Montadoras já somam 840 dias parados

Foto ilustrativa

Mesmo com todas as paralisações, os estoques seguiram elevados. Durante o ano inteiro os pátios de fábricas e revendas mantiveram carros e caminhões. As perspectivas para 2016 não são animadoras, em razão das previsões de uma economia ainda fraca

Ao longo de 2015, as montadoras tiveram a produção paralisada pelo equivalente a mais dois anos, na soma de dias em que cada fábrica de 15 marcas suspendeu as atividades em razão da fraca demanda por veículos novos. A conta total chega a 840 dias de paradas por férias coletivas, folgas e banco de horas (a ser compensado futuramente).

O número não inclui dispensas parciais de pessoal, redução de atividades com medidas como lay-off (suspensão de contratos de trabalho) e as férias de fim de ano, que ainda estão sendo definidas e em muitas empresas serão mais longas do que em 2014. Nas fabricantes de caminhões Scania e Volvo, por exemplo, terão duas semanas mais que no ano anterior.

Os dados das paralisações foram obtidos com montadoras e sindicatos de metalúrgicos. Apenas quatro fabricantes, BMW, Hyundai, Honda e Toyota não adotaram medidas de corte de produção durante o ano. Nas demais, o período de paradas é variado. No caso da Mercedes-Benz, só a fábrica de caminhões em São Bernardo do Campo (SP) contabiliza o equivalente a quatro meses de produção interrompida.

As quatro principais montadoras de automóveis, que têm maior número de fábricas e grande atuação no segmento de carros compactos – o mais afetado pela crise -, suspenderam a produção mais vezes que as demais. Na Ford, foram quase cinco meses nas unidades de automóveis e de caminhões no ABC paulista. A General Motors parou as linhas de montagem por 4,5 meses na soma das plantas de São Caetano do Sul, São José dos Campos (SP) e Gravataí (RS).

Em São Bernardo, Taubaté (SP) e São José dos Pinhais (PR), as fábricas da Volkswagen pararam por cerca de quatro meses. Já na Fiat, em Betim (MG), a produção foi suspensa por 1,5 mês.

Mesmo com todas as paralisações, os estoques seguiram elevados. Durante o ano inteiro os pátios de fábricas e revendas mantiveram carros e caminhões suficientes para cerca de 50 dias de vendas, quando o normal são 30 dias. O setor opera com metade de sua capacidade produtiva e a produção esperada para 2015, de 2,4 milhões de unidades, voltará aos níveis de nove anos atrás.

Cenário 
As perspectivas para 2016 não são animadoras, em razão das previsões de uma economia ainda fraca. A expectativa do economista da Tendências Consultoria Rodrigo Baggi é de uma nova queda de 3,5% na produção de veículos no próximo ano, depois de um recuo acima de 20% esperado para este ano.“O próximo ano continuará bastante difícil para a atividade automotiva e a trajetória para os empregos também seguirá ruim”, avalia.

A Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) projeta nova queda de 5% nas vendas totais no próximo ano. “A falta de confiança do consumidor está gritante”, diz o presidente da entidade, Alarico Assumpção. Ele teme que questões políticas continuem deteriorando o já baixo desempenho econômico, como ocorre atualmente.

“O quadro nesse momento é absolutamente incerto para projeções de 2016 em razão da crise política que tem contaminado bastante a economia brasileira”, diz o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Luiz Moan. “Enquanto não tiver o ajuste fiscal, dificilmente haverá um nível de confiança que leve os consumidores de novo às compras.”

Na opinião de Baggi, uma melhora no mercado só deverá ocorrer a partir de 2017, mas por efeito de comparação com os três anos anteriores e não por recuperação efetiva do mercado. Um crescimento mais sustentável, ainda que lento, só virá em 2018 e 2019.

Receita das empresas caiu pela metade em dois anos

A receita das quatro maiores montadoras na América do Sul, que tem o Brasil como maior produtor de carros, encolheu quase 50% em dois anos. Passou de US$ 32 bilhões no primeiro semestre de 2013 para US$ 17 bilhões em igual período deste ano. O lucro de US$ 651 milhões registrado há dois anos se reverteu em prejuízo de US$ 892 milhões entre janeiro e junho. Se for levado em conta os resultados até setembro, a perda é ainda maior.

