Documentos ligam Lula à trama para obstruir Lava Jato, diz Procuradoria

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Lula: "Eu já cansei, eu não tenho que provar que tenho apartamento, quem tem que provar é a imprensa que acusa, o Ministério Público que fala o que eu tenho a Polícia Federal que falou o que eu tenho”

Na denúncia oferecida à Justiça, o Ministério Público Federal (MPF) relaciona documentos que comprovam reuniões e inúmeros telefonemas entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e outros acusados de atuar para obstruir a Operação Lava Jato. Esses contatos ocorreram no mesmo período em que, segundo os investigadores, o grupo operacionalizava pagamentos de R$ 250 mil para comprar o silêncio do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró, que ameaçava delatar esquema de corrupção na Petrobras.

Na acusação, feita inicialmente pelo Procurador-Geral da República e reiterada pelo MPF do Distrito Federal após o caso ser remetido à Justiça Federal do DF com a perda de foro privilegiado de Delcídio, Rodrigo Janot afirma que Lula admitiu, quando foi ouvido durante a investigação, que chegou a tratar de "aspectos da Operação Lava Jato" em um dos encontros que manteve com Delcídio, mas negou ter participado ou mesmo saber de um esquema para comprar o silêncio de Cerveró.

A denúncia se baseia nas colaborações do senador cassado Delcídio Amaral (ex-PT, agora sem partido), do assessor de Delcídio, Diogo Ferreira, e também em documentos e relatórios da Polícia Federal que comprovaram os encontros dos envolvidos e os saques de dinheiro da família Bumlai em cinco pagamentos de R$ 50 mil.

Em depoimentos à Lava Jato, Delcídio afirmou ter tratado com Lula de estratégias para bancar despesas de Cerveró e sua família, como forma de evitar que ele contasse o que sabe sobre esquemas de corrupção na Petrobras que envolviam ele próprio, o pecuarista José Carlos Bumlai e o filho dele, Maurício Bumlai. Essas conversas teriam ocorrido em inúmeras reuniões entre o então congressista, que era líder do governo petista, e o ex-presidente.

De acordo com o aditamento da denúncia, feito pela Procuradoria-Geral da República (PGR), Lula tinha consciência de que uma eventual delação de Cerveró poderia relacionar seu nome a esquema para que o PT obtivesse R$ 12 milhões, a partir de um empréstimo fictício feito por Bumlai no Banco Schahin.

Conforme a Lava Jato, como forma de quitar dívida de Bumlai, o Grupo Schahin foi contratado, de forma fraudulenta, para operar um navio sonda da Petrobras. "Nesse panorama, tem-se que Luiz Inácio Lula da Silva, Maurício Bumlai e José Carlos Bumlai tinham plena consciência de que a colaboração premiada de Nestor Cerveró poderia envolvê-los, não apenas no tocante à concessão do empréstimo, mas também e especialmente em relação à contratação irregular da Schahin para operar a sonda Vitória, considerando que Nestor Cerveró era o Diretor da Área Internacional na época dos fatos e tinha total conhecimento das ilicitudes", escreveu Janot.

Um documento apreendido no Instituto Lula demonstrou que em 8 de abril de 2015 Delcídio se encontrou com Lula na sede da entidade em São Paulo. Nesse dia, conforme a delação do ex-congressista, o ex-presidente o exortou a "comprar o silêncio" de Cerveró. Dados do Senado mostraram que Delcídio voou a São Paulo na mesma data.

A quebra do sigilo de e-mails de funcionários do instituto revelou que Delcídio se reuniu com o ex-presidente também em 16 e 30 de abril; 19 de junho; e 31 de agosto de 2015.

Conforme a PGR, foi "precisamente no curso das tratativas da compra do silêncio de Cerveró e durante o período em que os pagamentos foram efetuados por Delcídio, José Carlos Bumlai e Maurício Bumlai".

