoso dos dois, acabou os distanciando ainda mais, com prejuízos para a condução da política econômica. Depois do fim da divisão de comando, com Barbosa na Fazenda, a principal missão agora é garantir a CPMF e os recursos necessários para dar fôlego no curto prazo às contas do governo. Sem dinheiro no caixa, seu espaço de atuação será menor.

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