Segundo dados obtidos pelo jornal "O Estado de S. Paulo", Fiat, Ford, General Motors e Volkswagen tiveram suas receitas individuais reduzidas na região. A maior perda, de 49%, foi da Volkswagen, cujo montante caiu de US$ 11,8 bilhões em 2013 para US$ 6 bilhões. Na sequência vem GM, com queda de 47,5%, de US$ 8 bilhões para US$ 4,2 bilhões na primeira metade deste ano.

A redução da receita da Fiat foi de 45%, de US$ 6,9 bilhões para US$ 3,8 bilhões, e da Ford de 43,3%, de US$ 5,3 bilhões para US$ 3 bilhões. Não há dados que indiquem a parcela do Brasil nesses resultados, mas, em vendas, a representação é majoritária. A Fiat tem cerca de 80% das vendas na América do Sul concentradas no mercado brasileiro. Para GM e Volkswagen, a participação é de 70%, enquanto para a Ford é de 60%.

O lucro medido pelo Ebit (antes de juros e tributos) saiu de US$ 516 milhões no primeiro semestre de 2013 para um prejuízo de US$ 160 milhões nas operações da Fiat na região neste ano. A GM ganhou US$ 16 milhões há dois anos, e em 2015 perdeu US$ 358 milhões. Já a Ford, que obteve lucro de US$ 119 milhões, agora contabiliza prejuízo de US$ 374 milhões. Nesse item não há números disponíveis da Volkswagen. Os dados não foram confirmados pelas fabricantes.

Ociosidade 
“O uso da capacidade instalada da indústria automobilística brasileira está em torno de 50% e toda empresa que opera abaixo de 70% de utilização entra no vermelho”, afirma David Wong, consultor sênior da ATKearney. “O Titanic está vindo e está difícil freá-lo”.

O presidente da General Motors América do Sul, Jaime Ardila, lembra que, em 2014, a indústria já começava a dar mostras de lentidão em vários países da região, especialmente no Brasil. As vendas totais de veículos na região caíram 10% ante 2013.

Neste ano, o Brasil deve fechar o ano com redução de 27% nas vendas na comparação com 2014. Na Argentina, o recuo será de 20% na Colômbia de 12%, no Equador de 30%, no Chile de 25%, e no Peru de 15%, prevê o executivo.

“Nossa previsão é de uma indústria de 4 milhões de unidades em 2015 para a América do Sul, o que significa uma queda de quase 2 milhões de unidades desde 2013”, afirma Ardila. Ele ressalta que o impacto na receita das empresas em dólares é grande em razão da desvalorização cambial. “Não é exagero falar numa queda na receita medida em dólares de 50% nos últimos dois anos.”

Investimentos 
Na opinião do executivo, todos os países da América do Sul estão sofrendo o impacto da queda nos preços do petróleo e do fim do ciclo de alta das commodities provocado pelo recuo do ritmo do crescimento da China. “No entanto, os países que mantiveram uma política expansiva de gasto público mesmo depois da crise de 2008/2009, como Brasil, Venezuela e Argentina, estão em situação pior do que aqueles que souberam retirar os incentivos fiscais na hora certa e arrumaram as contas públicas.”

Embora sem rentabilidade, não significa que as empresas, especialmente as quatro maiores e as marcas japonesas, estejam sem caixa, ressalta Wong. Ele acredita que investimentos em produtos não serão suspensos nos próximos anos.

Na opinião de Ardila, os investimentos em tecnologias novas e produtos devem seguir dentro do planejado “porque ficar atrás no mercado só piora a situação”. Mas ele ressalta a possibilidade de empresas adotarem alguns ajustes para adiar a introdução de tecnologias e itens de alto custo “que o cliente não esteja hoje em condições de bancar, especialmente nos segmentos de carros menores.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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