Os investigadores sustentam que, entre as datas da primeira reunião com Delcídio e do primeiro pagamento a Cerveró, houve ainda diversas conversas por telefone entre Lula e Bumlai.

O primeiro pagamento, de R$ 50 mil, foi feito por Delcídio em 22 de maio de 2015, após receber o valor de Maurício Bumlai. A investigação mostrou que o valor foi sacado da conta de Maurício. No dia seguinte, Lula e Bumlai se falaram por duas vezes por telefone.

Já no período em que Delcídio buscava suporte financeiro para a família de Cerveró, a PGR verificou outros contatos entre o ex-presidente e Bumlai. Houve quatro telefonemas somente em 7 de abril de 2015, conforme a PGR.

"Há, portanto, diversos elementos que apontam, com segurança, para o envolvimento de Maurício Bumlai, José Carlos Bumlai e Luiz Inácio Lula da Silva na investida com o propósito de comprar o silêncio de Nestor Cerveró", sustenta Janot.


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Após ter virado réu na Justiça por suspeita de tentar obstruir as investigações da Operação Lava Jato, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou na tarde de sexta-feira, 29, durante evento em São Paulo, que tomou conhecimento da denúncia por meio da imprensa, mas que não sabe detalhes da acusação.

O ex-presidente limitou-se a comentar as suspeitas de que ele teria cometido ocultação de patrimônio. "Eu já cansei, eu não tenho que provar que tenho apartamento, quem tem que provar é a imprensa que acusa, o Ministério Público que fala o que eu tenho a Polícia Federal que falou o que eu tenho, eles que têm que apresentar documento de compra, pagamento de prestação, algum contrato assinado, porque se não tiver, eles terão que me dar de presente um apartamento e uma chácara, aí eu ganharei de graça essas cosias que eles falam que eu tenho", disse.

Lula tornou-se réu na tarde desta sexta-feira, quando o juiz Ricardo Leite, da Justiça Federal do Distrito Federal, aceitou denúncia contra o ex-presidente, o ex-senador Delcídio Amaral e outros cinco investigados, todos acusados pelo Ministério Público de tentar obstruir a Operação Lava Jato.

Segundo o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, Lula teria participado de uma trama para comprar o silêncio do ex-diretor da área Internacional da Petrobras Nestor Cerveró. Ontem, Lula encaminhou ao Comitê de Direitos Humanos da ONU uma denúncia contra o Estado brasileiro para tentar barrar ações que considera "abuso de poder" do juiz Sérgio Moro e dos procuradores da Operação Lava Jato. O órgão, no entanto, não tem como punir o Brasil nem impedir uma prisão.

Pode apenas fazer recomendações e, eventualmente, indicar se um juiz atua com parcialidade, sem qualquer implicação legal imediata. Mas uma avaliação da entidade poderia pesar e criar pressão a favor ou contra o ex-presidente.

Impeachment
Lula afirmou ainda que o Brasil passou por um golpe parlamentar. Para ele, a admissibilidade do processo de impeachment da presidente afastada, Dilma Rousseff, foi, na verdade, um gesto de vingança política dos deputados e senadores que votaram contra a petista.

"Os deputados e senadores que votaram pela admissibilidade do processo de impeachment de Dilma (Rousseff) carregarão na sua consciência, pelo resto da vida, o fato de terem votado de forma irresponsável, rasgando a constituição, contra uma mulher que não tem contra ela nenhum crime de responsabilidade", disse o ex-presidente.

Lula também criticou as homenagens que os deputados fizeram a seus familiares no dia da votação da admissibilidade do processo na Câmara. "Essa gente não pensa na família, querem tirar do governo um partido que, com todos os defeitos que tenha tido, é o partido que poderia ter a historia mais longeva de governar esse país, que fez em apenas 13 anos o maior processo de inclusão social, sem dar um único tiro, apenas exercendo a democracia e a participação popular", afirmou.

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